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Capítulo 3 Contraste

A manhã começou cinzenta. O contraste entre a calmaria do lado de fora do casarão e a podridão do lado de dentro parecia cada vez mais violento.

Kell acompanhou Queen até a portaria do colégio particular a poucas quadras dali – uma escola cara, mas que mantinha a garota longe dos olhos de sua família por algumas horas. Ele se ajoelhou na altura dela na calçada, ajeitando a mochila nas costas pequenas do casaco azul marinho profundo de uniforme."

"Presta atenção em mim, Queen." Kell disse, mantendo a voz calma, embora seus olhos vasculhassem a rua sem parar. "Não fale com estranhos, não aceite carona de ninguém e, se vir alguém da família do meu pai ou qualquer outro além de mim e das professoras tentando se aproximar ou levar você, grita, corre e avisa a diretora. Eu venho te buscar na mesma hora, certo?" Ela fez um sinal positivo com a cabeça. "No final da aula estarei aqui. Prometo."

Ela assentiu, apertando a alça da mochila com as mãozinhas trêmulas.

"Você promete mesmo, Kell? O tio Lucius sempre prometia..."

O nome do pai fez o peito de Kell apertar de novo, mas ele engoliu o nó na garganta e deu um leve carinho no queixo dela.

"Eu prometo. Agora vai."

Ele esperou até que o portão reforçado do colégio se fechasse atrás dela antes de olhar ao redor e mapear todas as câmeras de segurança que encontrasse ao redor. Depois girou sobre os calcanhares e caminhou rápido.

O trânsito matutino e a necessidade de fazer um trajeto mais longo para checar se não estava sendo seguido custaram caro. Quando Kell cruzou os portões de ferro do casarão, já passava das nove e quinze.

No pátio de paralelepípedos, uma picape preta já estava com o motor ligado, soltando uma fumaça densa pelo escapamento. Encostados na caçamba, Joshua e Eidel o esperavam. Joshua checava o relógio de pulso com impaciência, enquanto Eidel girava uma chave de fenda entre os dedos.

"Olha só se não é o pequeno soldado." Debochou Joshua assim que Kell se aproximou. "Achou que estava de férias, garoto? A vovó tá possessa lá dentro."

Kell nem respondeu. Passou direto por eles e subiu os degraus da varanda, pisando fundo até o escritório.

Dona Jocelyn estava de pé ao lado da janela, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ao ouvir a porta se abrir, ela se virou lentamente. O olhar que lançou a Kell era capaz de congelar o sangue.

"Quinze minutos de atraso, Kell" A voz dela veio baixa, cortante como navalha. "No nosso meio, quinze minutos é a diferença entre terminar um serviço limpo ou sair num saco de lixo. O seu pai não te ensinou disciplina?"

"Eu tive que levar Queen até a escola." Kell respondeu, mantendo o queixo erguido, embora sentisse a pressão no ambiente.

"A sua única prioridade nesta casa é a missão que eu te dou!" Retrucou a matriarca, dando dois passos à frente e apontando o indicador para o peito dele. "Se a garota der trabalho ou atrapalhar o seu rendimento, eu mesma dou um jeito nela. Não se esqueça de quem está pagando a conta da sua permanência aqui. Se você falhar hoje porque estava bancando a babá, não vai ter segunda chance. Entendeu?"

Kell apertou os punhos ao lado do corpo, sentindo a raiva queimar no estômago, mas apenas assentiu.

"Entendi."

"Ótimo!" Ela virou-se de costas, dispensando-o com um gesto vago de mão. "As armas já estão sob o banco da picape. Joshua tem os mapas do galpão. Traga a carga inteira e sem estardalhaço. Agora suma da minha frente."

Kell saiu do escritório sem dizer mais nada. Ao passar pelo corredor, sentiu a presença incômoda de Tio Isaac observando da sombra da sala de estar, mas não deu o gosto de olhar para trás.

Lá fora, pulou para o banco de trás da picape. Joshua acelerou com força, fazendo os pneus cantarem no calçamento, enquanto Eidel ajustava o retrovisor para encarar Kell.

"Vamos ver se você é tão bom quanto o traidor do seu pai dizia." Provocou Eidel, soltando uma risada seca.

Kell apenas puxou o capuz do casaco sobre a cabeça e checou a trava da pistola escondida na cintura. O jogo tinha começado.

O cheiro de maresia e óleo queimado impregnava o ar na zona portuária. A picape preta ficou estacionada a duas quadras do Galpão 04, escondida atrás de uma fileira de contêineres enferrujados.

Kell ajustou o capuz escuro e puxou a gola da jaqueta para cobrir metade do rosto. Sob o banco da picape, puxou a submetralhadora compacta com silenciador adaptado e checou o carregador. Joshua e Eidel faziam o mesmo, embora o nervosismo dos dois ficasse evidente pela pressa desordenada nos movimentos.

"O perímetro tem quatro guardas." Disse Kell, mantendo a voz num tom baixo e preciso, apontando para a planta desenhada na tela de um celular. "Dois na guarita principal, dois fazendo a ronda pelos fundos a cada oito minutos. Eu desativo as câmeras do setor oeste, entro pelo duto de ventilação e abro a doca três por dentro. Vocês dois só entram quando eu der o sinal no rádio. Sem tiros, sem mortes desnecessárias."

"Olha só ele, parecendo um general." Debochou Joshua, tentando disfarçar a tensão enquanto destravava a pistola. "Vamos ver se lá dentro o soldadinho não amarela."

