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Capítulo 3 Do Lado De Dentro
A mãe de Elisa chegou pouco antes das sete, com aquele jeito manso de abrir a porta que era quase um pedido de desculpas por existir.
Trabalhava o dia inteiro numa lavanderia industrial do outro lado da cidade, e voltava sempre com as mãos avermelhadas e um cheiro de sabão que nunca saía de vez, nem depois do banho.
Era uma mulher bonita, ainda, apesar do cansaço acumulado em anos: os olhos grandes, o sorriso fácil quando alguma coisa boa acontecia, coisas pequenas, como um desconto na feira ou uma novela que terminava bem. Cantava enquanto lavava louça, sempre baixinho, quase um sussurro, canções antigas que a própria mãe dela cantava.
Havia nela uma espécie de esperança que se recusava a morrer, mesmo depois de tudo. Como se ainda acreditasse, no fundo, que um dia as coisas se ajeitariam sozinhas, que o marido ia parar de vez, que a sorte ia virar.
Elisa amava a mãe com uma ternura que doía. E, ao mesmo tempo, havia dias em que sentia uma raiva silenciosa, quase envergonhada, por aquela esperança nunca se transformar em coragem.
- Já fez o jantar? - a mãe perguntou, tirando os sapatos na porta, os pés visivelmente inchados.
- Fiz. Ovos com arroz. Não tinha muita coisa.
- Tá ótimo, filha. Obrigada.
Sempre "obrigada". Como se cozinhar para a família, aos dezessete anos, depois de um dia inteiro de aula, fosse um favor, e não uma obrigação que tinha caído sobre ela sem ninguém perguntar se topava.
O pai continuava na cozinha, agora com uma cerveja na mão, os olhos ainda naquele ponto vazio da parede. A mãe passou por ele com cuidado, o corpo se ajeitando de um jeito quase instintivo para ocupar menos espaço, para não esbarrar, para não provocar.
- Perdeu de novo? - ela perguntou, baixinho, quase sem querer que a pergunta existisse.
- Não enche.
Foi só isso. Duas palavras, e a mãe baixou a cabeça, foi lavar as mãos na pia, e não tocou mais no assunto.
Elisa observava aquilo com uma clareza que doía mais do que qualquer grito. Sabia que a mãe não era fraca. Vira ela trabalhar dobrado depois que o pai perdera o emprego na construtora, discutir com o dono da lavanderia por um aumento que nunca veio, caminhar quarenta minutos debaixo de chuva para economizar a passagem de ônibus.
Não era fraqueza. Era outra coisa. Um tipo de amor que tinha ficado velho demais para se transformar em qualquer outra coisa. Um hábito de esperar que doesse menos.
Depois do jantar, enquanto Evandro terminava o dever de casa na mesa da sala, com a letra caprichada demais para um menino de dez anos, Elisa lavava a louça e ouvia, do quarto ao lado, o som abafado da voz do pai subindo de tom.
Não era a primeira vez, nem seria a última.
A mãe respondia baixo, sempre baixo, tentando apagar o fogo antes que ele espalhasse pela casa toda, antes que os vizinhos ouvissem de novo, antes que Evandro precisasse fingir que estava dormindo.
Elisa conhecia cada etapa daquilo de cor. Primeiro vinham as reclamações, sobre dinheiro, sobre a vida, sobre tudo que tinha dado errado e que nunca, nunca, era culpa dele. Depois vinha o silêncio pesado, o tipo que enchia a casa como fumaça. E, em algumas noites, mais raras, mas não raras o bastante, vinha o resto.
Ela tinha aprendido, ainda criança, a reconhecer o barulho de um copo quebrando antes mesmo dele quebrar. Tinha aprendido a puxar Evandro para o quarto sem fazer alarde, a ligar o rádio velho num volume que abafasse as vozes sem parecer suspeito, a inventar desculpas de manhã para o hematoma que a mãe tentava esconder debaixo da manga comprida, mesmo em dias quentes.
Nunca contara isso a ninguém. Nem a Marina.
Havia um limite ali que Elisa nunca soubera explicar. Não era vergonha exatamente, nem medo de julgamento. Era mais como proteção. Como se contar tornasse tudo real demais, permanente demais. Como se, guardando aquilo só para si, ainda pudesse fingir, por algumas horas por dia, na escola, ao lado de Marina, debaixo do ipê, que era só mais uma aluna comum, com uma vida comum, esperando por uma faculdade comum.
Naquela noite, deitada, ouvindo o silêncio finalmente se instalar na casa, Elisa pegou o caderno azul escondido na mochila. Acendeu a luz do celular por baixo do lençol, cuidado antigo, e abriu a página cheia de anotações: universidades, prazos de inscrição, programas de bolsa integral, valores de moradia estudantil.
Havia um número, em especial, que ela tinha circulado várias vezes com a caneta, quase sem perceber. O valor de um curso preparatório intensivo, num programa de bolsas parciais que precisava de uma taxa de inscrição que ela simplesmente não tinha.
Fechou os olhos, tentando não pensar em quanto tempo levaria para juntar aquilo vendendo brigadeiro na escola, o único plano que conseguira bolar até então.
Do outro lado da parede fina, ouviu a respiração pesada do pai, já dormindo, o efeito da cerveja finalmente vencendo a raiva. E, mais baixinho ainda, ouviu a mãe, no escuro, cantarolando para si mesma aquela mesma canção antiga, como se cantar fosse a única forma que ainda lhe restava de acreditar que amanhã seria diferente.
Elisa fechou o caderno, guardou embaixo do travesseiro, e ficou olhando para o teto por um longo tempo antes de conseguir dormir.
Pensou em Marina, dormindo àquela hora numa casa onde ninguém precisava calcular o clima antes de entrar. Pensou em como seria estranho, um dia, contar aquilo tudo a alguém e ver a cara da pessoa mudar para sempre.
Sabia, sem precisar dizer em voz alta, que aquele ano, o último na escola, o último antes de tudo mudar, seria também o ano em que precisaria decidir, de uma vez por todas, entre o sonho que vinha construindo em silêncio havia meses e o irmão pequeno que dormia a poucos metros dali, ainda sem saber de nada.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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