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Capítulo 3 De Volta à Terra Natal
ℝ𝕖́𝕧𝕖𝕚𝕝𝕝𝕠𝕟, ℍ𝕠𝕥𝕖𝕝 ℂ𝕠𝕡𝕒𝕔𝕒𝕓𝕒𝕟𝕒 ℙ𝕒𝕝𝕒𝕔𝕖 - ℝ𝕚𝕠 𝕕𝕖 𝕁𝕒𝕟𝕖𝕚𝕣𝕠, 𝔹𝕣𝕒𝕤𝕚𝕝 - 𝟛𝟙 𝕕𝕖 𝕕𝕖𝕫𝕖𝕞𝕓𝕣𝕠, 𝟚𝟛:𝟜𝟟 𝕕𝕒 𝕟𝕠𝕚𝕥𝕖
O Brasil a recebeu com calor e indiferença.
Cleo desembarcou no Galeão em uma tarde de dezembro, usando óculos escuros que cobriam metade do rosto. A mãe caminhava ao seu lado, carregando a própria mala e a da filha, insistindo que estava tudo bem, que não pesava, que a filha não precisava se preocupar.
"Mãe, deixa eu..."
"Fica quieta, menina. Eu sou forte."
E era. Dona Fátima sempre fora forte. Forte o suficiente para criar uma filha sozinha depois que o pai de Cleo fora embora. Forte o suficiente para trabalhar em três empregos enquanto a menina desfilava em concursos infantis. Forte o suficiente para aceitar Humberto em suas vidas, anos depois, quando a solidão apertara demais.
Cleo nunca conheceu o pai. Sabia apenas que ele a abandonara quando era bebê. A mãe nunca falava dele. Uma fotografia antiga, escondida no fundo de uma gaveta, mostrava um homem de sorriso torto e olhos claros. Nada mais.
A mansão ficava no Jardim Botânico, um bairro nobre cercado de verde, onde as casas respiravam dinheiro velho e frescor tropical.
Cleo a comprara meses atrás, no auge da carreira, com o dinheiro de três desfiles e uma campanha de perfume. Presente para a mãe. Presente que Humberto agora ocupava como se fosse dono.
"Vem ficar com a gente, filha", insistiu Dona Fátima, pela décima vez desde o desembarque. "É a sua casa."
"Vou ficar no hotel, mãe. Já reservei."
"Mas por quê? Tem tanto quarto vazio..."
Cleo não respondeu. Não olhou para a casa. Não olhou para a mãe. Manteve os olhos fixos no muro alto, coberto de hera, atrás do qual aquele homem aguardava.
"Porque eu preciso de silêncio", mentiu. "E o hotel tem os fisioterapeutas perto."
Era uma desculpa esfarrapada. A fisioterapia era duas vezes por semana. O hotel ficava a quarenta minutos da clínica. Mas Dona Fátima aceitou. porque aceitava tudo o que a filha dizia, porque o amor a fazia cega para as mentiras mais óbvias.
Humberto apareceu na varanda da mansão, acenando.
Cleo viu apenas um vulto escuro, borrado, uma mancha parada atrás do gradil.
Foi o suficiente para que seu estômago se contraísse.
"Vamos, filha", chamou Dona Fátima, tocando-lhe o braço. "Ele quer te ver."
"Eu preciso descansar."
A desculpa soou fraca até para seus próprios ouvidos.
Porém, a mãe assentiu, e o táxi as levou para o Copacabana Palace, onde Cleo se trancou em uma suíte com vista para o mar que ela não conseguia ver direito.
Passou a virada do ano sozinha.
A mãe ligou às onze e quarenta e sete.
"Feliz Ano-Novo, filha!", A voz de Dona Fátima estava alegre demais, carregada demais, como se tentasse compensar a ausência. "O Humberto fez uma ceia maravilhosa. Você tinha que ver."
"Não como peixe, mãe."
"Eu sei. Fiz peru assado. Sua receita favorita."
Cleo ouviu a voz de Humberto ao fundo, algo sobre abrir o champanhe. Imaginou-o servindo a mãe, tocando-lhe o ombro, sorrindo aquele sorriso de bom marido que Cleo nunca conseguiu acreditar.
"Te ligo amanhã, mãe."
"Cleo..."
"Feliz Ano-Novo."
Desligou antes de ouvir a resposta.
A queima de fogos em Copacabana explodiu lá fora, transformando o céu em um espetáculo distante que Cleo via apenas como manchas coloridas e incertas contra a escuridão.
