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Capítulo 2 O silêncio de Caio

O sol de Brooklyn começava a se pôr quando Helena desceu do ônibus na esquina da rua onde seus pais moravam. O ar cheirava a asfalto quente e comida de rua, um cheiro que ela conhecia desde que nascera. As casas eram antigas, algumas com fachadas descascadas, outras recém pintadas por inquilinos que tentavam dar um ar de dignidade ao bairro.

Ela caminhou rápido, a mochila pesando nos ombros, os pés doendo depois de um dia inteiro de aulas. Estatística tinha sido exaustiva, com uma professora idosa que falava baixo demais. Helena tinha tomado três páginas de anotações e ainda sentia que não entendia metade do conteúdo.

Mas isso não importava agora. O que importava era chegar em casa a tempo de ajudar no restaurante.

O Duarte's Diner ficava na esquina da rua principal, um estabelecimento pequeno, com fachada vermelha e uma placa de néon que piscava há quinze anos sem nunca ter sido consertada. As janelas eram largas, permitindo que os clientes vissem as mesas de fórmica branca e as cadeiras de vinil vermelho lá de dentro. Não era chique. Mas era o restaurante que mantinha sua família viva, e Helena amava cada centímetro daquela fachada surrada.

Ela empurrou a porta e o som de uma campainha antiga ecoou no salão.

- Helena! - A voz de sua mãe, Rosa, veio da cozinha, quente e familiar. - Chegou bem? Comeu alguma coisa?

Helena sorriu, deixando a mochila em um canto perto do balcão.

- Comi sim, mãe. Uma amiga me pagou um hambúrguer no refeitório.

- Amiga? - Rosa apareceu na porta da cozinha, enxugando as mãos no avental branco. Tinha o mesmo tom de pele que Helena, os mesmos cabelos cacheados, mas os seus já estavam salpicados de fios grisalhos, e o rosto carregava marcas de anos de trabalho pesado. - Fez amiga no primeiro dia?

- Ela se chama Beca. É muito legal. E estudamos juntas.

- Que bom, filha. - Rosa sorriu, mas havia um cansaço profundo em seus olhos. - Vai ajudar seu pai? O movimento está fraco hoje, mas o Carlinhos pediu uma porção extra de batatas. Ele diz que as nossas são as melhores do bairro.

Helena riu.

- Ele diz isso toda semana.

- E ele está certo.

Helena passou para a cozinha, onde o calor era mais intenso. O pai, João, estava diante da chapa, uma espátula na mão, virando hambúrgueres com a precisão de quem fazia aquilo há trinta anos. Era um homem baixo, de ombros largos e mãos calejadas, com um bigode grisalho que ele recusava a raspar. Quando viu Helena, seu rosto se iluminou.

- Minha menina! - Ele largou a espátula e a abraçou, mesmo com as mãos sujas de gordura. - Como foi? A faculdade é tudo o que você esperava?

- Foi bom, pai. - Helena apoiou a cabeça no ombro dele por um segundo. - A primeira aula foi de Economia Avançada. O professor é... - Ela hesitou. - Exigente.

- Exigente é bom. - João a afastou, pegando a espátula novamente. - Professores exigentes ensinam melhor que os bonzinhos. Você vai aprender muito.

Helena sorriu, mas não disse nada sobre Matteo Ferraz. Como explicar para o pai que o professor era tão bonito que doía, e ao mesmo tempo tão frio que parecia uma estátua de gelo? Não havia palavras para aquilo.

Ela pegou um avental pendurado na parede e o amarrou sobre a blusa. Enquanto ajudava seu pai a preparar os pedidos, e servindo os poucos clientes que entravam, Helena sentiu seu corpo relaxar pela primeira vez em todo o dia. A rotina era previsível. Confortável. Na cozinha, ela sabia exatamente o que fazer.

Foi quando ouviu a porta dos fundos se abrir.

Helena levantou os olhos e viu Caio entrar. Seu irmão mais velho estava com um jeans e uma camiseta preta, mas havia algo diferente nele. O corpo estava mais magro, as olheiras mais profundas, e ele evitava o olhar dela enquanto passava pela cozinha em direção ao corredor que levava aos quartos.

