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Capítulo 3 O voto vencido
POV HENRIQUE
A pasta chega na minha mesa às nove e quarenta da manhã, com uma nota adesiva da secretaria da diretoria clínica:
Candidatos – Cirurgia Geral – reunião 14h.
Eu abro. São cinco currículos. Três homens, duas mulheres. Experiências variadas, alguns com passagem por trauma, outros mais voltados para eletivas. Eu leio com a atenção que o cargo exige, marcando pontos com a caneta.
O quarto currículo me faz parar.
Alice Vasconcelos, 32 anos. Cirurgiã geral com prática consolidada em trauma. Residência em hospital de grande porte. Dois anos de atuação em serviço de emergência de referência. Depois... um período de afastamento administrativo recente, justificado por apuração interna em andamento. O texto é cuidadoso. Não há condenação. Não há absolvição. Há apenas o fato: afastamento, processo aberto, candidata disponível para nova colocação.
Eu folheio os anexos. Relatórios técnicos. Pareceres. Nenhum retrato. Nenhuma entrevista prévia comigo. Só papel.
Sento mais fundo na cadeira e leio de novo o trecho sobre a cirurgia que motivou a apuração. Os dados são incompletos do ponto de vista de quem não estava na sala. Decisão tomada sob pressão de recursos, desfecho grave, comissão instaurada. Nada que me diga com clareza se a conduta foi temerária ou apenas humana em circunstâncias ruins. Mas o afastamento está lá. E eu sou o tipo de cirurgião que prefere sobrar cautela do que faltar.
Anot o nome na margem: reservas técnicas – acompanhar.
Às duas da tarde a comissão se reúne na sala de reuniões do terceiro andar. Verônica preside. Otávio está presente, como sempre, com a pasta de números. Dois chefes de serviço, a coordenadora de enfermagem e eu completamos a mesa.
Os currículos são projetados um a um. Discussão técnica, perguntas sobre disponibilidade de plantão, perfil de equipe. Quando chega a vez de Alice Vasconcelos, Verônica resume o histórico com a voz precisa de sempre.
- Experiência sólida em trauma. Currículo compatível com a necessidade atual. Há uma apuração em andamento no serviço anterior. Solicitei documentação complementar. A candidata se disponibilizou a esclarecer pessoalmente na entrevista.
Otávio balança a caneta.
- Afastamento administrativo não é detalhe pequeno.
- Não é - concordo. - E não temos elementos suficientes para avaliar a gravidade real do episódio. Só o fato de que houve desfecho grave e processo aberto.
Verônica me olha por cima dos óculos de leitura.
- Você está sugerindo descartar?
- Estou sugerindo cautela. Podemos priorizar candidatos sem pendência formal.
Um dos chefes de serviço murmura concordância. A coordenadora de enfermagem faz cara de quem já viu muita gente boa ser descartada por papelada. Verônica fecha a pasta com um gesto seco.
- A equipe está curta. O Cardoso saiu há três meses e a sobrecarga está aparecendo nos indicadores de tempo-porta. Eu não vou descartar uma cirurgiã com esse perfil por uma apuração que ainda não concluiu nada. Vamos entrevistar. E vamos colocar salvaguardas: supervisão inicial mais próxima, avaliação em noventa dias, transparência total com a comissão de ética se o processo anterior avançar.
Eu mantenho o tom baixo.
- Meu voto é contrário à continuidade dela no processo neste momento.
Verônica anota. Não discute. Não muda de expressão.
- Registrado. Voto vencido.
A reunião segue. No final, a decisão é unânime com a minha ressalva: Alice Vasconcelos segue para entrevista. Os outros quatro também. A vaga continua aberta.
Quando saio da sala, Verônica me alcança no corredor.
- Você foi duro.
- Fui técnico.
Ela cruza os braços.
- Técnico ou excessivamente cauteloso?
- Às vezes é a mesma coisa.
Verônica segura meu olhar por um segundo a mais do que o necessário. Depois solta o ar e acena.
