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Capítulo 2 Seus Olhos
ℍ𝕠̂𝕡𝕚𝕥𝕒𝕝 𝕕𝕖 𝕝𝕒 ℙ𝕚𝕥𝕚𝕖́-𝕊𝕒𝕝𝕡𝕖̂𝕥𝕣𝕚𝕖̀𝕣𝕖 - 𝟚𝟚 𝕕𝕖 𝕠𝕦𝕥𝕦𝕓𝕣𝕠, 𝟘𝟞:𝟙𝟜 𝕕𝕒 𝕞𝕒𝕟𝕙𝕒̃
A luz era a primeira coisa que doía.
Branca. Fria. Fluorescente. Agredindo sua retina como mil agulhas simultâneas.
Cleo tentou abrir os olhos.
Um obedeceu.
O outro...
''Mademoiselle Vasconcellos?'', A voz vinha de algum lugar acima dela, flutuando, ancorada em um sotaque francês carregado. ''Vous m'entendez? Consegue me ouvir?''
Ela tentou responder, mas sua garganta era um deserto. Alguém aproximou um copo d'água de seus lábios, e ela bebeu com a avidez de quem não bebia há dias - embora não soubesse há quanto tempo estava ali. Horas? Dias? Séculos?
''Minha...'' A voz saiu rouca, irreconhecível. ''Minha mãe sabe?''
Ela forçou o olho direito a focar. O esquerdo... o esquerdo era um borrão cinzento, uma névoa, uma ausência. Como se alguém tivesse desligado metade do mundo.
A enfermeira, uma mulher de rosto anguloso e olhos azuis, trocou um olhar com o médico ao lado. Um olhar que Cleo conhecia bem. O olhar que as pessoas davam quando não queriam dizer a verdade.
''Votre mère... '', começou a enfermeira, e hesitou. ''Sua mãe está...''
O médico tocou-lhe o ombro, interrompendo-a. Era um homem mais velho, de cabelos grisalhos e uma expressão que tentava ser neutra, mas carregava o peso de más notícias.
''Senhorita Vasconcellos'', disse ele, em um português lento e sotaque carregado. ''Há algumas coisas que precisamos conversar. Sobre seu acidente. Sobre sua visão. E sobre...''
Ele não terminou a frase.
Não precisava.
Cleo fechou o olho que ainda enxergava e deixou a escuridão levá-la de volta.
✦ ── 🥀 ── ✦
O olho esquerdo morreu sem despedida.
Os médicos usaram palavras mais suaves - neuropatia óptica traumática, perda permanente, prognóstico reservado, mas Cleo as traduziu para a única língua que importava: nunca mais.
Ela buscou o mundo inteiro nos meses que se seguiram. Não aceitou a sentença. Recusou-se a acreditar que uma colisão de dois segundos pudesse arrancar metade de sua visão para sempre.
''Existem especialistas em Basileia'', dissera uma médica em Paris, com a voz calma, tentando entregar consolo. ''E em Tóquio, e em Boston. Mas, senhorita Vasconcellos, o nervo óptico não se regenera.''
Cleo não ouviu.
Ela voou para a Suíça com o rosto ainda marcado pelos pontos, a pálpebra esquerda inchada, a visão direita embaçada pela fadiga.
Consultou neuroftalmologistas que cobravam mais por uma hora do que a maioria das pessoas ganhava em um ano. Recebeu a mesma resposta com sotaques diferentes.
''Impossível.''
''Irreversível.''
''Temos terapias experimentais, mas as chances são mínimas.''
Ela tentou as terapias experimentais. Passou semanas em clínicas frias, com luzes reguladas e enfermeiras que falavam baixo demais. Acupuntura. Estimulação magnética. Células-tronco em uma clínica particular em Frankfurt.
Ela mandou buscar a mãe.
Dona Fátima chegou a Paris em uma manhã de novembro, carregando uma mala surrada e o cheiro familiar de lavanda e café. Não chorou na frente da filha - não nas primeiras horas. Apenas segurou-lhe a mão e disse:
''Nós vamos dar um jeito, filha. Mãe sempre dá um jeito.''
Cleo acreditou. Porque precisava acreditar. Porque a alternativa - a escuridão, a dependência, o fim - era insuportável.
Humberto não veio.
''Ele ficou cuidando da casa'', explicou Dona Fátima, ajeitando o cobertor sobre as pernas da filha. ''Alguém precisa manter as coisas em ordem por lá.''
Cleo não perguntou que ordem era aquela. Não queria saber. O alívio de não ter aquele homem por perto superava qualquer curiosidade.
Os meses na Europa foram um carrossel de consultas e desilusões. Cleo perdeu a conta dos médicos que a examinaram, dos exames que fez, dos tratamentos que tentou. Cada novo especialista acendia uma fagulha de esperança que se apagava antes do fim da consulta.
''Seu olho esquerdo está morto, senhorita'', dissera um cirurgião em Londres, com a brutalidade de quem não tinha tempo para metáforas. ''O direito pode ser salvo. Por ora. Mas não há garantias.''
O dinheiro que essa mulher gasta em uma semana daria para sustentar meu consultório por um ano, pensou o cirurgião, observando o anel de rubi que Cleo ainda usava no dedo.
Ela o vendeu na semana seguinte.
O sheik de Dubai nunca soube que seu presente acabara em uma casa de leilões em Londres, convertido em libras que pagariam mais uma rodada de exames inúteis.
A agência em Milão ligou três vezes. Na quarta, Cleo mandou a secretária dizer que estava se recuperando. Na quinta, a secretária não ligou mais.
O estilista francês que a chamara de musa enviou flores uma vez. Depois, substituiu-a por uma garota de dezesseis anos vinda de Novosibirsk.
O mundo da moda fechava suas portas com a discrição de quem troca um vestido por outro.
E Cleo, sentada em quartos de hotéis que pagara com o dinheiro de uma vida que não existia mais, começava a entender o que significava ser só mais uma história bonita demais para durar.
Lista de capítulos
18 capítulos no total
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