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Capítulo 2 Exatamente o que eu queria

ANGELINA ROSSI “Alguns chamam de desgraça. Eu chamo de oportunidade.” Amanhã, Tonny Romano seria meu marido. Naquela noite, porém, minha virgindade ainda me pertencia. Sentei-me diante do espelho e deslizei o batom vermelho sobre os lábios, ignorando o silêncio fúnebre que tomava a mansão. Os corredores estavam vazios. As portas, fechadas. Ninguém falava acima de um sussurro, como se os Rossi já velassem a minha morte. Para a minha família, casar-se com um Romano não era muito diferente de ser enterrada viva. O quarto permanecia igual ao de quando eu era criança. Os retratos nas paredes, as flores secas que minha mãe gostava de colocar sobre o criado-mudo, a janela voltada para o jardim de inverno. Cada objeto parecia querer me recordar quem eu fora antes de me tornar o pagamento de uma dívida de sangue. Mas eu já não era aquela garota. O homem com quem meu pai pretendia me casar estava dentro de um caixão fechado. Tonny Romano o executara diante de dezenas de testemunhas, interrompendo meu noivado com uma bala no coração e reivindicando a minha mão como compensação pela guerra entre nossas famílias. Uma cena brutal. Uma humilhação pública. Exatamente o que eu precisava. Contive o sorriso enquanto fechava o batom. Todos acreditavam que Tonny havia destruído meu futuro. Não sabiam que ele apenas eliminara o homem de quem eu precisava me livrar. Meu falecido noivo era arrogante, controlador e convencido de que receberia uma esposa tão obediente quanto os cavalos que colecionava. Quando falava comigo, não enxergava uma mulher. Via um sobrenome, um ventre e uma aliança conveniente. Tonny Romano havia me libertado dele. O preço seria me casar com um homem muito mais perigoso. E eu estava disposta a pagá-lo. Tonny era o nome que fazia os homens do meu pai fecharem as portas antes de conversar. O inimigo mencionado em voz baixa, como se pudesse atravessar paredes e arrancar a língua de quem o desafiasse. Um homem capaz de desestabilizar alianças apenas entrando em uma sala. Em menos de vinte e quatro horas, eu carregaria o sobrenome dele. Romano acreditava que havia me escolhido. A verdade era outra. Eu o escolhera primeiro. A porta se abriu com tanta força que bateu contra a parede. Chiara entrou no quarto bufando, os cabelos loiros soltos sobre os ombros e os olhos acesos de indignação. — Você está se maquiando? Olhei para a imagem dela pelo espelho. — Como pode ver. — Seu noivo foi assassinado diante de você, nosso pai praticamente a entregou ao responsável e amanhã você vai se casar com um Romano. Mas está passando batom como se fosse sair para jantar. — Não vou sair para jantar. — Isso não melhora a situação. Voltei a atenção para meu reflexo e corrigi o contorno dos lábios. — Também não adianta chorar. Chiara atravessou o quarto e parou atrás de mim. — Não entendo como consegue ficar tão calma. — A calma assusta mais do que o desespero. — Angelina... — Amanhã, todos esperarão encontrar uma vítima no altar. Não pretendo satisfazê-los. Ela soltou o ar e caminhou até a cama. — Você aceitou rápido demais. Fechei o estojo de maquiagem. — Não aceitei. Nosso pai aceitou por mim. — Você poderia ter gritado. Poderia ter se recusado. Poderia ter feito qualquer coisa além de ficar parada diante daquele homem como se... — Como se eu não estivesse com medo? Chiara não respondeu. Girei o banco e a encarei. — Eu estava com medo. — Não pareceu. — Era essa a intenção. Ela se sentou na beira da cama, apertando os próprios dedos. — Ele matou um homem na sua frente. — Um homem que você mesma considerava desprezível. — Isso não torna o assassinato menos horrível. — Não. Apenas torna o luto menos convincente. Chiara ergueu os olhos para mim, chocada. Eu me levantei e caminhei até o armário. — Não precisa fingir comigo — acrescentei. — Você sabia que aquele casamento me tornaria miserável. — Sabia. Mas existe uma diferença entre desejar que um casamento seja cancelado e ver o noivo levar um tiro no peito. — Para Tonny Romano, a diferença é apenas o método. Retirei o vestido preto do cabide e o coloquei sobre a cama. Chiara acompanhou o movimento. — Por que você está se arrumando? — Porque vou sair. — Sair para onde? — Para