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Capítulo 3 As duas faces de Matteo Ferraz
As 6h da manhã encontraram Matteo Ferraz, na sua mansão em Brooklyn. O sol mal havia começado a nascer, pintando o horizonte em tons de laranja e rosa, mas ele já estava de pé há duas horas.
A academia particular ocupava uma ala da sua propriedade, Matteo se movia com precisão cirúrgica entre os aparelhos, os músculos contraindo sob a pele morena enquanto levantava pesos que fariam a maioria dos homens desistir na primeira série. O suor escorria por seu torso definido, escorrendo pelos abdominais marcados e desaparecendo na faixa da calça de treino.
Ele não pensava em nada enquanto malhava. Esse era o ponto. O corpo em movimento permitia que sua mente descansasse, algo raro para um homem que carregava o peso de dois impérios.
Terminado o treino, Matteo tomou um banho rápido e vestiu o primeiro terno do dia, cinza escuro, corte impecável, camisa branca sem gravata. No espelho, seu reflexo era o de um homem no auge da forma: 1,89m de altura, músculo e presença, cabelos escuros levemente úmidos, olhos verdes que pareciam enxergar através de qualquer mentira.
Mas o homem no espelho não era apenas Matteo Ferraz, professor de Economia.
Era também o Sr. F.
Duas horas depois, Matteo estava sentado em uma sala de reuniões no 45º andar de um edifício em Wall Street. A mesa de mármore negro refletia os rostos de dez executivos que o encaravam com uma mistura de admiração e medo.
- Os relatórios do terceiro trimestre estão aluém do esperado - disse Matteo, sua voz grave ecoando no silêncio da sala. - Alguém quer me explicar por quê?
Nenhum executivo ousou responder. Matteo os encarou um por um, seus olhos frios como gelo.
- Sr. F - começou um deles, um homem de meia-idade com terno azul e suor na testa -, houve uma flutuação no mercado de ações que afetou nossos investimentos no setor...
- Eu sei o que aconteceu no mercado. - Matteo o interrompeu, a voz cortando como uma lâmina. - O que eu quero saber é por que ninguém aqui previu essa flutuação. Vocês são pagos para antecipar, não para reagir.
O silêncio se estendeu, denso e desconfortável. Matteo se levantou, sua altura impondo uma presença avassaladora sobre a mesa.
- Tenho uma reunião em Paris em três horas. Até meu retorno, quero um plano de contingência completo. E quero que o responsável por essa falha seja identificado.
Ele saiu da sala sem olhar para trás. Ninguém ousou segui-lo.
No corredor, sua assistente, uma mulher loira chamada Diana, caminhava ao seu lado com um tablet na mão.
- Sr. F, a reunião em Paris foi confirmada. O avião particular está pronto no aeroporto. O senhor tem ainda duas horas antes do embarque.
- O suficiente. - Matteo apertou o botão do elevador. - Leve o carro até a universidade.
- A universidade, senhor? - Diana franziu a testa. - O senhor tem uma aula hoje?
- Tenho. E não vou faltar.
Diana não perguntou mais nada. Trabalhava com o Sr. F há cinco anos e sabia que perguntas desnecessárias eram desencorajadas.
Matteo entrou na sala 312 exatamente às 8h28. Dois minutos antes do sino.
A turma já estava toda presente, exceto uma cadeira vazia na última fileira. Seus olhos percorreram a sala rapidamente, registrando cada rosto, cada expressão. A maioria dos alunos parecia tenso, o que era esperado. Ele tinha uma reputação, e cultivava-a com cuidado.
Foi quando a porta se abriu.
Helena Duarte entrou com a mochila pendurada em um ombro, os cabelos cacheados presos num coque frouxo, a pele morena brilhando sob a luz fluorescente. Ela estava sem fôlego, como se tivesse corrido, mas seus olhos encontraram os dele com uma firmeza que o surpreendeu.
- Senhorita Duarte - Matteo disse, sua voz neutra. - No horário hoje. Impressionante.
Houve um riso abafado na sala. Helena não riu. Ela apenas inclinou a cabeça, um gesto mínimo de reconhecimento, e foi para seu lugar.
Matteo observou-a enquanto ela se sentava. Algo nela chamava sua atenção, não a beleza, embora fosse inegável. Era a postura. A forma como ela se recusava a encolher, mesmo sendo a bolsista da sala, mesmo tendo chegado atrasada no primeiro dia. Havia uma teimosia ali que ele reconhecia.
Interessante, pensou. Mas irrelevante.
Ele virou-se para o quadro e começou a aula.
- Hoje vamos falar sobre elasticidade de preços. Conceito simples, mas que a maioria de vocês vai errar na prova.
O conteúdo fluiu com a precisão de quem ensinava há anos. Matteo fazia perguntas, derrubava respostas incorretas com a ponta seca de sua língua, e observava os alunos se encolherem sob seu domínio. Era o que ele fazia de melhor e o que mais gostava.
Até que fez uma pergunta:
- Se o preço de um bem essencial aumenta em 10% e a demanda cai em apenas 2%, qual é o coeficiente de elasticidade?
Silêncio.