Ela nunca vai morar aqui de novo, pensou Humberto, girando a taça de champanhe entre os dedos. E é melhor assim. Quanto mais longe dela, menos perguntas.
Mas ele sorriu quando a esposa voltou à sala.
"Ela está cansada, coitada", falou Dona Fátima, sentando-se ao lado do marido. "Aquela viagem desgasta qualquer um."
"Claro, meu bem. Ela precisa de tempo."
Humberto beijou a testa da esposa, e o gesto pareceu ternura.
ℍ𝕠𝕤𝕡𝕚𝕥𝕒𝕝 𝕊𝕒̃𝕠 𝕃𝕦𝕔𝕒𝕤 - ℝ𝕚𝕠 𝕕𝕖 𝕁𝕒𝕟𝕖𝕚𝕣𝕠, 𝔹𝕣𝕒𝕤𝕚𝕝 - 𝟙𝟜 𝕕𝕖 𝕗𝕖𝕧𝕖𝕣𝕖𝕚𝕣𝕠, 𝟙𝟝:𝟚𝟘 𝕕𝕒 𝕥𝕒𝕣𝕕𝕖
A cirurgia era a última esperança.
Não para o olho esquerdo - esse estava morto, enterrado, perdido para sempre. Mas para o direito, que ainda carregava cerca de oitenta por cento da visão original.
''Podemos tentar uma vitrectomia com reparo da retina'', explicou o cirurgião brasileiro, um homem de óculos de aro fino e mãos que gesticulavam como se desenhassem no ar. ''Há risco de piora. Sempre há. Mas sem a cirurgia, existe a chance de descolamento espontâneo nos próximos meses.''
''E com a cirurgia?'', perguntou Cleo.
''Com a cirurgia... talvez estabilize. Talvez recupere um pouco da visão periférica. Talvez.''
Aquele talvez custou mais dinheiro do que Cleo gostaria de admitir. Ela assinou os papéis com a mão trêmula, pensando na comida no quarto do hotel, nas contas de hospital, na aposentadoria que se aproximava como um trem sem freio.
''Você não precisa fazer isso sozinha, filha'', dissera a mãe na véspera. ''Deixa eu ir com você.''
''Eu preciso, mãe. Eu preciso.''
A cirurgia durou quatro horas.
Quando Cleo acordou, o mundo era uma névoa vermelha.
''Houve uma complicação'', disse o médico, a voz distante, submersa. ''Uma hemorragia intraocular durante o procedimento. Conseguimos controlar, mas...''
O silêncio era pior que o resto.
''Senhorita Vasconcellos, sinto muito. O olho direito perdeu aproximadamente setenta por cento da visão. Talvez recuperemos uma fração com o tempo, mas...''
A voz continuou, mas Cleo não ouvia mais.
Setenta por cento.
Do olho bom.
Significava que ela tinha agora, no total, cerca de trinta ou quarenta por cento de visão em um olho. O outro era escuridão total.
O mundo encolheu.
O mar de Copacabana tornou-se uma mancha cinza. Os rostos das pessoas viraram borrões sem traços. Os corredores do hospital eram túneis de luz e sombra, desprovidos de profundidade.
Cleo passou três dias sem falar.
A mãe sentava-se ao lado da cama, segurando-lhe a mão, rezando baixinho, sussurrando preces que Cleo nunca aprendera. Humberto aparecia na porta do quarto, um vulto escuro e imóvel, observando.
''Ela está assim desde ontem?'', indagou a mãe, a voz embargada.
''Desde a cirurgia'', replicou Humberto. ''O médico disse que é normal. Choque. Vai passar.''
Porém, a voz dele era fria. Distante. Como se descrevesse um objeto quebrado que em breve precisaria ser descartado.
Cleo não disse nada. Não podia. As palavras estavam presas em algum lugar entre o pânico e a escuridão, e nenhuma delas queria sair.
✦ ── 🥀 ── ✦
Ela se aposentou em silêncio.
A notícia correu os bastidores da moda como um boato mórbido. Cleo Vasconcellos volta ao Brasil. Cleo Vasconcellos perde a visão. Cleo Vasconcellos abandona as passarelas. Cleo Vasconcellos some.
Ninguém ligou para perguntar se ela estava bem.
Os agentes que antes a disputavam agora não retornavam emails. As modelos que dividiam camarins e champanhe em Paris sumiram como fumaça. Os homens que prometiam mundos e fundos - os sheiks, os milionários, os estilistas apaixonados - evaporaram-se com a notícia de que a nova Gisele não era mais a nova Gisele.
