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Capítulo 2 Três ligações da Megera

Vivienne Mercer não era o tipo de mulher que ligava três vezes para o mesmo número na mesma noite.

Elena havia aprendido isso não por experiência direta, mas pela forma como o escritório inteiro mudava quando o nome dela aparecia na agenda. A recepcionista endireitava a postura. O assistente jurídico verificava a gravata. Até Marcus, o segurança do lobby que havia trabalhado em dois governos e não demonstrava reação emocional perceptível para nada, ficava ligeiramente mais formal quando Vivienne Mercer entrava pelo giro.

Elena havia visto a mulher pessoalmente duas vezes.

A primeira, três semanas depois de começar no emprego - Vivienne havia aparecido sem avisar, casaco Chanel cor de creme, cabelo prata impecável, sorriso que funcionava como uma porta de vidro: transparente, elegante, e capaz de machucar feio se alguém não prestasse atenção. Havia perguntado o nome de Elena com a entonação específica de quem pergunta o nome de objetos novos no escritório. *Bonita*, disse depois, para Alex, em voz baixa o suficiente para ser ouvida. Alex não havia respondido.

A segunda vez foi num evento de caridade em março. Vivienne havia segurado o braço de Elena por três segundos enquanto cumprimentava outras pessoas, como se estivesse ancorando algo que poderia flutuar.

Eram duas memórias pequenas. Elena as havia guardado no mesmo lugar mental onde guardava informações que ainda não sabia para que serviam.

Agora, olhando para o histórico de chamadas - 23h17, 23h49, 0h32 - tinha a sensação incômoda de que estavam prestes a servir para alguma coisa.

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A reunião com Hargrove terminou doze minutos antes do previsto.

Elena soube porque estava na mesa dela quando a porta da sala de conferências abriu mais cedo do que o calendário indicava, e porque Hargrove saiu com a expressão de quem assinou algo que não era exatamente o que havia esperado assinar - não insatisfeito, só levemente reorganizado, como móvel que foi movido dois centímetros do lugar original.

Alex saiu logo atrás dele, apertou a mão do homem com a cordialidade precisa de quem encerra reuniões, esperou o elevador fechar e então ficou parado no corredor por um momento que durou tempo demais para ser normal.

Elena fingiu que estava relendo o e-mail aberto na tela.

Observou pelo canto do olho.

Ele estava com a mão direita levemente fechada ao lado do corpo. Mandíbula contraída. Não era raiva - Elena conhecia a raiva dele, que era fria e se manifestava em frases curtas e decisões imediatas. Era outra coisa. Era o rosto de alguém que está somando números e não está gostando do resultado.

Passou por ela sem parar.

- Preciso de você às 14h - disse, no tom que usava quando não era pedido. - Sala fechada. Sem interrupções.

- Tenho sua chamada com Tóquio às 14h30 -

- Remarca.

Entrou no escritório. A porta fechou com o clique suave e definitivo que Elena havia aprendido a reconhecer como o equivalente sonoro de *assunto encerrado por ora.*

Ela ficou olhando para o vidro por três segundos.

Depois pegou o telefone e começou a reorganizar a tarde inteira de um homem que nunca explicava nada e esperava que tudo funcionasse de qualquer forma.

O problema crônico era que funcionava.

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Essa era a parte que Elena menos gostava de admitir sobre o emprego - não para outras pessoas, raramente para si mesma, nunca por escrito: ela era extraordinariamente boa naquilo.

Não era só eficiência. Qualquer pessoa organizada podia ser eficiente. Era outra coisa, mais difícil de nomear. Era a capacidade de antecipar. De ler o escritório como texto, cada silêncio e cada variação de tom como pontuação que revelava o que estava por vir. De reorganizar a tarde de um CEO em vinte minutos sem que nenhuma das seis pessoas afetadas percebesse que havia sido reorganizada.

Ela havia descoberto esse talento aos quinze anos, quando a mãe entrou numa das fases e Elena precisou administrar a casa, as contas, o humor de Carmen e a própria escola simultaneamente sem que nenhuma das partes entrasse em colapso visível.

Alexander Mercer era mais previsível que Carmen Vasquez nos anos ruins. Isso não era elogio para ele - era só contexto.

Elena terminou de reorganizar a agenda, confirmou o adiamento com Tóquio num e-mail de quatro linhas, avisou Marcus que a sala pequena precisava estar disponível às 14h, e voltou ao relatório que estava revisando antes de tudo isso começar.

Às 13h58 ela bateu na porta do escritório.

- Pode entrar - disse ele.

Imediatamente. Sem a pausa de trinta segundos que ele normalmente deixava, que Elena havia catalogado mentalmente como teste de paciência e nunca havia comentado em voz alta.

Ela entrou. Fechou a porta.

Ele estava sentado, não de pé. Os dedos entrelaçados sobre a mesa, postura reta, o mesmo terno azul-marinho da manhã sem uma ruga fora do lugar, mas algo nos ombros que ela só conseguia descrever internamente como *peso* - a diferença sutil entre um homem que está no controle e um homem que está trabalhando para parecer que está.

- Sente-se - disse ele.

Elena sentou.

Tirou o caderninho do bolso por hábito. Depois percebeu, pelo jeito que ele estava olhando para ela, que aquela não era uma reunião de agenda. Deixou a caneta quieta.

Ele ficou em silêncio por um momento.

O tipo de silêncio que ele usava quando estava escolhendo palavras com o mesmo cuidado que escolhia investimentos - descartando as que custavam mais do que valiam, ficando só com as essenciais.

- Preciso de um favor - disse ele finalmente.

Elena piscou.

Duas vezes, porque uma não pareceu suficiente para processar.

Em dois anos - quinhentos e quarenta e um dias úteis, se ela quisesse ser precisa, e às vezes queria - Alexander Mercer havia pedido coisas, delegado coisas, exigido coisas, e ocasionalmente dito *obrigado* com a entonação de quem cumpre protocolo social mínimo.

Nunca havia usado a palavra *favor.*

Elena abriu o caderninho. Posicionou a caneta. Manteve a expressão profissional que havia praticado o suficiente para que fosse automática.

- Pode falar - disse ela.

Ele a olhou diretamente nos olhos.

- O que vou propor vai parecer irracional - disse devagar, cada sílaba medida. - Quero que você escute até o fim antes de responder.

Elena apoiou a caneta no caderninho.

Pensou nas três ligações. 23h17, 23h49, 0h32.

Pensou na expressão dele no corredor depois da reunião com Hargrove.

Pensou na mão fechada ao lado do corpo.

*Ah*, pensou ela, com a clareza silenciosa de quem já somou os números antes de ver o resultado. *Isso vai ser um problema.*

- Estou ouvindo - disse.

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Lista de capítulos

91 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O homem que não sorri
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Três ligações da Megera
  3. Capítulo 3Capítulo 3 A arquitetura do impossível

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