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COMPASSO
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Capítulo 2 O dia seguinte

POV ALICE

O e-mail do advogado chega às oito e treze da manhã, exatamente uma semana depois da cirurgia.

Assunto: Atualização – Apuração Interna.

Eu abro deitada de lado na cama, o celular iluminando o quarto ainda escuro. O texto é curto e cuidadoso. A comissão solicitou complementação de prontuário. Dois depoimentos de equipe já foram colhidos. Meu depoimento está marcado para daqui a onze dias. Até lá, o afastamento permanece. Sem previsão de retorno às atividades assistenciais.

Eu leio duas vezes. Depois deixo o celular cair no colchão e fico olhando o teto.

Onze dias.

Parece pouco. Parece uma eternidade.

Levanto porque ficar parada dói mais. Faço café sem queimar desta vez. Tomo banho demorado. Vista uma calça de moletom e uma camiseta velha que já foi do Eduardo. O tecido ainda tem um cheiro vago de amaciante que não é o meu.

Marina manda mensagem às nove:

Café?

Não hoje.

Alice.

Depois.

Ela não insiste. Isso é novo. Normalmente ela insistiria.

Às onze o interfone toca. Eu atendo sem vontade.

- É o Eduardo.

A voz do porteiro é neutra. Eu demoro três segundos para responder.

- Manda subir.

Ele chega com uma pasta marrom debaixo do braço e a cara de quem não dormiu direito. Cabelo mais curto do que da última vez. Barba por fazer. Olha para mim como se estivesse medindo o estrago.

- Você está magra.

- Bom dia para você também.

Ele entra. Não tenta me beijar no rosto. Só deixa a pasta em cima da mesa da sala e fica de pé, desajeitado.

- Trouxe uns papéis do apartamento. Coisas que ainda estavam no meu nome. Conta de condomínio atrasada, umas notas fiscais do conserto do ar-condicionado... Achei melhor você ver.

Eu abro a pasta. São documentos banais. Vida de gente que um dia dividiu endereço.

- Pode deixar. Eu resolvo.

Ele balança a cabeça.

- Não precisa resolver sozinha. A gente ainda está casado no papel, Alice.

- Separados de fato há quase dois anos.

- Eu sei.

O silêncio fica pesado. Eu fecho a pasta.

- Você veio só por causa disso?

Eduardo passa a mão na nuca. O mesmo gesto de sempre quando está desconfortável.

- Vim porque ouvi sobre a cirurgia. Sobre o afastamento. Queria ver se você estava... intacta.

Eu rio sem humor.

- Intacta é uma palavra otimista.

- Alice...

- Estou bem o suficiente para não precisar de visitas de solidariedade. Obrigada pelos papéis. Pode ir.

Ele olha para mim por mais alguns segundos. Depois acena, vira de costas e sai. A porta se fecha com um clique suave demais para o tamanho do que ficou no ar.

Eu sento no sofá e fico olhando a pasta fechada.

À tarde Marina aparece mesmo sem eu ter pedido. Entra, olha a pasta, olha minha cara e solta:

- Ele veio.

- Veio.

- E?

- Trouxe boletos.

Marina bufa, abre a geladeira, pega duas cervejas e senta do meu lado no sofá.

- Você está deixando ele te ver assim?

- Assim como?

- Quebrada.

Eu bebo um gole longo.

- Eu não estou quebrada. Estou afastada. Tem diferença.

- Tem. Mas você está com cara de quem não lembra a diferença.

Ficamos caladas um tempo. A televisão ligada no mudo mostra um jornal local. Marina bebe devagar. Eu bebo mais rápido.

- Você precisa sair daqui - ela diz de repente. - Mesmo que seja só para andar no calçadão. Ou ir na casa da mãe. Ou qualquer lugar que não seja essas quatro paredes.

- Eu saí. Outro dia.

- E?

- E voltei.

Marina me olha de lado. Não pergunta detalhes. Graças a Deus.

POV HENRIQUE

O plantão termina às sete da manhã e eu ainda estou no hospital às oito e meia.

A cirurgia de ontem foi longa. Troca de valva aórtica em paciente de setenta e dois anos, calcificação importante, acesso difícil. Saímos limpos, o paciente está estável na UTI, mas o cansaço senta nos ombros como peso concreto.

Verônica manda mensagem enquanto eu troco de roupa no vestiário:

Você vem almoçar em casa ou fica por aí?

Vou para casa.

Ok.

Só isso. Ok.

O caminho até o Edifício Atlântico é curto. Eu estaciono, subo, abro a porta. O apartamento cheira a café e a algo que ela deve ter esquecido no forno. Verônica está na cozinha, de jaleco ainda por cima da blusa, cabelo preso num coque apressado. Ela levanta o olhar quando me vê.

- Você está com cara de quem operou a noite inteira.

- Foi o que aconteceu.

Ela acena para a cafeteira.

- Tem fresco. Quer?

- Quero.

Sento na banqueta da ilha. Ela serve duas xícaras. O silêncio entre a gente não é novo. Existe há meses. Às vezes é confortável. Às vezes é só vazio.

- A reunião da diretoria é às duas - ela diz. - Vou precisar sair mais cedo.

- Tudo bem.

- E o caso da valva?

- Estável. Vou passar lá no final da tarde.

Verônica bebe um gole, observa a xícara como se houvesse algo interessante nela.

- Você sumiu um pouco nas últimas semanas.

Eu ergue a sobrancelha.

- Plantão. Cirurgias. O de sempre.

- Não é só isso.

Ela não continua. Não precisa. Eu sei o que ela está dizendo. A distância. As noites em que eu chego e ela já está dormindo. As manhãs em que a conversa é só logística. Não é briga. É erosão.