uma festa. Ela permaneceu alguns segundos em silêncio, como se esperasse que eu começasse a rir. Não comecei. — Você enlouqueceu. — Talvez. — Angelina, você vai se casar amanhã. — Estou perfeitamente informada sobre a data. — Com Tonny Romano. — Também não esqueci o nome do noivo. Ela se levantou. — Então me explique por que está agindo como se tudo isso fosse parte de um plano. Parei diante dela. Chiara sempre fora a luz da família. A filha que ainda acreditava que o amor poderia existir dentro daquelas paredes. Que escondia encontros com Vincenzo e imaginava que nosso pai acabaria cedendo quando percebesse que os sentimentos dos dois eram verdadeiros. Eu não tinha coragem de arrancar essa esperança dela. Meus planos eram maiores, mas ao menos por um momento a mais, eu pretendia deixar Chiara longe do que estava por vir. O casamento era o meu destino e eu precisava fazê-la entender por que eu não fugiria. — Se eu recusasse Tonny, ele exigiria outra forma de compensação. — Os Rossi podem dar mais território, dinheiro.... — Sangue. Isto seria exigido! O rosto dela perdeu a cor. — Não. — A última vítima da Faida foi um Romano. Segundo as antigas regras, a família responsável precisa entregar alguém de sua linhagem para selar o acordo. Tonny pediu uma filha solteira de Mario Rossi. — Ele pediu você. — Porque sou a mais velha. Mas, se eu desaparecesse, restaria você. Chiara negou com a cabeça. — Papai jamais permitiria. — Nosso pai me entregou diante de um cadáver sem sequer olhar nos meus olhos. Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Aproximei-me e segurei suas mãos. — Você ama Vincenzo e o preço seria alto ... — Isso não tem nada a ver com ele. — Tem tudo a ver com ele. Tonny não aceitaria que você continuasse encontrando outro homem depois de ser prometida a um Romano. E Vincenzo morreria antes do amanhecer. Os dedos dela ficaram gelados entre os meus. — Então está fazendo isso por mim? A pergunta veio tão baixa que quase desapareceu. Soltei suas mãos. — Estou fazendo porque é a decisão mais inteligente. — Angelina. — Não romantize meu sacrifício. Você sabe que detesto esse tipo de coisa. Ela me abraçou antes que eu pudesse recuar. Por alguns segundos, permaneci rígida. Depois envolvi sua cintura e fechei os olhos. Chiara era a única pessoa naquela casa por quem eu pisaria voluntariamente no inferno. — Ele pode machucar você — sussurrou contra meu ombro. — Pode tentar. — sabia que o objetivo dele era me ferir além do físico, a raiva entre nossas famílias era antiga. — Isso não é brincadeira, Angel. — Eu sei. Ela se afastou e segurou meu rosto. — Tonny Romano não é como os homens que papai recebe nesta casa. — É exatamente por isso que ele me interessa. Chiara franziu a testa. Afastei suas mãos e voltei para a cama. Era o bastante, minha irmã não precisava saber mais do que eu ocultava dentro de mim. — Você parece aliviada, parece pronta para ser um sacrifício. — Estou pronta para o que me foi destinado. — Sorri. — É disso que estou falando. — Ela passou as mãos pelos cabelos. — Essa forma fria como você olha para tudo me assusta. — E a forma como você acredita que o amor salvará Vincenzo também me assusta. Mesmo assim, não tento impedi-la. — Tenta o tempo inteiro. — Porque alguém nesta família precisa pensar. Ela lançou-me um olhar irritado. — Você é insuportável. Um problema ambulante! — Amanhã, esse problema será de Tonny. Apesar da tensão, Chiara soltou uma risada curta. O som morreu quando me viu retirar o robe e começar a aplicar hidratante nas pernas. — Por que realmente vai a essa festa? Espalhei o creme lentamente sobre uma das coxas. — Porque é minha última noite livre. — Você não deveria permanecer em casa? Há homens armados em todos os portões. — Eles estão aqui para impedir que os Romano me levem antes da cerimônia. Não para controlar aonde vou. — Papai não permitirá. — Papai está trancado no escritório tentando calcular quanto de seu império ainda existirá depois do casamento. Não prestará atenção em mim. Chiara olhou para o vestido preto sobre a cama e depois para o meu rosto. — O que pretende fazer? — Dançar. Beber. Encontrar alguém interessante... — Alguém? Mantive os olhos nela enquanto terminava de espalhar o hidratante. — Não vou chegar virgem ao altar. Chiara