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Capítulo 2 O embarque
O terminal do porto tem um jeito de te preparar pra alguma coisa e, ao mesmo tempo, não preparar pra nada. Fila organizada, faixas coloridas, uma música ambiente animada demais pras oito da manhã. Eu já tinha visitado aeroportos, rodoviárias, consultórios médicos - todos os lugares clássicos de espera ansiosa - mas nenhum deles tinha essa combinação específica de excitação forçada com cheiro de protetor solar em excesso.
Fiquei na fila com a mala pequena entre os pés, checando o celular sem checar nada de verdade, só pra ter uma coisa pra fazer com as mãos. Foi aí que percebi.
Não foi gradual. Foi tipo entrar numa piscina e sentir a água mudar de temperatura de uma vez: em algum ponto entre o carro e aquela fila, a média de idade ao meu redor tinha despencado de um jeito que nenhuma estatística tinha me preparado pra sentir na pele.
Culotes. Muitos culotes. Bonés virados de um jeito que exigia treino específico pra não parecer que a pessoa só esqueceu de virar direito. Um grupo de quatro garotas - vinte e poucos, no máximo - filmando um vídeo em sincronia, com uma coreografia que elas claramente já tinham ensaiado em algum lugar antes de chegar ali, porque ninguém erra uma coreografia daquele jeito sem prática.
Eu olhei pra minha própria roupa. Jeans, blusa branca, tênis novo que ainda cheirava a loja. Não era ruim. Era só... adulta. No sentido mais careta possível da palavra.
Uma mulher - ou melhor, uma menina, porque chamar de mulher já é fazer ela mais velha do que provavelmente era - passou por mim usando um top que dizia "TEAM BRIDE" em letras cor-de-rosa, seguida por um bando igualmente vestido, uma delas segurando um balão em formato de flamingo que já estava murchando visivelmente antes mesmo do embarque.
Eu me senti, pela primeira vez desde que comprei a passagem, uma pessoa infiltrada num evento que não era meu.
A sensação não durou muito, porque logo veio outra, pior: a de que eu não conseguia mais fingir, nem pra mim mesma, que não tinha percebido o tamanho da bobagem que fiz.
***
O check-in em si foi rápido, impessoal, feito por um funcionário de sorriso profissional que perguntou minha idade só pra confirmar o documento e não fez cara nenhuma quando leu o número - o que, de alguma forma, me irritou. Eu queria uma reação. Um piscar de olho. Um "ih, mas a senhora não é meio grande pra esse cruzeiro?" pra eu poder ficar ofendida e usar isso como combustível. Ele só carimbou, sorriu, disse "aproveite a viagem" com a mesma entonação que provavelmente usava com todo mundo, e me devolveu o passaporte.
Isso é o problema de imaginar cenas de conflito antes delas acontecerem: a realidade quase nunca dá a deixa que você preparou.
Subi a rampa de embarque cercada por gente rindo alto, tirando foto de tudo - da rampa, do mar, de si mesma na rampa com o mar atrás - enquanto eu carregava minha mala pequena tentando parecer que aquilo era completamente normal pra mim, que eu fazia esse tipo de coisa toda hora, que eu era, é claro, uma pessoa despojada que embarca em cruzeiros pra gente de vinte anos com frequência e naturalidade.
Ninguém, claro, estava prestando atenção em mim o suficiente pra perceber a atuação. Isso eu só entendi bem mais tarde: que boa parte da vergonha que sentimos é assistida por uma plateia de um - nós mesmos.
***
O saguão principal do navio parecia ter sido desenhado por alguém que assistiu muitos vídeos de festa e nenhum documentário sobre acústica. Luzes em tons de rosa e roxo, uma DJ já tocando alguma coisa com muito grave às nove e meia da manhã, e telas gigantes anunciando a "programação do primeiro dia" com nomes de eventos que eu não entendia completamente - "Welcome Foam Party", "Sunset Silent Disco", "Speed Friending Deck 9".
Speed friending. Eu li aquilo três vezes tentando entender se era uma piada.
Fiquei parada ali por um momento, mala ainda na mão, absorvendo a cena com a expressão de quem está calculando uma rota de fuga, quando uma recepcionista do navio - sorriso genuíno, esse sim, o que doeu um pouco mais que o do check-in - perguntou se eu precisava de ajuda pra achar meu camarote.