Eu bebo o café. Quente demais.

- Estou cansado, Verônica. Só isso.

Ela sorri sem alegria.

- Eu também.

Depois ela vai tomar banho. Eu fico na cozinha olhando pela janela o pedaço de mar que se vê do décimo andar. Em algum momento a imagem de uma mulher sem nome atravessa a cabeça: cabelo escuro solto, boca com gosto de uísque, o jeito como ela disse "mais fundo" sem pedir licença. Eu empurro o pensamento para o lado. Não tem utilidade. Foi uma noite. Acabou.

Verônica sai do banheiro vestida para a reunião. Beija meu rosto de lado, quase automático, e sai.

Eu fico sozinho no apartamento silencioso.

POV JÚLIA

O plantão começa com um senhor de setenta e poucos anos caindo da escada de casa e termina com uma adolescente de dezessete que tentou se matar com dipirona e refrigerante.

Entre um e outro: três crises asmáticas, um infarto que chegou tarde demais, uma criança com corpo estranho no nariz (era um feijão) e um homem que jurou de pé junto que a facada foi "acidental".

Eu estou com a terceira xícara de café na mão quando o residente novo me pergunta, com a cara de quem ainda acredita em justiça divina:

- Como você aguenta?

- Cafeína, deboche e a certeza de que amanhã vai ser pior. Próximo.

Ele não ri. Pena. Eu ri sozinha.

Às onze da noite o fluxo diminui o suficiente para eu conseguir sentar cinco minutos na sala de descanso. O celular vibra. É o Lucas. Ou o Pedro. Ou o que-seja-o-nome-dele da semana passada.

To livre. Vem?

Eu olho a mensagem. Digito:

To de plantão, gato. E você já falou merda demais na última vez.

Ele responde com um emoji de coração partido. Eu bloqueio o número antes que ele tente ser criativo.

Samuel aparece na porta da sala de descanso com duas garrafas de água e a cara de sempre: calmo, atento, como se o caos do pronto-socorro fosse apenas um detalhe inconveniente.

- Você comeu alguma coisa?

- Comi raiva. Tem as mesmas calorias.

Ele estende a água. Eu aceito.

- Patrícia perguntou se você ainda vai no aniversário da sobrinha dela no sábado.

- Vou. Levo vinho e um sorriso falso de amiga dedicada.

Samuel quase sorri.

- Você é péssima em sorrisos falsos.

- É o meu charme.

Ele fica mais um minuto, depois some de volta para a UTI. Eu fico olhando a porta fechada e penso, pela milésima vez, que a gente se conhece há seis anos e ainda assim tem coisas que nunca foram ditas em voz alta. Coisas que talvez nunca precisem ser.

O plantão continua. Chega uma mulher de meia-idade com dor torácica. Eu examino, peço ECG, troco provocações com a técnica de enfermagem sobre o horário absurdo. A paciente estabiliza. Eu anoto o prontuário com letra legível só por pura teimosia.

Às seis da manhã eu saio do hospital com o sol nascendo e a certeza de que meu encontro amoroso frustrado da semana continua frustrado. E que está tudo bem assim.

Quase.

POV ALICE

O convite chega num e-mail limpo, profissional, sem floreios.

Assunto: Processo Seletivo – Cirurgia Geral – Hospital Santa Aurora.

Eu leio sentada na varanda, de manhã, com o café esfriando do meu lado. O texto informa que meu currículo foi pré-selecionado. A entrevista está marcada para daqui a três semanas, em Porto das Flores. Pedem confirmação de interesse e disponibilidade para deslocamento.

Eu leio de novo.

Santa Aurora. Porto das Flores.

Longe o suficiente para ser outro começo. Perto o suficiente para eu não precisar inventar uma vida inteira do zero.

Marina aparece atrás de mim, olha a tela por cima do meu ombro e solta um assobio baixo.

- Olha só.

- Não fala nada ainda.

- Eu não falei.

- Você ia falar.

Ela ri, puxa uma cadeira e senta.

- Vai?

Eu fico olhando o e-mail por mais alguns segundos.

- Eu ainda não sei.

Mas a verdade é que o peito apertou de um jeito diferente. Não de medo. De possibilidade.

POV HENRIQUE

A reunião da comissão clínica termina quase às sete da noite.

Verônica está na cabeceira da mesa, impecável, voz firme. Otávio Brandão ocupa a outra ponta, balançando a caneta entre os dedos enquanto discute números de ocupação e margem. Eu fico no meio, prestando atenção pela metade.

No final, Verônica fecha a pasta e anuncia, quase como quem comenta o tempo:

- Vamos abrir vaga efetiva para cirurgia geral. A equipe está curta desde a saída do Cardoso. Quero alguém com experiência em trauma e disponibilidade para plantão. Currículos até o final do mês.

Otávio resmunga alguma coisa sobre orçamento. Verônica nem pisca.

- A gente discute o orçamento depois. A vaga abre.

Eu anoto mentalmente. Mais uma contratação. Mais uma pessoa para avaliar. Mais uma variável no hospital que já tem variáveis demais.

Quando a reunião termina, Verônica me encontra no corredor.

- Você vai para casa?

- Vou passar na UTI primeiro.

Ela acena.

- Não demora demais. Tem sobra de jantar.

Eu assinto. Ela segue na direção do elevador dos funcionários. Eu fico parado alguns segundos, olhando o corredor vazio.

A imagem da mulher do hotel volta, rápida, sem aviso. O jeito como ela segurou meu cabelo. O som que fez quando gozou. Eu sacudo a cabeça e sigo para a UTI.

Não tem utilidade.

Foi só uma noite.

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Lista de capítulos

11 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O que as mãos não conseguem salvar
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O dia seguinte
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O voto vencido

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