ficou imóvel. — O quê? — Você ouviu. — Não. Acho que meu cérebro se recusou a compreender. Peguei o vestido e abri o zíper. — Tonny quer uma Rossi intocada. Quer o sangue nos lençóis, o símbolo de que foi o primeiro homem a me possuir e a confirmação de que nossa família lhe entregou algo que jamais poderá recuperar. — Angelina, isso não é apenas sobre ele. As regras da máfia são severas. Se descobrirem... — O conselho pode aceitar tradições arcaicas. Não significa que eu precise me ajoelhar diante delas. — Você pode ser repudiada. — Melhor ser repudiada do que marcada como propriedade. — E se Tonny matar o homem? Parei por um instante. Era uma possibilidade, uma bastante provável. Mas ele estava seguro demais para me vigiar. — Ele precisaria descobri-lo primeiro. — E quem será? — Ainda não sei. O horror no rosto dela quase me fez sorrir. — Você pretende entregar sua virgindade a um desconhecido na noite anterior ao casamento? — Não a qualquer desconhecido. — Que alívio. Por um momento, pensei que seu plano fosse irresponsável. — Ao primeiro homem que me fizer desejá-lo. Chiara soltou uma risada sem humor. — Isso é loucura. — Isso é escolha. — Você nem sequer sabe quem estará nessa festa. — Esse é o objetivo. A festa aconteceria em uma propriedade afastada da cidade, organizada por homens que não faziam perguntas e frequentada por convidados protegidos por máscaras. Nomes, alianças e rostos permaneciam do lado de fora. Durante algumas horas, ninguém ali carregava sobrenomes. Era uma festa frequentada pela alta sociedade italiana. Apenas pecadores anônimos em busca de prazer, bebidas e adrenalina. Chiara percebeu pela minha expressão que não conseguiria me convencer. — Está mesmo decidida? — Sim. — E se se arrepender? Subi o vestido pelas pernas. O tecido preto abraçou meu corpo, ajustando-se à cintura e aos quadris. Virei-me de costas para ela. — Feche o zíper. Chiara hesitou, mas obedeceu. — Angelina... — Tenho vinte e três anos e nunca decidi quem podia me beijar, com quem poderia sair ou qual homem dividiria minha cama. Amanhã, meu corpo passará a ser tratado como parte de um acordo entre duas famílias. Esta noite, ainda sou a única pessoa com direito de escolher o que fazer com ele. Ela fechou o zíper até o alto. Encarei nosso reflexo no espelho. Chiara parecia prestes a chorar. Eu vestia preto para uma noite que todos acreditavam ser meu funeral. Talvez fosse. Mas era a minha escolha de como correria o risco. Peguei a máscara sobre a penteadeira. Negra, delicada, com detalhes dourados ao redor dos olhos. — Prometa que terá cuidado — pediu minha irmã. Coloquei a máscara diante do rosto. Abaixei a máscara e me virei para ela. — Fique longe do escritório do papai. Não tente ouvir as reuniões. Não procure Vincenzo esta noite e, acima de tudo, não conte a ninguém para onde fui. — Está me pedindo para mentir. — Estou pedindo que me dê algumas horas de liberdade antes de eu me tornar uma Romano. Chiara fechou os olhos por um instante. — Eu odeio isso. Beijei sua testa. — Eu sei. — E odeio ainda mais o fato de parecer que você está gostando. Um sorriso discreto tocou meus lábios. — Eles acham que fui reivindicada pelo inimigo. Deixe que continuem acreditando nisso. — O que significa? Caminhei até a porta e coloquei a máscara. — Significa que Tonny Romano pode ter escolhido a esposa errada. Saí do quarto antes que ela fizesse outra pergunta. Naquela noite, eu não seria a filha de Mario Rossi, a noiva de um morto ou a mulher prometida ao inimigo. Não carregaria o peso da Faida nem obedeceria às regras escritas por homens que negociavam mulheres como objetos. Naquela noite, eu escolheria quem tocaria meu corpo. Quem receberia aquilo que Tonny Romano acreditava já lhe pertencer. Ele exigira meu sangue para encerrar uma guerra. Eu pretendia chegar ao altar sem nada intacto para lhe oferecer. Nada além de uma mentira e uma lâmina escondida sob o vestido.

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Lista de capítulos

202 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Reivindicada
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Exatamente o que eu queria
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Antecipando o jogo

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