- A entrevista dela é na quinta. Você não precisa estar.
- Eu não vou estar.
Ela parte na direção do elevador. Eu fico parado alguns instantes, a pasta ainda na mão. O nome Alice Vasconcelos não me diz nada além do que está no papel. Não associa a nenhum rosto. Não associa a nenhuma noite.
Só a um risco que eu preferia não correr.
POV VERÔNICA
Eu fecho a porta do meu consultório e fico em pé atrás da mesa por um minuto inteiro, olhando a cidade pela janela.
Henrique votou contra.
Não foi surpresa. Ele é assim: prefere o caminho mais estreito, a margem de segurança maior, o "não" antes do "vamos ver". Eu respeito isso na sala de cirurgia. Na gestão, às vezes me cansa.
A equipe precisa de gente. O trauma está sobrecarregado. Os plantões estão sendo cobertos com gambiarra de escala. Eu sei o peso de uma apuração aberta. Sei o que significa para a cabeça de quem está do outro lado. Mas também sei ler um currículo. Alice Vasconcelos tem o perfil que a gente precisa. E eu não vou descartar competência por medo de papelada.
Sento. Abro o notebook. Escrevo um e-mail curto para a secretaria:
Confirmar entrevista com Dra. Alice Vasconcelos – quinta-feira, 10h. Avaliadores: eu, Dr. Mendes e a coordenação de enfermagem. Dr. Montenegro não participa desta etapa.
Envio.
Depois abro a pasta de manutenção preventiva que Otávio deixou na minha mesa ontem. Três alertas antigos sobre equipamentos de hemodinâmica. Prazos estourados. Eu grifo em amarelo e anoto no canto: cobrar retorno formal até sexta.
O telefone interno toca. É a recepção.
- Doutora, sua mãe ligou. Disse que é rápido.
Eu atendo. Minha mãe fala durante quatro minutos sobre a empregada que faltou e sobre o fato de que meu pai está recusando a fisioterapia de novo. Eu escuto, respondo o necessário, desligo. O casamento dos meus pais tem quarenta e dois anos e ainda assim parece mais simples de administrar do que o meu algumas semanas.
Henrique e eu não brigamos. Brigar seria mais fácil. A gente só... afasta. Cada um no seu canto de cansaço. Eu sei que parte disso é meu. A diretoria clínica come horas. Come atenção. Come a versão mais leve de mim. Ele também não facilita. Às vezes olho para ele à noite e vejo um homem que está presente no corpo e ausente em quase todo o resto.
Eu não sou esposa que espera em casa com jantar pronto e reclamação pronta. Nunca fui. Mas também não sou de fingir que está tudo bem quando não está.
Pego o telefone e mando mensagem para ele:
Jantar em casa hoje? Ou você fica no hospital?
A resposta demora sete minutos.
Vou tentar chegar até as 21h.
Eu digito apenas: Ok.
E volto para os alertas de manutenção.
POV ALICE
O avião aterrissa em Porto das Flores às sete e vinte da manhã. O céu está limpo. O ar que entra pela manga da pista tem cheiro de mar e de asfalto quente.
Eu pego a mala de mão, passo pela desembarque e pego um táxi até o hotel perto do hospital. Quarto simples, cama firme, janela com vista parcial para o mar. Tomo banho, visto a calça social escura e a blusa que escolhi com cuidado: profissional o suficiente para não parecer que estou pedindo emprego de joelhos, humana o suficiente para não parecer robô.
Às nove e quarenta estou na recepção do Santa Aurora.
O hospital é maior do que eu imaginava pelas fotos do site. Corredores largos, sinalização clara, movimento constante de jalecos. A secretária da diretoria clínica me recebe com um sorriso educado e me leva até uma sala de reuniões com mesa de madeira clara e três cadeiras ocupadas.
Verônica Montenegro se apresenta primeiro. Intensivista, diretora clínica, voz precisa, olhar que não desperdiça movimento. Ao lado dela, um cirurgião mais velho chamado Mendes e a coordenadora de enfermagem, uma mulher de meia-idade que aperta minha mão com firmeza.
