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Capítulo 2 Predadores
O quarto cheirava a mofo e a poeira acumulada de anos. Assim que entraram, Kell fechou a porta de madeira maciça e girou a chave na fechadura. Não satisfeito, arrastou uma cadeira pesada de carvalho e deixou debaixo da maçaneta, criando uma barricada improvisada.
Queen continuava imóvel no meio do cômodo, ainda envolta no cobertor sujo de poeira e pequenos vestígios de vidro que tinham ficado presos ao tecido. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados, a pele clara e o cabelo preto como a noite manchados de fuligem da explosão.
"Kell..." A voz dela saiu num sussurro quase inaudível, quebrada pelo choro represado. "Cadê o tio Lucius? Ele... ele vai vir buscar a gente?"
Ele apertou os dentes com tanta força que a mandíbula doeu. A imagem do pai no final do corredor, apontando a arma para os invasores enquanto a casa caía aos pedaços, veio com força total. Teve que engolir o nó na garganta para não desabar na frente dela. Lembrou do peito estufado, da promessa que fez a ele poucas horas atrás.
"Ele está fazendo o trabalho dele, Queen." Mentiu, se ajoelhando na altura dos olhos dela e segurando seus ombros com firmeza. "E o nosso trabalho agora é ficar em segurança aqui. Você confia em mim?"
Ela assentiu devagar, enxugando uma lágrima com a manga do pijama de princesas.
Ele ajeitou uma das camas solteiras, limpou os cacos microscópicos que ainda estavam em seus braços e se certificou que ela estivesse coberta até o pescoço. Tirou a pistola da cintura e a colocou exatamente na primeira gaveta da mesinha de cabeceira antes de se deitar ao pé da única cama que havia ali.
Quando a respiração dela finalmente pesou, indicando que tinha adormecido pelo exaustão, Kell ficou encarando o teto escuro. O casarão estalava com o vento da madrugada, e cada passo rangendo nos corredores distantes parecia uma ameaça.
A morte de seu pai nem tinha sido processada, mas ele já sabia que o luto teria que esperar: no andar de baixo, uma família inteira de predadores esperava pra usá-lo, sem saber que no seu quarto ele guardava o grande segredo que seu pai não havia revelado nem mesmo para ele e que mais tarde se revelaria o caos no submundo.
A madrugada no casarão não trazia descanso; trazia apenas sombras maiores.
O silêncio da casa era denso, pesado, cortado esporadicamente pelo estalar da madeira antiga se contorcendo sob o vento frio do fim de dia. Kell não conseguia dormir. A imagem da casa do pai em chamas e o peso do ferro frio da pistola na gaveta mantinha seus sentidos em alerta máximo.
Seus passos nos corredores eram quase invisíveis, guiados pela memória muscular de quem cresceu aprendendo onde a tábua do assoalho rangia e qual canto da parede projetava a sombra primeiro. Naquele lugar, mover-se sem ser notado não era um hábito, era um mecanismo de sobrevivência.
Quando alcançou o topo da escada da cozinha no andar térreo, notou o filete de luz amarelada que vazava pela fresta da porta. Parou. Prendeu a respiração por dois segundos, avaliando o ambiente antes de avançar.
Sahama estava lá.
A esposa de Abraham estava encostada na bancada de granito escuro, vestindo um robe de seda escura que deslizava pelos ombros. Segurava um copo baixo de uísque, o gelo estalando suavemente contra o vidro enquanto ela o girava com preguiça. Ela não se virou quando ele entrou, mas os olhos dela acompanharam o reflexo dele na janela embaçada pela névoa da noite.
"O sono é um luxo raro para quem carrega fantasmas, não é, Kell?" A voz dela saiu aveludada, quase um sussurro, sem qualquer surpresa pela presença dele.
Kell manteve o rosto impassível. Foi direto para a pia, pegando um copo de vidro comum do armário.
"Só vim buscar água" Respondeu, a voz seca.
O som da torneira aberta enchendo o copo pareceu alto demais no silêncio sufocante do cômodo. Ele bebeu em goles pausados, sentindo o líquido gelado descer cortando a garganta seco de ansiedade, mas mantendo a visão periférica cravada na mulher a poucos passos de distância.
