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Capítulo 3 Tomás, o outro infiltrado

Existe um tipo específico de reconhecimento que não precisa de palavras. Você vê alguém do outro lado de uma sala lotada e, sem trocar uma frase sequer, sabe: essa pessoa também não devia estar aqui.

Foi mais ou menos isso que aconteceu no saguão, vinte minutos depois do esbarrão no corredor.

Eu tinha ido até lá seguindo o som da música, decidida a "participar", palavra que na minha cabeça significava algo entre "aparecer" e "sobreviver". O ambiente era exatamente como eu tinha visto antes - luzes rosa, grave alto demais, uma DJ animada gritando frases de incentivo que ninguém pediu - só que agora cheio, de verdade, de gente que sabia se mover naquele espaço de um jeito que eu claramente não sabia.

Peguei um copo de alguma coisa frutada num balcão, mais pra ter o que segurar do que pra beber, e fiquei encostada perto de uma coluna, no que eu esperava que parecesse "observando com tranquilidade" e provavelmente parecia "aguardando resgate".

Foi então que o vi de novo. O homem do corredor. Encostado numa coluna do outro lado do saguão, copo na mão, também sem beber, também com aquela postura de quem calculou a distância exata entre "presente na festa" e "não exatamente na festa".

Nossos olhares se cruzaram. Ele ergueu o copo, um gesto mínimo, quase irônico, tipo um brinde a uma piada que só nós dois entendíamos. Eu ergui o meu de volta, sem saber muito bem o protocolo pra essas coisas.

Ele atravessou o saguão devagar, sem pressa, desviando de um grupo que tentava puxá-lo pra dançar com uma facilidade que sugeria prática recente naquele exato movimento.

"A gente já se esbarrou hoje", ele disse, chegando perto. Precisou quase gritar por causa da música.

"Literalmente", eu respondi.

"Tomás", ele disse, estendendo a mão, gesto formal demais pro ambiente, o que de alguma forma tornou tudo mais confortável.

"Clara."

Apertamos as mãos ali, no meio do que tecnicamente era uma festa de espuma anunciada nas telas - a espuma, felizmente, ainda não tinha começado -, dois adultos se cumprimentando com formalidade de reunião de condomínio.

***

A gente saiu do saguão sem combinar, só andando na mesma direção, até chegar num deck lateral bem mais silencioso, com cadeiras de balanço voltadas pro mar e praticamente ninguém por perto. O som da festa ainda chegava, abafado, como um problema que você decide ignorar por um tempo.

"Café da manhã de gente de vinte anos", ele disse, se sentando numa das cadeiras. "Achei que ia ser mais suave."

"Eu também. Errei feio."

"Como é que você foi parar aqui?", ele perguntou, e havia genuína curiosidade na pergunta, não julgamento - o que eu agradeci internamente, porque já tinha me preparado, sem perceber, pra uma versão mais afiada dessa mesma pergunta.

Considerei a resposta oficial. "Precisava de uma energia diferente." Mas alguma coisa na cara dele - cansada, honesta, sem a performance que eu tinha visto em todo mundo até ali - me fez optar por outra coisa.

"Impulso ruim", eu disse. "Terminei um relacionamento sem dor de cotovelo suficiente pra justificar, perdi um emprego que eu nem gostava tanto assim, e vou fazer trinta e cinco anos daqui a duas semanas. Aí vi um anúncio de cruzeiro jovem e decidi que a solução era provar que ainda consigo ser jovem. Não sei provar pra quem."

Ele riu - não uma risada grande, mas real, do tipo que sobe pelo nariz mais do que sai pela boca.

"Isso é a coisa mais sincera que alguém me disse desde que embarquei", ele falou. "E olha que só faz seis horas."

"E você?"

Ele demorou um pouco pra responder, olhando pro mar em vez de pra mim, o que eu já ia aprender, com o tempo, que era um dos jeitos dele de ganhar espaço antes de falar sobre si mesmo.

"Trinta e oito. Minha irmã me deu essa passagem de aniversário como piada. Disse que eu precisava 'sair da caixa'. Achei que ela ia cancelar de última hora, tipo sempre faz. Não cancelou."

"E você veio mesmo assim?"

"Eu não sabia dizer não sem parecer que estava com medo de alguma coisa", ele disse, e depois, quase se corrigindo: "O que, evidentemente, eu estava."

Aquilo ficou no ar por um segundo. Ele tinha dito a frase com o mesmo tom leve de tudo o mais, mas havia um peso ali embaixo que eu reconheci - não porque eu entendesse do que se tratava especificamente, mas porque reconheci a estrutura. Era o mesmo mecanismo que eu tinha usado a manhã inteira: dizer a verdade disfarçada de piada, torcendo pra que ninguém prestasse atenção suficiente pra notar que era verdade.

***

Ficamos ali um bom tempo, sem pressa de voltar pra festa, trocando informações soltas do jeito que duas pessoas fazem quando decidem, sem anunciar, que vão continuar se falando depois daquele dia. Ele era arquiteto - "tecnicamente", disse, com uma ênfase que eu não entendi ainda, mas guardei. Eu era analista de marketing, "tecnicamente desempregada", o que rendeu outra risada dele.