Não tem nenhum Henrique Montenegro na sala. Eu nem sei que esse nome existe ainda.
A entrevista dura quase uma hora. Perguntas técnicas sobre trauma, sobre tomada de decisão sob pressão, sobre trabalho em equipe. Eu respondo com honestidade calculada. Quando chega a parte da apuração, Verônica olha direto para mim.
- Precisamos entender o contexto do afastamento.
Eu endireito a coluna.
- Houve uma cirurgia de trauma com lesão vascular complexa. Recursos limitados naquele momento. Tomei uma decisão sob pressão. O desfecho foi grave. A comissão interna está apurando. Eu cooperarei com tudo o que for necessário. Não tenho condenação. Tenho um processo aberto e a disposição de esclarecer cada detalhe.
Verônica anota algo. Mendes faz uma pergunta sobre o tipo de clamp que eu usei. A coordenadora quer saber como eu lido com equipe em situações de tensão. Eu respondo. Não embelo. Não me vitimizo.
No final, Verônica fecha a pasta e diz:
- Se avançarmos, haverá período de avaliação mais próximo nos primeiros noventa dias. Transparência total com qualquer desdobramento da apuração anterior. Você topa essas condições?
- Topo.
Ela acena, satisfeita.
- Retornaremos em até dez dias.
Eu saio do hospital com a boca seca e as mãos firmes. No táxi de volta ao hotel, olho pela janela a cidade que ainda não conheço. Porto das Flores. Nome bonito demais para um lugar onde eu posso recomeçar ou quebrar de novo.
No quarto, tiro a roupa social, visto a camiseta velha e deito na cama olhando o teto. O celular vibra. Marina.
E aí?
Foi. Agora é esperar.
Você estava boa?
Eu estava eu.
Marina responde com um emoji de polegar. Eu sorrio pela primeira vez em dias.
POV HENRIQUE
A confirmação da contratação chega no meu e-mail numa terça-feira, quase no final do expediente.
Assunto: Admissão – Dra. Alice Vasconcelos – Cirurgia Geral.
Eu abro. Contrato assinado. Data de início: daqui a três semanas. Supervisão inicial sob responsabilidade da diretoria clínica e do serviço de cirurgia. Meu nome não aparece em nenhum lugar da comissão de acompanhamento.
Leio o e-mail duas vezes. Depois fecho.
Não sinto alívio. Não sinto irritação. Sinto apenas o peso familiar de ter sido voto vencido e de ter que conviver com a decisão.
Levanto da cadeira, pego o jaleco e desço para a UTI. Tem um paciente meu em pós-operatório de troca de valva que precisa de avaliação. Trabalho. Anoto. Falo com a equipe. O resto do mundo fica do lado de fora da porta da unidade.
À noite, em casa, Verônica está no sofá com o notebook no colo. Eu beijo o topo da cabeça dela por hábito. Ela ergue o rosto.
- A Vasconcelos aceitou. Começa no mês que vem.
- Eu vi o e-mail.
Ela observa meu rosto por um segundo.
- Você ainda discorda.
- Eu registrei meu voto. Agora é seguir.
Verônica fecha o notebook.
- Às vezes eu me pergunto se você desconfia de todo mundo ou só das pessoas que ainda não teve tempo de julgar pessoalmente.
Eu não respondo de imediato. Vou até a cozinha, pego água, volto.
- Eu desconfio de processos incompletos. É diferente.
Ela solta um sopro que quase vira riso.
- Às vezes é a mesma coisa, Henrique.
Eu sento do outro lado do sofá. O silêncio se instala de novo, familiar e desconfortável. Em algum momento a imagem da mulher do hotel atravessa a cabeça - rápida, sem pedido de licença. O gosto de uísque. O jeito como ela não pediu nome. Eu empurro o pensamento para longe.
Não tem relação com nada.
Só uma noite. E uma contratação que eu não aprovei.
Nada mais.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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