Matteo esperou, os olhos percorrendo a sala. Thomas, o garoto que ele havia humilhado na semana passada, olhou para a mesa. Beca, a loira falante, mordeu o lábio.
Então Helena levantou a mão.
Matteo franziu a testa.
- Senhorita Duarte?
- 0,2 - ela respondeu, a voz firme. - Demanda inelástica. O bem é essencial, portanto a mudança no preço não afeta proporcionalmente o consumo.
Matteo a encarou por um longo segundo. A resposta estava correta, não apenas correta, mas completa. Ela não apenas deu o número, mas explicou o raciocínio.
Ele não esperava isso.
- Correto - ele disse, sua voz mantendo-se neutra. - Alguém mais quer tentar?
Ninguém respondeu. Matteo continuou a aula como se nada tivesse acontecido, mas algo havia mudado. Ele não conseguia evitar que seus olhos voltassem para Helena de vez em quando. Ela anotava tudo com atenção, a testa franzida em concentração, a caneta deslizando pelo caderno com uma caligrafia pequena e organizada.
Ela estudou, pensou. Ela realmente estudou.
No final da aula, quando os alunos começaram a se levantar, Matteo falou:
- Senhorita Duarte. Um momento.
Helena parou, a mochila já na mão. Os outros alunos saíram, alguns lançando olhares curiosos. Beca tocou no ombro de Helena, um gesto silencioso de apoio, e saiu.
Matteo se aproximou da mesa dela, sua sombra cobrindo o caderno.
- Sua resposta hoje foi correta - disse ele, sem rodeios. - Mas correta não é suficiente. Você precisa entender por que a elasticidade varia entre bens essenciais e supérfluos. Esse é o tipo de nuance que separa os bons alunos dos excelentes.
Helena o encarou, sem piscar.
- Eu sei disso, professor. A utilidade marginal do bem essencial é maior, portanto o consumidor absorve o aumento de preço em vez de substituí-lo.
Matteo sentiu algo, um pequeno choque de surpresa. Ela não estava apenas repetindo o que ele havia dito. Ela entendia.
- Ler o livro não é o suficiente - ele continuou, sua voz ainda fria, mas com um traço de algo novo. - Você precisa aplicar o conhecimento em situações reais. Por isso, quero que você seja minha monitora.
Helena piscou, claramente surpresa.
- Monitora?
- Ajudar os alunos com dificuldade. Tirar dúvidas. Preparar material de apoio. - Ele se endireitou, olhando-a de cima. - É uma posição remunerada. E conta como horas de estudo extracurricular.
Ela hesitou.
- Eu... não sei se tenho tempo, professor. Meu pai precisa de ajuda no restaurante...
- Você terá um horário flexível. - Matteo não aceitava recusas. - Pense nisso. Me dê sua resposta amanhã.
Helena o encarou por um longo segundo, seus olhos escuros buscando algo no rosto dele. Mas o rosto de Matteo era uma máscara - fria, impenetrável.
- Vou pensar - ela respondeu, finalmente.
- Bom. - Ele virou as costas, indo em direção à mesa do professor. - Pode ir.
Ela saiu, e Matteo ouviu a porta se fechar.
Ficou sozinho na sala vazia, os olhos fixos na janela. Seu telefone vibrou no bolso - Diana, confirmando a viagem para Paris.
Sr. F, a mensagem dizia que o avião está pronto.
Quatro horas depois, Matteo estava em Paris.
O carro preto deslizava pelas ruas de paralelepípedos enquanto ele revisava documentos em seu tablet. A reunião era com um conglomerado francês, uma fusão bilionária que só o Sr. F poderia orquestrar.
Na sala de reuniões, ele era uma figura imponente, o terno substituído por outro igualmente impecável, o olhar tão frio quanto em Brooklyn. Os executivos franceses tremiam diante dele, não só por medo físico, mas por respeito ao poder que ele representava.
- O Sr. F é um homem difícil de encontrar - disse um deles, com sotaque carregado. - Sua reputação o precede.
Matteo inclinou a cabeça, um gesto mínimo.
- Minha reputação é baseada em resultados. Nada mais.
A negociação durou horas. Quando finalmente fechou o acordo, Matteo assinou os papéis com uma caneta de ouro e se levantou.
- Enviarei meus advogados para os detalhes finais. - Ele estendeu a mão. - Foi um prazer fazer negócios.
O executivo francês apertou sua mão, claramente aliviado.
Mais tarde, no avião particular a caminho de Nova York, Matteo ficou olhando pela janela, as luzes da cidade se estendendo abaixo dele como um mar de diamantes.
Seu telefone vibrou. Uma mensagem da universidade: Confirme sua presença para a reunião de professores amanhã.
Ele respondeu com um simples "sim" e guardou o telefone.
A mente de Matteo vagou, contra sua vontade, para a sala 312. Para a garota de cabelos cacheados que respondera sua pergunta com precisão cirúrgica.
Helena Duarte.
O nome ecoou em sua mente por um segundo.
Ele fechou os olhos, afastando o pensamento. O sono veio rápido, o cansaço do dia finalmente pesando sobre ele. Mas mesmo no limiar do sonho, a imagem daqueles olhos escuros e firmes permaneceu.
Irrelevante, ele repetiu para si mesmo.
Mas sua mente discordou.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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