"Você anda tenso" Ela continuou. O som do vidro contra o granito ressoou quando ela apoiou o copo na bancada. "Se movendo pelos corredores como um animal acuado, sempre olhando por cima do ombro... sempre fugindo de algo. Ou seria de alguém?"
Kell terminou a água. Colocou o copo devagar sobre a pia, calculando a distância até a saída.
"Talvez eu esteja."
Ela deu um sorriso lento. Um sorriso arrastado, desprovido de qualquer calor genuíno. Um sorriso perigoso.
"Ou talvez esteja procurando."
O ar na cozinha mudou instantaneamente. A temperatura pareceu cair. O instinto que seu pai havia lapidado com tanto rigor apitou no fundo de sua mente: ameaça. Mas não era o tipo de ameaça contra a qual se podia sacar uma arma; era um jogo psicológico, uma teia invisível para onde ela sempre tentava arrastá-lo.
"Eu não estou procurando nada, Sahama."
"Certeza?" - Ela deu dois passos à frente. Sem pressa. Sem hesitação. O cheiro de perfume doce e caro mesclado ao álcool invadiu o espaço entre eles, sufocante. "Nem uma aliança? Nem alguém que te entenda nessa casa de monstros?"
Ela estava perto demais. Perto o suficiente para que Kell sentisse o calor que emanava do corpo dela. Ele não recuou - dar um passo para trás seria entregar sua fraqueza -, mas também não avançou. Ficou imóvel, como uma estátua de pedra, sentindo os batimentos cardíacos acelerarem contra as costelas.
"Você é filho do Lucius..." Ela murmurou, inclinando levemente a cabeça para observá-lo sob a luz fraca. Os olhos dela percorreram as cicatrizes recentes no rosto dele, os nós dos dedos machucados. "Sempre observei isso com uma fascinação quase doentia."
"O quê?"
"Como alguém tão embrutecido e cruel quanto o seu pai conseguiu... esculpir algo como você."
Aquilo não era um elogio. Era veneno destilado. Era a tentativa de minar a única referência que lhe restava, a figura do pai que ele acabara de perder e que ainda sangrava em sua memória. Mas era algo além disso. Não era a primeira vez que Sahama tentava se jogar para o sobrinho.
"Você devia medir esse tipo de conversa." A voz de Kell desceu um tom, perigosamente grave. "Meu tio não está aqui, mas você deveria respeitá-lo."
Sahama soltou uma risada baixa, um som leve e divertido que ecoou pelas paredes do cômodo.
"E quem vai me fazer medir as palavras? Você?"
O silêncio que se seguiu foi elástico, tenso a ponto de quase rasgar. Lentamente, Sahama ergueu a mão. Os dedos de unhas bem feitas e anéis pesados tocaram a linha do maxilar dele. A pele dela era quente, contrastando de forma violenta com o frio que dominava o corpo de Kell.
Kell travou. Não por medo físico, mas por uma súbita e aterradora falta de chão. Ele fora treinado para desarmar invasores, para identificar saídas de emergência e empunhar uma pistola sob tiroteio, mas ninguém o havia preparado para a manipulação íntima e sórdida dos adultos daquela família. Por uma fração de segundo - um piscar de olhos imperceptível -, a carência de um abraço ou de um refúgio fez o veneno doce parecer tentador. E essa hesitação foi a coisa mais aterrorizante que ele já sentira.
"Você é bonito demais para ser destruído no jogo da sua avó, garoto..." Ela sussurrou, a farsa da compaixão brilhando em suas pupilas.
A clareza voltou como um soco no estômago. Antes que ela pudesse mover os dedos em direção ao seu pescoço, Kell reagiu. A mão dele subiu como um raio, interceptando o pulso de Sahama no ar. A fivela do aperto dele foi firme, precisa, travando os ossos dela sem quebrá-los, mas exercendo a pressão exata para deixar claro quem estava no controle.
Ele puxou a mão dela para longe do seu rosto, sem desviar o olhar nem por um milissegundo.
"Não faça isso de novo. Nunca mais."
A voz dele não saiu alta, mas veio carregada de uma densidade que fez o sorriso de Sahama vacilar pela primeira vez. A surpresa piscou no rosto dela, rapidamente substituída por uma nova camada de interesse sórdido.