Kell ignorou. Pegou o equipamento e deslizou pelas sombras das pilhas de carga, movendo-se com a agilidade e o silêncio que o pai lhe ensinara. Chegou à parede lateral do galpão, escalou a estrutura de ferro de uma escada de incêndio e usou o alicate para cortar a grade de proteção do duto.

Lá dentro, o ar era abafado. Desceu suavemente sobre uma viga metálica no teto do galpão, observando o pátio interno. Caixas de madeira com o brasão da família rival, os Polotsviere, donos da Vanguard, estavam empilhadas até o teto. Dois guardas armados conversavam perto do cofre de segurança.

Calculando os segundos do ciclo das câmeras, Kell saltou da viga para cima de um contêiner e caiu em pé atrás do primeiro guarda. Um mata-leão rápido e preciso apagou o homem em segundos, sem um único som. Antes que o segundo guarda percebesse a ausência do parceiro, Kell surgiu do ponto cego e o atingiu com uma coronhada firme da arma na base do crânio. O homem caiu desacordado.

Ele correu até o painel da doca três e acionou o portão rolante, que subiu com um ruído abafado. Joshua e Eidel entraram apressados, empurrando um carrinho de transporte pesado.

"Demorou, hein?" Murmurou Eidel, olhando o próprio relógio e verificando que não passavam de três minutos da ação do "soldadinho". Impressionado apesar de si mesmo.

"Menos conversa, mais carga." Cortou Kell, já ajoelhado em frente ao cofre da parede.

As mãos de Kell trabalhavam rápido no decodificador eletrônico. As memórias das aulas do pai vinham como flashes rápidos: "Você vai conviver com pressão constante, Kell. O pânico faz a mão tremer, a precisão exige sangue frio e firmeza."

Um bip verde soou. A tranca pesada do cofre cedeu. Dentro, várias pastas de inteligência revestidas em couro e maletas com armamento de alta precisão.

"Peguem as maletas pretas e as pastas de couro escuro. Esqueçam o resto." Ordenou Kell.

Em menos de dez minutos, a carga estava acomodada na caçamba da picape sob uma lona grossa. Joshua acelerou saindo das docas enquanto a sirene de alarme do galpão finalmente começava a tocar ao longe - tarde demais.

Assim que pularam para fora do veículo no pátio do casarão, Eidel correu para entregar as maletas para Dona Jocelyn. Kell, no entanto, puxou o fôlego e olhou para o relógio no pulso: *12:40 p.m*.

Um arrepio frio correu pelas suas costas.

"A escola."

Ele tinha combinado de buscar Queen às 13:00 e, mais do que isso, havia agendado uma reunião com a diretora sobre a inclusão da criança em atividades extracurriculares. A ideia era simples, mas vital: quanto mais tempo Queen passasse na escola, - em aulas de artes, esportes ou reforço - menos tempo ficaria exposta ao ambiente podre e aos olhos do Tio Isaac no casarão.

Limpou a graxa e o suor do rosto no banheiro do térreo, vestiu uma jaqueta limpa para esconder as marcas da invasão e saiu apressado a pé, quase correndo pelas calçadas.

Chegou à escola exatamente às 12:58 p.m. Queen estava sentada em um banco de madeira na recepção, abraçada à sua mochila. Ao ver Kell entrar, o rosto dela se iluminou e ela correu para abraçar sua cintura.

"Você veio!" Ela sussurrou, aliviada.

"Eu disse que viria." Kell respondeu, acariciando o cabelo dela antes de se dirigir à mesa da diretora, Dona Helena, uma mulher de meia-idade com olhar que contrastava entre cansado e gentil e uma postura severa.

"Boa tarde, Kell" - disse a diretora. "Queen se comportou muito bem hoje. Sobre o que conversamos mais cedo, separei a grade do programa de tempo integral. Inclui acompanhamento pedagógico, aulas de música, ballet, pintura e esportes até as 18:30 todos os dias. Vou preparar a planilha financeira com a mensalidade adicional e te envio por mensagem no fim da tarde de hoje, tudo bem?"

"Perfeito, Senhora Helena. Eu fico no aguardo. Muito obrigado."

HORAS DEPOIS...

Ao cair da tarde, o casarão já estava imerso em sua habitual atmosfera tensa. Queen estava no quarto, entretida desenhando no chão sob a vigilância atenta de Kell, que mantinha a porta trancada como de costume.

O celular dele vibrou no bolso. Era uma notificação de mensagem da secretaria da escola. Kell abriu o arquivo PDF anexo com a proposta do orçamento. Os olhos dele percorreram as linhas digitadas até chegarem ao valor total no rodapé da página: taxa de matrícula estendida, material especial, taxa de seguro e mensalidade integral.

O valor era quase três vezes maior do que a quantia que ele trazia guardada no bolso e o pequeno valor que a avó lhe prometera por comissões futuras.

Kell encostou a cabeça contra a parede fria do quarto, soltando o ar devagar.

A matemática não fechava. Para manter Queen segura e longe daquele lugar, ele precisaria de muito mais dinheiro. E na estrutura da família, a única forma de conseguir mais dinheiro era aceitando missões cada vez mais perigosas, sangrentas e profundas no submundo e aos interesses de Dona Jocelyn - exatamente o tipo de vida de onde seu pai tentou tirá-lo.

Ele olhou para a garotinha concentrada em seus lápis de cor no chão, sentindo o nó na garganta apertar. O relógio estava correndo, e o preço para protegê-la estava ficando alto demais.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

15 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Noite Sombria
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Predadores
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Contraste

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