- Caio! - chamou Helena, largando a espátula. - Você não veio jantar ontem. A mamãe ficou preocupada.

- Tive que trabalhar até tarde - respondeu ele, sem parar.

- Que trabalho? Você não falou de nenhum trabalho novo.

Caio parou. As costas ficaram rígidas, e Helena viu seus ombros subirem e descerem numa respiração profunda. Quando ele se virou, seu rosto estava neutro e um pouco tenso.

- Não é nada, Helê. Só uns bicos aqui e ali. Um amigo me chamou para ajudar na construção de um prédio.

- Construção? - Helena franziu a testa. - Desde quando você sabe construir alguma coisa?

- Aprendo rápido. - Caio forçou um sorriso que não chegou aos olhos. - Relaxa, mana. Eu sei o que estou fazendo.

Helena abriu a boca para insistir, mas algo na postura de Caio a fez parar. Ele parecia tenso, os músculos do maxilar contraídos, as mãos enfiadas nos bolsos. Havia um segredo ali, ela sabia, sempre soube quando Caio escondia algo. Mas o cansaço do primeiro dia de aula pesava em seus ombros. As anotações de Estatística a esperavam. E, no fundo, ela confiava que seu irmão mais velho sabia o que fazia.

Ele sempre deu um jeito. Sempre.

- Tudo bem - ela disse, baixando a guarda. - Mas não some de novo, okay? A mãe fica ansiosa.

- Combinado. - Caio assentiu, e o sorriso forçado continuou. - Vou dormir um pouco. Estou exausto.

Ele desapareceu no corredor, e Helena ouviu o rangido da porta do quarto se fechando. Durante um instante, ela ficou parada, olhando para o vazio que ele deixou. Algo a incomodava. Uma sensação no estômago, como se tivesse esquecido de alguma coisa importante.

- Helena! - A voz de seu pai veio da chapa. - Os pedidos estão prontos!

- Já vou, pai! - Ela balançou a cabeça, afastando o pensamento. Não é nada. É só cansaço.

O movimento no restaurante aumentou quando a noite chegou. Famílias com crianças, trabalhadores que voltavam do expediente, um casal de idosos que vinha todas as sextas feiras. Helena serviu mesas, pegou pedidos, limpou o balcão. O suor escorria pela sua testa, e seus cabelos cacheados ficavam cada vez mais volumosos com o calor da cozinha.

Quando o último cliente saiu, já passava das 22h. Rosa estava na porta, desligando a placa de néon.

- Ótimo movimento hoje, não foi? - ela disse, com um sorriso cansado. - O Carlinhos trouxe cinco amigos. Todos pediram as batatas especiais.

- Eles sabem o que é bom. - João saiu da cozinha com um pano no ombro, tirando o avental. - Helena, filha, vai descansar. Você trabalhou demais.

- Eu ajudo a fechar, pai.

- Não precisa. Sua mãe e eu damos conta. - Ele a beijou na testa. - Vai dormir. Amanhã você tem aula.

Helena concordou, desamarrando o avental. Subiu as escadas que levavam ao apartamento no andar de cima. O banheiro minúsculo estava livre, e ela aproveitou para tomar um banho rápido. A água gelada, já que o aquecedor estava com problemas de novo, fez seus músculos relaxarem.

Já no quarto, vestindo um pijama de algodão, Helena deitou na cama e olhou para o teto. As anotações de Estatística ainda estavam na mochila, esperando para serem revisadas. Mas seus olhos pesavam. Sua mente, também.

Caio.

Ela pensou nele. Na magreza, nas olheiras, naquele sorriso que não parecia genuíno. Na forma como ele evitou seu olhar. Você precisa confiar nele. Ele já é adulto.

Helena fechou os olhos, tentando convencer a si mesma.

Ela se virou na cama, enterrando o rosto no travesseiro.

Amanhã seria outro dia. Ela perguntaria a Caio. Descobriria o que estava acontecendo.

Por enquanto, o sono a venceu, e Helena caiu num sono profundo e pesado.

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Lista de capítulos

25 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O preço do atraso
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O silêncio de Caio
  3. Capítulo 3Capítulo 3 As duas faces de Matteo Ferraz

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