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Capítulo 2 2 CAPÍTULO 2 - O ACIDENTE

A tempestade não dava tréguas. O som da água castigando as vidraças da mansão tornara-se uma presença incômoda, abafando os risos contidos e o murmúrio dos convidados no salão. Sóstenes tentava manter a compostura de anfitrião impecável, mas Elisa percebia que sua atenção estava completamente dispersa. A cada poucos minutos, ele deslizava a mão pelo bolso do paletó, checando a tela do celular em busca de uma mensagem que não chegava. Por volta da meia-noite, os últimos executivos finalmente se despediram. O silêncio que se instalou na casa foi denso, quase doloroso. Elisa permanecia na biblioteca, fingindo folhear um livro de arte, enquanto Sóstenes caminhava de um lado para o outro diante da ampla lareira apagada. O relógio de coluna no canto da sala badalou meia-noite e meia. - Ela já deveria ter chegado ao centro administrativo há pelo menos vinte minutos - murmurou Sóstenes, mais para si mesmo do que para a enteada. Ele sacou o aparelho e discou o número de Helena. Levara o telefone ao ouvido, mas a chamada foi direto para a caixa de mensagens. - O sinal na descida da serra costuma oscilar muito com chuva forte, Sóstenes - disse Elisa, tentando usar um tom apaziguador, embora uma estranha apreensão também começasse a apertar seu peito. - O motorista é experiente, conhece aquele trajeto de cor. - Eu não deveria ter deixado que ela fosse - respondeu ele, a voz carregada de uma severidade ríspida, direcionada à própria fraqueza. - Eu sou o presidente daquela empresa. Se havia uma crise, a responsabilidade era minha, não dela. Ele discou novamente, desta vez para o celular do motorista. O resultado foi o mesmo. Foi exatamente às doze e quarenta e cinco que o telefone fixo da biblioteca tocou. O som agudo e metálico cortou o ar como uma lâmina. Sóstenes praticamente avançou sobre a mesa de jacarandá, arrancando o gancho do gancho. - Helena? Elisa levantou-se num pulo, observando a expressão do padrasto transformar-se em questão de segundos. As poucas marcas de expressão em seu rosto pareceram se aprofundar instantaneamente; a pouca cor que lhe restava nas bochechas desapareceu por completo. - Como? - a voz de Sóstenes falhou, perdendo toda a autoridade habitual. - Em qual hospital? Estamos indo agora. Ele desligou o aparelho devagar, a mão trêmula ainda sobre o telefone. Olhou para Elisa, mas seu olhar parecia atravessá-la, encarando um vazio aterrorizante. - O carro... - ele gaguejou, algo inédito para o homem acostumado a dominar reuniões de conselho. - O carro aquaplanou na curva do quilômetro 42. Capotou e desceu o barranco. - Minha mãe... como ela está? - Elisa sentiu o chão fugir sob seus pés, a respiração cortada pelo pânico. - Ela está viva. Mas o resgate teve que usá-la de ferragens. Estão levando os dois para o Hospital Sírio-Libanês. Sem dizer mais uma palavra, Sóstenes pegou as chaves de um dos carros da garagem, ignorando o motorista de plantão. Elisa o seguiu sem hesitar. Durante todo o trajeto até a capital, sob o temporal implacável, o silêncio dentro do veículo foi absoluto. Sóstenes dirigia com as mãos tão fortemente apertadas ao volante que os nós de seus dedos estavam brancos. Elisa olhava pela janela, as lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto enquanto repassava mentalmente o último abraço da mãe, a gola do seu casaco sendo ajustada, o aviso carinhoso de que voltaria em duas horas. O ambiente do hospital era um contraste violento com o conforto aquecido da mansão. Luzes fluorescentes frias, cheiro penetrante de antisséptico e o som ritmado de monitores cardíacos. Assim que cruzaram as portas da emergência, o diretor médico do hospital, um conhecido de longa data da família, veio ao encontro deles na sala de espera privativa. Ele trazia uma expressão grave que não deixava margem para ilusões. - Sóstenes, Elisa... preciso que mantenham a calma - começou o médico, conduzindo-os para as poltronas. - Diga logo, Eduardo. Sem rodeios - exigiu Sóstenes, a voz embargada, os olhos vermelhos de angústia. - A Helena sofreu um impacto fortíssimo no tórax e, principalmente, no crânio. Houve um traumatismo cranioencefálico grave com sangramento interno. Nossa equipe cirúrgica conseguiu estancar a hemorragia e drenar a pressão, mas... o cérebro dela sofreu um trauma severo. - O que isso significa? - perguntou Elisa, a voz sumida. O médico olhou para a jovem com piedade antes de responder. - Significa que tivemos que induzir o coma profundo para preservar as funções vitais e tentar reduzir o inchaço cerebral. O estado dela é extremamente crítico. As próximas vinte e quatro a quarenta e oito horas serão decisivas. - E quando ela vai acordar? - a pergunta de Sóstenes veio carregada de uma urgência desesperada. - Não temos como prever - o médico suspirou. - Com lesões desse tipo, cada organismo reage de uma forma. Ela pode responder em alguns dias... ou entrar em um estado comatoso prolongado. Precisamos preparar vocês para a possibilidade de uma espera longa. Elisa cobriu o rosto com as mãos, desabando em um choro contido. A certeza da proteção materna, a segurança inabalável que sempre pautara sua vida, havia se desintegrado em uma única curva de estrada. Ela sentiu um movimento ao seu lado e ergueu os olhos. Sóstenes havia se sentado na beira do sofá, com a cabeça baixa e os cotovelos apoiados nos joelhos. Pela primeira vez desde que o conhecia - em quase uma década de convivência -, o grande magnata dos Cavalcante parecia infinitamente pequeno. Seus ombros largos sacudiam em soluços silenciosos. Ele não se importava com a presença do médico, dos enfermeiros ou da enteada; o homem intocável estava completamente destruído. Elisa, movida por uma mistura impensada de choque e compaixão, estendeu a mão e a pousou sobre as costas de Sóstenes. Ele não se afastou. Em vez disso, buscou a mão da enteada e a apertou com força, como se aquele fosse o único ponto de apoio em um mundo que acabara de desabar sobre suas cabeças. Naquela noite gelada de hospital, sob o bipe incessante dos aparelhos da UTI, a antiga distância cerimoniosa entre o padrasto e a enteada começou, imperceptivelmente, a se dissolver.

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Lista de capítulos

13 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 1 CAPÍTULO 1 - A CASA DOS CAVALCANTE
  2. Capítulo 2Capítulo 2 2 CAPÍTULO 2 - O ACIDENTE
  3. Capítulo 3Capítulo 3 3 CAPÍTULO 3 - O HOMEM DIANTE DA UTI

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