Descobri que ele também tinha reservado o camarote sozinho, também tinha chegado sem plano além de "aparecer", também tinha aquela sensação, na fila do embarque, de estar entrando numa piscina gelada demais pro próprio corpo.

"Você acha que a gente devia voltar lá?", perguntei, num certo ponto, olhando de volta pro saguão distante, ainda pulsando luz rosa.

"Devia", ele disse. "Não sei se vou."

"Eu também não sei."

Ele olhou pra mim então, pela primeira vez com atenção total, sem aquele desvio pro mar que ele fazia quando falava de si mesmo.

"Posso te dizer uma coisa que talvez soe estranha?"

"Pode."

"Acho que você não veio aqui pra se divertir com gente de vinte anos", ele disse, devagar, escolhendo as palavras. "Acho que você veio aqui pra descobrir se ainda consegue. E acho que, no fundo, você já sabe a resposta antes de perguntar - só não quer aceitar ainda."

Eu ri, um pouco alto demais, um pouco defensiva demais, do jeito que a gente ri quando alguém acerta perto o suficiente pra doer um pouco.

"Isso é muita análise pra quem te conheço há uma hora."

"Desculpa", ele disse, sem parecer muito arrependido. "Deformação profissional. Passo o dia analisando espaços que as pessoas dizem que querem e não são bem o que elas precisam."

"Achei que você fosse arquiteto, não terapeuta."

"Às vezes dá na mesma coisa", ele disse, e havia, de novo, aquele peso embaixo da piada - algo que eu ainda não sabia nomear, mas que ia voltar, capítulos depois, com um nome específico: uma gaveta, um projeto de 2019, um medo que ele ainda não estava pronto pra admitir em voz alta.

Naquele momento, eu só anotei mentalmente que Tomás dizia coisas verdadeiras vestidas de observação casual, e que isso era, ao mesmo tempo, reconfortante e absolutamente irritante.

***

A festa continuava lá longe, mais alta agora, provavelmente com a espuma já liberada, a julgar pelos gritos que chegavam em ondas. Nenhum dos dois se moveu.

"Vou te dizer uma coisa também, já que você foi tão generoso", eu falei, decidindo que merecia devolver a gentileza com a mesma moeda. "Acho que você não veio aqui pra sair da caixa como sua irmã queria. Acho que veio porque, no fundo, também precisa provar alguma coisa pra si mesmo - só que ao contrário de mim. Eu quero provar que ainda tenho energia. Você quer provar que ainda tem coragem."

Ele não riu dessa vez. Ficou em silêncio um instante, olhando de novo pro mar, e quando falou, a voz tinha um tom diferente - mais quieto, sem a leveza de antes.

"É engraçado", ele disse. "A gente se conhece há uma hora e você já acertou uma coisa que eu levei anos pra admitir pra mim mesmo."

"Bem-vindo ao clube. Eu também levei a viagem inteira pra admitir a minha versão, e olha que a viagem começou hoje de manhã."

Ele sorriu, um sorriso menor, mais cansado que os anteriores, e ergueu o copo de novo - o mesmo gesto do começo, o brinde silencioso.

"Aos infiltrados", ele disse.

"Aos infiltrados", repeti.

O sol começava a baixar sobre a água, tingindo tudo daquele laranja artificial que parece bonito demais pra ser real, e por um momento - só um momento - eu esqueci que estava cercada de gente vinte anos mais nova, esqueci a passagem impressa, esqueci a faixa etária no canto do papel.

Foi Tomás quem quebrou o silêncio, olhando o relógio.

"Tem uma coisa chamada 'Speed Friending' às sete no deck nove", ele disse, com o tom de quem lê uma sentença de morte. "Minha irmã perguntou se eu ia. Falei que sim antes de saber o que era."

"Achei que era piada quando vi no telão."

"Não é piada. É real. E, pelo que entendi, obrigatório se você não quiser passar o resto da semana sem conhecer ninguém."

Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, e os dois soubemos, sem precisar dizer, que nenhum de nós ia àquilo sozinho se pudesse evitar.

"Vamos juntos?", perguntei.

"Vamos", ele disse. "Já que a gente já é dupla de infiltrados, mais vale ser dupla infiltrada em tudo."

Levantamos das cadeiras de balanço, ainda com o sol laranja artificial caindo atrás de nós, e caminhamos de volta em direção ao som da festa - dois adultos se preparando pra entrar, propositalmente dessa vez, na fogueira que tínhamos passado a última hora evitando.

Eu não sabia ainda, mas aquela seria a última conversa fácil que teríamos por um bom tempo. A partir do Speed Friending, tudo ficaria - como boa parte das coisas boas fica, quando você examina de perto - bem mais complicado do que parecia de longe.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

16 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 A decisão questionável
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O embarque
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Tomás, o outro infiltrado

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