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Capítulo 3 O Segredo dos Blackwood
Lívia
A segunda-feira amanheceu com o céu coberto de nuvens espessas, o tipo de dia em que o sol parece desistir antes mesmo de tentar. Eu não dormi direito - cada vez que fechava os olhos, via Noah entre as árvores, os olhos dele brilhando, a voz rouca me mandando fugir.
Mas o que realmente me deixava sem ar era a sensação de que, mesmo longe, ele ainda me sentia. Como se houvesse algo invisível nos ligando.
Quando cheguei à escola, percebi que algo estava diferente. Os alunos cochichavam pelos corredores, olhares desconfiados se cruzando. Uma notícia corria: um morador havia sido encontrado ferido perto da floresta. Diziam que fora um ataque de animal.
Mas quando passei por Noah no corredor - e vi o arranhão em seu braço -, entendi que talvez o ataque não fosse apenas um rumor.
- O que aconteceu? - perguntei, parando diante dele. - Nada - respondeu sem me encarar. - Noah, você está sangrando. - Não é o meu sangue.
O modo como ele disse aquilo me gelou. Antes que eu pudesse insistir, ele já tinha se afastado, deixando para trás um silêncio denso e o eco do meu próprio coração acelerado.
Durante a aula de História, não consegui prestar atenção em nada. Noah estava no fundo, olhando fixamente pela janela, os dedos tamborilando sobre a mesa como se contassem os segundos para algo acontecer. A cada vez que eu desviava o olhar, o instinto me forçava a olhar de novo.
E então, no meio da explicação do professor, ele levantou-se e saiu. Sem pedir permissão. Sem dizer uma palavra.
Algo em mim me mandou segui-lo.
Saí alguns minutos depois, o corredor vazio e o som dos meus passos ecoando. Quando abri a porta que dava para os fundos da escola, vi Noah parado ali, encostado no muro, com a cabeça baixa e o punho fechado.
- Por que você me seguiu? - perguntou, sem olhar. - Porque... eu me preocupo.
Ele ergueu o olhar - e por um segundo, eu quase recuei. Os olhos dele estavam cinzentos demais, como metal líquido. Bonitos e assustadores ao mesmo tempo.
- Você não devia se aproximar de mim, Lívia. - Então por que você sempre aparece quando eu preciso? - devolvi.
O silêncio entre nós ficou carregado. O vento levantou os cabelos dele, e eu percebi a tensão no maxilar, o esforço para manter o controle.
- Você não entende... o que eu sou, o que eu carrego, o que eu posso fazer com você. - Então me explica, Noah. - minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Me deixa entender.
Ele deu um passo à frente. Depois outro. Até que o espaço entre nós desapareceu. O cheiro dele - madeira, chuva e algo selvagem - me envolveu.
- Se eu te contar, você nunca mais vai me olhar do mesmo jeito. - Já é tarde pra isso.
Por um instante, o tempo parou. Os olhos dele desceram até minha boca, e o ar ficou denso, pesado. Era como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquela respiração compartilhada.
Mas então ele se afastou bruscamente. Como se algo dentro dele o puxasse de volta.
- Os Blackwood não são o que parecem - disse ele, a voz rouca. - Fique longe da floresta. Fique longe de mim.
E foi embora, me deixando sozinha com um coração descompassado e uma nova certeza: quanto mais ele tentava me afastar, mais eu queria entender o que o prendia à escuridão.
---
Noah
Ela não faz ideia do que está pedindo. Se soubesse o que vi nas últimas luas, o que fiz pra manter o lobo sob controle, ela fugiria sem olhar pra trás.
Mas em vez disso, ela me encara com aqueles olhos castanhos - quentes, curiosos - e tudo dentro de mim se parte. O humano tenta falar mais alto, mas o lobo sussurra: Ela é sua.
Eu não posso deixá-la se aproximar. Não quando o instinto começa a crescer dentro de mim como fogo.
A marca no braço latejava. O sangue do ataque ainda estava ali, misturado com o meu. Era sinal de que eles estavam perto. A matilha que eu deixei pra trás. Os mesmos que fariam de tudo pra me caçar... e agora, talvez, caçar ela também.
Voltei pra casa antes do pôr do sol. A casa dos Blackwood ficava afastada, entre colinas e árvores antigas. Por fora, parecia abandonada. Por dentro, era o único lugar onde eu podia deixar o lobo respirar.
No porão, um espelho quebrado refletia meu rosto cansado. Aos poucos, os olhos mudaram de cor - do cinza para o âmbar profundo. E as veias sob minha pele começaram a brilhar como prata líquida.
O rugido veio sem aviso. Um som rouco, primal, que fez as paredes tremerem.
E no meio do caos, uma imagem atravessou minha mente: Lívia. Sozinha. No bosque. Me chamando.
Eu sabia o que isso significava. A marca estava se formando - o laço entre nós, o mesmo que destruiu meus pais.
E a cada batida do meu coração, a fera dentro de mim sussurrava uma verdade que eu não podia aceitar: Você pode tentar fugir do destino, Noah... mas ela já é sua lua.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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