Ela era apenas uma mulher de vinte e dois anos, legalmente cega, vivendo em um hotel que custava mais do que podia pagar, com um futuro que encolhia a cada manhã.
''Estou falindo, mãe'', admitiu Cleo uma noite, ao telefone. ''O dinheiro da Europa está acabando. Os tratamentos comeram tudo.''
''Vem pra casa, filha. Eu já disse tantas vezes...''
''Eu não volto pra lá.''
''Ele não vai te incomodar. Eu prometo.''
Cleo riu, uma risada curta, amarga, que ecoou no quarto vazio.
''Mãe, a senhora nem sabe quem é aquele homem.''
''Humberto é meu marido há doze anos, Cleo. Eu sei quem ele é.''
''Então por que ele não tem emprego? Por que vive do MEU dinheiro? Por que...''
''Cleo, para!''
O silêncio era um abismo entre as duas.
Depois de um longo minuto, a voz da mãe voltou, suave, quebrada:
''Filha, eu sei que você nunca gostou dele. Mas ele me faz companhia. Ele cuida de mim. E você... você vive longe, vive no seu mundo. Eu fico sozinha aqui.''
A culpa pesou nos ombros da menina.
Cleo fechou os olhos - o esquerdo não precisava, o direito via apenas borrões - e deixou o telefone escorregar entre os dedos.
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Ela se mudou para a mansão exatamente sete meses depois do retorno ao Brasil.
A razão foi brutal, definitiva, esculpida em um exame de sangue que Dona Fátima fizera por insistência da filha.
''Câncer'', dissera o médico, a voz neutra, ensaiada. ''Pâncreas. Estágio três. Vou ser franco: as chances são baixas.''
Cleo segurou a mão da mãe quando o veredito afundou.
Dona Fátima não chorou.
''Eu já desconfiava'', murmurou, os olhos fixos em um ponto distante. ''Há meses sinto uma pontada aqui...''
''Mãe, por que a senhora não me disse?!''
''Você já sofria demais, filha. Não queria te dar mais um peso.''
Cleo usou o que restava do dinheiro da Europa para pagar os melhores oncologistas do Rio, depois de São Paulo, depois de uma clínica em Houston que oferecia esperança a preços impossíveis. Nada deteve o avanço da doença.
Ela se mudou para a mansão porque precisava ficar perto. Porque a mãe estava definhando, e o medo de perdê-la superava o medo do homem que vivia sob o mesmo teto.
O quarto de Cleo ficava no fim do corredor, distante da suíte principal onde a mãe e Humberto dormiam. Ela raramente saía de lá. Quando saía, era para acompanhar a mãe às sessões de quimioterapia, para cozinhar quando a mãe não conseguia, para segurar-lhe o cabelo quando os fios caíam em tufos sobre o travesseiro.
Humberto observava de longe.
Sempre de longe.
Eles mal trocavam palavras.
''Bom dia, Cleo.''
''Humberto.''
Era só isso. Dias inteiros se passavam com um cumprimento seco e um olhar que a fazia encolher-se por dentro.
Na frente da esposa, ele era perfeito. Solícito. Carinhoso. Preparava chás, arrumava cobertores, segurava a mão da esposa durante as consultas. Um anjo, diziam as enfermeiras. Que marido dedicado.
Porém, Cleo via o que ninguém via.
Via quando ele saía do quarto da mãe e o sorriso morria antes de a porta fechar. Via quando ele contava o dinheiro que a mãe guardava na gaveta - o dinheiro que Cleo mandava, o dinheiro que deveria ir para os remédios, mas que desaparecia em suas mãos. Via quando ele voltava tarde da noite, cheirando a cigarro barato e algo mais, algo adocicado e químico que a fazia trancar a porta do quarto.
''Aquele homem é perigoso, mãe.''
Dona Fátima suspirava, cada vez mais fraca, cada vez mais cansada.
''Ele é tudo o que eu tenho, filha. Além de você.''
''Eu estou aqui, mãe. Eu estou aqui.''
Mas a mãe já estava longe, em algum lugar entre a dor e os analgésicos, entre a vida que fora e a morte que se aproximava.
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A morte chegou sem alarde.
Cleo estava sentada ao lado da cama, como fazia todas as noites, segurando a mão da mãe. A mão estava fria, mas ainda tinha pulso, um fio de vida teimoso que se recusava a partir.
Humberto estava no quarto ao lado, dormindo. Ou fingindo dormir. Cleo nunca soube ao certo.
