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Capítulo 3 3 CAPÍTULO 3 - O HOMEM DIANTE DA UTI

Três dias se passaram, mas dentro da ala de terapia intensiva o tempo parecia ter percorrido uma eternidade imóvel. Não havia dia ou noite no corredor do terceiro andar; apenas o zumbido contínuo do ar-condicionado, os passos abafados da equipe de enfermagem e o bip ritmado e inflexível dos monitores que sustentavam a vida de Helena. Sóstenes praticamente não saíra daquele andar desde a noite do acidente. Recusara-se terminantemente a voltar para a mansão, desmarcara compromissos com chefes de Estado e relegara a gestão do império Cavalcante a chamadas telefônicas curtas e ríspidas, conduzidas no canto do corredor. Ele se instalara na pequena sala de espera privativa ao lado da UTI - um ambiente austero, de poltronas de couro escuro e luzes amareladas. Elisa observava o padrasto do portal da porta. Ele estava de pé diante da grande parede de vidro que o separava do leito de Helena. O paletó do smoking fora abandonado há dias; a camisa social branca, agora amarrotada e com as mangas dobradas até os antebraços, parecia grande demais para o seu porte. A barba grisalha crescera, conferindo-lhe uma aparência desalinhada e sombria que Elisa jamais imaginara ver naquele homem. Aproximando-se devagar, ela colocou sobre a mesa de centro um copo de café fresco e uma embalagem com um sanduíche intocado. - Sóstenes... você precisa comer alguma coisa. E o Dr. Eduardo disse que você não deita há mais de trinta horas. Ele não se virou imediatamente. Continuou com as mãos afundadas nos bolsos da calça, os olhos fixos na figura pálida e imóvel de Helena, cercada por tubos, bombas de infusão e sensores. - Como eu posso dormir, Elisa? - a voz dele veio baixa, rasgada pela exaustão. - Como eu posso ir para casa, deitar em uma cama espaçosa e quente, sabendo que a minha esposa está ali, presa àquela máquina? Ele finalmente se virou. As olheiras profundas e arroxeadas destacavam-se em sua pele pálida. Ele olhou para o copo de café, mas não fez menção de pegá-lo. - O advogado da holding me ligou há pouco - continuou ele, soltando um riso seco e sem vida. - Queriam a minha assinatura para adiar a assembleia geral dos acionistas. Eles estão preocupados com a oscilação das ações na bolsa. Ações... números em uma tela. Eles não entendem que nada daquilo tem o menor valor se ela não abrir os olhos. Elisa sentiu um nó apertar sua garganta. Pela primeira vez em quase dez anos de convivência, via o mito do magnata inabalável desmoronar por completo. O homem que ela sempre enxergara como uma figura distante, quase institucional, revelava-se um marido despedaçado, vulnerável e humano. Ela deu mais um passo à frente, parando ao lado dele diante do vidro. - A minha mãe é forte, Sóstenes. Ela sempre foi a pessoa mais firme que eu conheci. Ela vai lutar para voltar. Sóstenes olhou para a enteada. Por um segundo, a dureza em seu olhar cedeu lugar a um desamparo quase infantil. - Foi minha culpa - murmurou ele, a voz embargada. Ele cobriu o rosto com a mão, pressionando os olhos com força. - Se eu não estivesse tão focado em impressionar a diretoria naquela recepção... se eu tivesse pegado aquele carro e ido no lugar dela... ela estaria aqui. Inteira. Comigo. - Você não podia prever a tempestade, nem a pista molhada - disse Elisa com firmeza, instintivamente tocando o braço dele. - Não faça isso consigo mesmo. A minha mãe não gostaria de ver você se destruindo dessa forma. Sóstenes baixou a mão e olhou para o toque de Elisa em seu braço. Houve uma breve hesitação, um silêncio carregado de algo que nenhum dos dois sabia nomear. O calor da mão dela parecia ser a única ancoragem real naquele ambiente frio e asséptico. Em vez de se afastar, ele cobriu a mão de Elisa com a sua, apertando-a com uma gratidão silenciosa e desesperada. - Obrigado por não ter me deixado sozinho aqui, Elisa - disse ele, encarando-a nos olhos com uma intensidade que fez o coração da jovem dar um pulo involuntário. - A sua presença... é a única coisa que está impedindo esta sala de desabar sobre mim. Elisa sustentou o olhar do padrasto. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha, uma mistura confusa de compaixão, tristeza e um calor súbito que a assustou. Pela primeira vez, não o enxergou apenas como o marido de sua mãe ou o dono da casa onde morava. Enxergou um homem - um homem profundo, dolorido e dolorosamente atraente na sua fragilidade. Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais nada, a porta da UTI se abriu e o Dr. Eduardo caminhou na direção deles com um prontuário nas mãos, interrompendo abruptamente o momento. Sóstenes soltou a mão de Elisa imediatamente, voltando-se para o médico com a urgência habitual. - Alguma mudança, Eduardo? O médico suspirou, ajeitando os óculos no rosto. - Conseguimos estabilizar a pressão intracraniana, o que é uma boa notícia. No entanto, o eletroencefalograma mostra que a atividade cerebral continua extremamente baixa. Nós reduzimos a medicação sedativa, mas ela não apresentou os reflexos esperados de despertar. - O que isso significa na prática? - perguntou Elisa, sentindo a angústia retornar com força total. - Significa que precisamos ter paciência - respondeu o médico com cautela. - O corpo da Helena passou por um trauma devastador. Ela pode levar semanas, talvez meses, para dar os primeiros sinais de consciência. Agora, é uma questão de tempo e de como o organismo dela vai responder ao tratamento. O silêncio que se seguiu foi devastador. "Semanas. Talvez meses." A frase flutuou no ar como uma sentença de incerteza prolongada. Quando o médico se retirou, Sóstenes caminhou lentamente até a poltrona e se deixou cair sobre ela, cobrindo o rosto com as duas mãos. Ele parecia ter envelhecido dez anos em três dias. Elisa caminhou até ele, pegou o copo de café e o entregou em suas mãos. Ele aceitou sem protestar, seus dedos roçando nos dela novamente ao pegar o copo. - Nós vamos passar por isso juntos, Sóstenes - disse ela em tom baixo, mas convicto. - Eu não vou a lugar nenhum. Ele ergueu os olhos para ela e, pela primeira vez desde que o acidente acontecera, um esboço muito tênue de sorriso - triste, porém profundamente grato - surgiu em seus lábios. - Eu sei, Elisa. Eu sei. Do lado de fora do hospital, a chuva finalmente começara a trégua, mas dentro daquela sala de espera privativa, um novo tipo de tempestade começava a se desenhar em silêncio.

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Lista de capítulos

13 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 1 CAPÍTULO 1 - A CASA DOS CAVALCANTE
  2. Capítulo 2Capítulo 2 2 CAPÍTULO 2 - O ACIDENTE
  3. Capítulo 3Capítulo 3 3 CAPÍTULO 3 - O HOMEM DIANTE DA UTI

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