"Não, imagina, tô super por dentro", eu disse.
Não estava. Levei doze minutos e duas voltas erradas pra achar o corredor certo, andando por um navio que parecia ter sido projetado especificamente pra confundir gente que finge saber onde está indo.
***
O camarote era pequeno, funcional, com uma varanda minúscula que dava pra um pedaço de mar que já parecia diferente do mar que eu conhecia - mais azul, mais artificial, como se tivesse sido tratado especificamente pra parecer feliz. Deixei a mala em cima da cama, sentei na beirada, e fiquei ali por um tempo que não soube medir.
Foi o primeiro momento de silêncio real desde que saí de casa. E, nesse silêncio, veio a primeira dúvida honesta da viagem, sem disfarce de piada, sem racionalização, sem frase de efeito pra passar pra Beatriz depois.
O que eu vim fazer aqui, afinal?
Eu tinha respostas prontas - "energia diferente", "quebrar a rotina", "aniversário diferente" - mas nenhuma delas resistia ao silêncio daquele camarote por mais de dez segundos sem parecer, bem, mentira. Ou não exatamente mentira. Um jeito educado de não olhar direito pra verdade.
A verdade, ou pelo menos o pedaço dela que eu conseguia acessar naquele momento, era mais ou menos assim: eu tinha certeza - uma certeza que ninguém tinha me dado, que eu tinha fabricado sozinha com jornada dupla de comparação e insegurança - de que a vida "de verdade" estava acontecendo em algum outro lugar, com outras pessoas, numa idade que eu já tinha ultrapassado sem perceber a saída.
E, ao invés de examinar essa certeza, eu comprei uma passagem pra ficar fisicamente cercada da prova dela.
Isso, dito assim, parecia até inteligente. Ridículo, mas inteligente. Enfrentar o medo indo direto pro meio dele. Só que eu sabia - sabia mesmo, lá no fundo, do jeito que a gente sabe as coisas que não quer admitir - que eu não tinha ido ali pra enfrentar nada. Tinha ido pra confirmar. Achando, com aquela lógica furada e íntima que só a gente mesmo entende, que se eu conseguisse "passar" naquele ambiente, se eu conseguisse me misturar, dançar as músicas certas, entender as piadas certas, de alguma forma isso provaria que eu ainda não tinha "saído de moda" como pessoa.
Uma prova que ninguém, além de mim, estava pedindo.
***
Bati o rosto de leve nas duas mãos - gesto que uso desde criança pra "resetar", coisa que aprendi vendo minha avó fazer antes de qualquer decisão importante e que carreguei pra vida adulta sem nunca questionar se funcionava de verdade - e me levantei.
Se eu ia estar ali mesmo, ia estar ali direito. Troquei de roupa - um dos vestidos "despojados" da vendedora, que na luz do camarote parecia menos certo do que na loja, mas já estava comprado, já estava na mala, e eu não tinha trazido plano B.
Me olhei no espelho pequeno da porta do banheiro. Trinta e cinco anos, vestido que não era bem meu, tênis ainda duro de novo, e uma expressão no rosto que eu reconheci imediatamente: era a mesma que eu fazia antes de apresentações importantes no trabalho. A cara de quem já decidiu que vai fingir que está tudo bem antes mesmo de saber se vai estar.
"Tá", eu disse pro espelho, em voz alta, sozinha, o que devia ser mais estranho do que foi. "Vamos lá."
Saí do camarote, tranquei a porta, e segui o som da música que vinha do saguão, cada vez mais alto conforme eu me aproximava - como se o navio inteiro estivesse me avisando, com bastante antecedência, que eu não fazia ideia do que estava prestes a enfrentar.
No corredor, esbarrei - literalmente, ombro contra ombro - com alguém que vinha na direção contrária. Um homem, mais ou menos da minha idade, único detalhe que meu cérebro registrou antes de qualquer outro, com uma expressão facial que eu reconheci antes mesmo de processar por quê: era exatamente a mesma que eu tinha acabado de fazer no espelho.
"Desculpa", ele disse.
"Imagina", respondi.
Nenhum dos dois se moveu por um segundo a mais do que o necessário.
Lista de capítulos
16 capítulos no total
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