A mansão estava em silêncio, exceto pelo suave sibilar do ventilador de teto e pelo canto distante de um sabiá nos jardins. O cheiro era de remédio e lavanda, a lavanda que a mãe sempre usava, agora misturada ao odor adocicado da doença.
''Filha...'', A voz da mãe era um fio, quase inaudível.
''Estou aqui, mãe. Estou aqui.''
Dona Fátima virou o rosto no travesseiro, os olhos encontrando o borrão que era a filha.
''Promete... que vai ficar bem.''
''Eu prometo, mãe.''
''Ele...'', A mãe hesitou, os lábios secos tentando formar as palavras. ''Ele tem... dívidas. Muitas dívidas. Eu não sabia... não queria...''
''Mãe, não fala. Descansa.''
''Preciso te contar... sobre o Humberto. Ele não é...''
A voz se perdeu.
Cleo apertou a mão da mãe, sentindo os dedos frágeis, os ossos, a pele fina como papel.
''Mãe?''
O silêncio era uma resposta.
Cleo olhou para o rosto da mãe, para a boca entreaberta, para os olhos que já não viam mais. A presença que preenchia o quarto, que preenchia o mundo, que preenchia todos os vazios da vida de Cleo... se foi.
No instante seguinte, o som que saiu de Cleo não era humano.
Era um uivo, um lamento, um grito que parecia vir de um lugar muito mais profundo que a garganta. Ela se atirou sobre o corpo da mãe, as lágrimas escorrendo, as mãos agarrando o lençol, o rosto afundando na curva do pescoço que ainda estava morno.
''Não! Mãe, não! Não me deixa! MÃE!''
Humberto apareceu na porta, o rosto uma máscara de choque perfeitamente coreografado.
''Ela se foi?'', perguntou, a voz embargada de forma convincente.
Cleo não respondeu. Não conseguiu. O mundo encolhera a um único ponto de dor, e tudo o mais era borrão - o quarto, o homem parado na porta, o sabiá que cantava lá fora, indiferente.
Finalmente, pensou Humberto, os olhos fixos na mulher curvada sobre o corpo da esposa. Finalmente posso cuidar dos meus negócios sem essa velha atrapalhando.
Mas ele se aproximou, tocou o ombro de Cleo com a leveza de quem consola, e disse:
''Sinto muito, Cleo. Eu a amava também.''
Ela se encolheu sob aquele toque, como se a mão fosse feita de serpentes.
A mãe estava fria agora.
O funeral foi uma manhã cinzenta no Cemitério São João Batista, com um céu baixo e um calor abafado que prometia chuva.
Cleo usou óculos escuros, não por vaidade, mas para esconder o olho morto e o que restava do outro, vermelho de tanto chorar.
Poucas pessoas apareceram. Algumas amigas antigas de Dona Fátima, vizinhas com flores e palavras de conforto vazio. Nenhum amigo de Cleo. Ninguém da moda. Ninguém do mundo que ela dominara.
Humberto ficou ao lado dela o tempo todo, mão em seu ombro, cumprimentando os presentes com a dignidade de um viúvo exemplar.
''Sua mãe era uma santa'', disseram várias pessoas.
''Era'', concordava Humberto, enxugando um olho seco.
Cleo não disse nada.
Quando a chuva finalmente caiu, fina e insistente, ela permaneceu imóvel diante da sepultura, observando a terra molhada engolir o caixão.
O cheiro de terra molhada e flores podres subiu até ela, misturando-se ao perfume de lavanda que insistia em permanecer em suas roupas.
''Vamos, Cleo'', chamou Humberto, segurando-a pelo braço. ''Você vai pegar chuva.''
Ela se soltou.
''Não me toca.''
A voz saiu fria, cortante, a primeira frase completa que ela dirigia a ele em semanas.
Humberto não insistiu. Apenas sorriu, o sorriso que Cleo conhecia bem demais, o sorriso de quem estava esperando.
''Como quiser.''
E voltou para o carro, deixando-a sozinha na chuva.
Cleo ficou ali até os coveiros terminarem o trabalho. Até a última pá de terra. Até o mundo inteiro parecer uma sepultura aberta e silenciosa.
Então, sem rumo, sem dinheiro, sem carreira, sem a única pessoa que a amara incondicionalmente, Cleo Vasconcellos percebeu que estava verdadeiramente sozinha.
E que o homem que a observava da janela do carro, aquele maldito sorriso nos lábios, agora era o único senhor de sua vida.
A escuridão nunca fora tão completa.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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