"Você é mais forte e mais esperto do que o seu pai achava." Ela murmurou, tentando puxar o pulso com sutileza, mas ele só a libertou quando quis.
"Não." Kell respondeu, dando meio-passo para trás e criando o espaço que precisava. "Eu só aprendi desde muito cedo a reconhecer quando alguém está tentando me colocar numa armadilha."
Ele se virou e caminhou em direção ao corredor escuro, os passos pesados e sem olhar para trás. Sahama continuou na cozinha, ajustando o robe e dando mais um gole no uísque, mantendo o olhar fixo na silhueta do garoto que desaparecia na escuridão.
Kell subiu as escadas com o peito queimando. Ele tinha vencido o embate, mas ao trancar a porta do quarto e ouvir a respiração suave de Queen dormindo, soube a verdade: naquele casarão, ninguém saía de uma conversa ileso.
HORAS DEPOIS...
Às oito da manhã, o casarão já estava pulsando. Pelas frestas da porta do escritório de Dona Jocelyn, dava para ouvir o murmúrio de vozes pela casa - seus tios Gavrel e Abraham discutindo sobre rotas de remessa e a movimentação dos seus primos no andar térreo.
Queen tinha ficado no quarto, sob ordens estritas de não abrir a porta para absolutamente ninguém.
Ele entrou no escritório. A luz da manhã entrava fraca pelas persianas semiabertas. Dona Jocelyn estava sentada atrás de uma mesa de imbuia maciça. Em pé, encostados na parede ao lado, estavam seus dois primos: Joshua, o filho mais velho de Gavrel, com seu ar debochado de sempre, e Eidel, filho de Abraham, que o encarava com uma frieza calculada.
"Olha só quem resolveu dar as caras." Debochou Joshua, cruzando os braços. "O filho do desertor. Veio pedir esmola para vovó?"
"Silêncio, Joshua!" Ordenou Jocelyn, sem levantar o tom de voz, mas com autoridade suficiente para fazê-lo calar a boca imediatamente. Ela virou a atenção para o outro neto. "O Kell tem mais treinamento de campo do que você e o Eidel juntos. Lucius pode ter sido um traidor para a nossa família, mas não dá pra negar que ele sabia como preparar um soldado."
Eidel deu um passo à frente, ajustando a jaqueta de couro.
"Qual é o plano então?"
Jocelyn abriu uma pasta de couro preta sobre a mesa, revelando mapas e fotos de uma instalação de armazenamento nas docas da cidade.
"A família para a qual o Lucius estava prestando serviço abriu uma nova rota de distribuição. Eles estão estocando uma carga de armamento pesado e documentos de inteligência no galpão quatro antes da redistribuição de quinta-feira."
O coração dele deu um pulo no peito, mas fez o possível para manter a expressão neutra. Era a mesma família a qual Queen pertencia, pensou.
"O esquema é simples!" Continuou Dona Jocelyn, batendo o indicador sobre o mapa. "Invadir, neutralizar os guardas de forma silenciosa e extrair o lote principal antes que a segurança privada deles perceba. Joshua e Eidel vão cuidar do perímetro externo e do transporte. Você, Kell, vai liderar a invasão e o arrombamento do cofre interno. Você conhece a estrutura e organização deles melhor do que qualquer um de nós, por causa do seu pai."
"Se eu fizer isso..." Disse ele, encarando Jocelyn nos olhos "A dívida do teto e da comida da Queen está paga por quanto tempo?"
Dona Jocelyn deu um sorriso frio, quase sem dentes.
"Isso paga a entrada de vocês. Mas lembre-se, Kell: enquanto estiver sob o meu teto, a sua lealdade pertence a esta casa. Se falhar, ou se eu perceber qualquer sinal de que você ainda guarda lealdade aos contatos do seu pai... a sua garotinha perde a proteção da vovó Jo."
O mais novo olhou para Joshua e Eidel. Os dois sorriam de canto, cientes de que ele estava preso no jogo deles. Kell não tinha escolha a não ser aceitar a missão, usar o trabalho para descobrir quem tinha atacado a casa de seu pai e, acima de tudo, manter o segredo sobre a identidade da Queen bem enterrado.
Lista de capítulos
15 capítulos no total
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