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Capítulo 2 Do Outro Lado Da Linha
A van seguiu pela avenida principal, passando pelas ruas largas e arborizadas do bairro onde ficava a escola. Ali, os muros eram baixos, pintados, com jardins visíveis por trás das grades, o tipo de rua onde Marina morava, onde os pais buscavam os filhos em carros com ar-condicionado ligado mesmo nos dias mais frios.
Evandro tinha o rosto quase colado no vidro, observando as coisas passarem sem prestar atenção em nada específico. Era um hábito antigo, o jeito dele de descansar a cabeça depois de um dia inteiro tentando prestar atenção em tudo.
- Preciso de cola e cartolina até sexta - ele disse, de repente, sem tirar os olhos da janela. - Pro trabalho de Ciências. Sistema solar.
- Eu vejo se ainda sobrou alguma coisa do ano passado. Se não, dou um jeito.
Ele assentiu, satisfeito com a resposta simples, do jeito que sempre ficava quando a irmã dizia "eu dou um jeito", como se aquelas quatro palavras fossem garantia suficiente de que tudo se resolveria.
A van foi esvaziando aos poucos, parando em esquinas de casas com portões automáticos, condomínios com nome de flor na entrada. A cada parada, o motor desligava por um instante, Seu Ademir gritava um nome da lista, e mais um aluno descia, mochila nas costas, indo embora para dentro de um mundo que Elisa conhecia bem de vista, mas nunca por dentro.
Foi só depois do viaduto, quando a avenida estreitava e o asfalto começava a mostrar os primeiros buracos, que a paisagem mudou de verdade. As casas foram ficando mais próximas umas das outras, os muros mais altos e sem pintura nova, alguns ainda com tijolo à mostra. As árvores rareavam. O comércio virava padaria simples, oficina de moto, bar de esquina com mesas de plástico na calçada.
Era ali, exatamente naquele ponto do trajeto, que Elisa sentia todos os dias a mesma sensação estranha de atravessar uma fronteira invisível. Como se a cidade fosse, na verdade, duas cidades diferentes, coladas uma na outra por uma avenida que ninguém escolhera dividir daquele jeito, mas que dividia mesmo assim.
Era engraçado como ninguém mais parecia notar aquilo. Para os outros alunos da van, era só mais uma rua. Para ela, era como atravessar de um filme para outro, sem trocar de assento.
A van parou na esquina de sempre. Seu Ademir chamou os dois pelo nome, e Elisa e Evandro desceram, acenando um "até segunda" antes da porta se fechar com o barulho metálico conhecido.
Caminharam as duas quadras até em casa devagar, Evandro contando, com aquele jeito econômico de falar que era só dele, mais detalhes do trabalho sobre o sistema solar. Elisa ouvia com atenção real, fazendo as perguntas certas nos momentos certos, guardando mentalmente que precisava separar cola e cartolina em algum lugar da casa.
A rua ficava mais estreita perto de casa, as calçadas mais rachadas, os muros mais baixos. Era o fim daquela linha invisível que a van cruzava todos os dias, duas vezes.
A porta de casa estava destrancada. Já não era um bom sinal.
- Fica aqui um minuto - ela disse a Evandro, baixinho, quase sem pensar, um hábito automático de anos.
Ele obedeceu sem perguntar, parando no portãozinho de ferro enferrujado, olhando para o chão.
Elisa entrou primeiro.
A sala estava em silêncio, mas era o tipo errado de silêncio: pesado, contido, como o ar antes de uma tempestade. Encontrou o pai sentado à mesa da cozinha, o celular largado ao lado de um maço de cigarro quase vazio, os olhos fixos em algum ponto da parede que não existia.
Não precisou perguntar nada. Reconheceu aquele jeito de sentar, aquele silêncio específico, tão bem quanto reconhecia a própria letra.
Ele tinha perdido de novo.
Não sabia quanto, não sabia em quê exatamente, se fora no jogo do bar da esquina ou em alguma aposta on-line que ele jurava sempre ser a última. Mas sabia, com a certeza de quem já vivera aquilo dezenas de vezes, que a noite seria daquelas em que era melhor ter um plano.
- Vai fazer o quê pro jantar? - o pai perguntou, sem olhar para ela, a voz arrastada de um jeito que ainda não era bebida, mas também não estava longe disso.
- Vejo o que tem na geladeira - Elisa respondeu, a voz calma, treinada para não provocar nada.
Foi até a porta, chamou Evandro com um gesto discreto, e os dois entraram juntos, ele já com aquele olhar de quem também aprendera a ler o clima da casa antes de atravessar a porta.
Enquanto abria a geladeira, quase vazia, calculando o que dava para fazer com meia dúzia de ovos e um resto de arroz do dia anterior, Elisa sentiu o peso familiar se instalar no peito. Não era pânico, não mais. Só aquele cansaço antigo de quem já sabe exatamente que tipo de noite está por vir e só quer que ela passe rápido.
Do lado de fora, o sol ainda estava alto, os vizinhos ainda conversavam animados na calçada, o mundo continuava girando normal, alheio ao que se passava atrás daquela porta destrancada.
Ela quebrou os ovos na tigela, um de cada vez, e tentou, com todas as forças, não pensar no som que a voz do pai costumava ganhar depois da terceira ou quarta garrafa.
Do quarto, ouviu Evandro abrir a gaveta da cômoda onde guardava o caderno de desenho em que costumava desenhar, como se aquele fosse o único jeito de se manter longe dali sem precisar sair de casa.
Elisa olhou para a porta da cozinha e se perguntou, não pela primeira vez, quanto tempo ainda conseguiria fazer os dois caberem naquele mesmo roteiro.
Lista de capítulos
111 capítulos no total
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