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Capítulo 2 ...
O visor do celular brilhava no escuro do quarto como uma fogueira solitária. O reflexo azulado cortava a lente da minha câmera antiga sobre a escrivaninha e iluminava o par de patins de gelo que eu deixara encostado na parede, bem ao alcance dos meus dedos. O peito ainda guardava aquele aperto surdo, uma contração incômoda que se recusava a dissolver, mesmo depois de minutos inteiros respirando o ar pesado daquela noite. Desbloquei a tela com o polegar trêmulo e toquei no contato de Kendal. Não esperei ela digitar de volta; apertei a chamada de vídeo antes que a coragem me fugisse. A chamada chamou duas vezes antes de o rosto de Kendal preencher a tela. Ela estava com o cabelo preso em um coque alto e displicente, vestindo uma camiseta larga de banda e segurando uma caneca fumegante. Seus olhos castanhos examinaram o meu reflexo escuro no vídeo por um segundo antes de ela franzir o cenho, o sorriso brincalhão morrendo nos lábios. — Por que você está com essa cara de quem acabou de ver o fantasma da avó? — ela perguntou sem rodeios, a sinceridade afiada que só a nossa amizade permitia cortando a distância. — Eles vão nos tirar daqui, Ken — soltei de uma vez, sem filtro, sem introduções polidas. Minha voz saiu mais frágil do que eu gostaria. Kendal deu um gole na caneca, os olhos arregalando-se levemente. — Eles quem? Seus pais? Tirar quem para onde? — A família Miller inteira. A Miller Jewelry. A nossa casa. Tudo — passei a mão pela testa, sentindo a frustração queimar por dentro. — Meu pai anunciou no jantar. Nós vamos nos mudar para Nova York. Definitivo. No próximo mês. O silêncio do outro lado durou o suficiente para eu ouvir o apito distante de um trem na madrugada. Kendal largou a caneca na mesa dela com um baque abafado e encostou o queixo na palma da mão, encarando-me com uma mistura de choque e empatia genuína. — Nova York? Caramba, Astrid... Tipo, a Nova York de verdade? Estátua da Liberdade, trânsito infernal, arranha-céus que tiram o sol? — Essa mesma. Aquela que fica a quilômetros daqui, onde eu não conheço um único metro quadrado de calçada, onde a minha faculdade de design vai ter que ser transferida para sabe-se lá onde, e onde eu vou virar uma garota invisível no meio de oito milhões de pessoas. Kendal suspirou, ajeitando o celular na mesinha de cabeceira para me olhar melhor. — Amiga, respira. Eu sei que é um choque do cão. Para você, que tem cada centímetro desta cidade mapeado no seu coração, isso parece o fim do mundo. Mas... poxa, estamos falando de Nova York. Você sempre quis o mercado internacional de moda. E o que não falta lá são rinques de patinação profissionais e locações absurdas para você carregar aquela sua câmera analógica para cima e para baixo. — Não é sobre o que a cidade tem, Kendal. É sobre o que eu vou perder — rebati, sentindo a garganta apertar de novo. Sentei-me na borda da cama, abraçando os joelhos. — Eu amo a minha rotina aqui. Amo desenhar no meu canto, amo a pista de gelo onde treino desde os meus quinze anos, amo descer na cozinha e encontrar a Marta brigando com o Zeus por causa de café. Eu não pedi uma vida nova. Eu gostava da antiga. Kendal ficou em silêncio por um longo momento. Ela me conhecia o suficiente para saber que conselhos clichês ou frases motivacionais de internet só me fariam querer desligar na cara dela. Ela apenas me deu o espaço necessário para desabar um pouco mais, ouvindo cada palavra com aquela lealdade incansável que sustentava nossa amizade desde os tempos de colégio. — Eu sei, Pequena Estrela... quer dizer, desculpa, o vício do Samuel pegou em mim — ela sorriu de leve, tentando suavizar o clima. — Eu sei o quanto você raízes profundas aí. Mas você não vai sozinha. Sua família vai junto, e eu não vou sumir só porque cruzamos algumas fronteiras estaduais. Vou continuar atazanando sua vida por mensagem vinte e quatro horas por dia, quer você queira, quer não. Dei uma risada fraca, limpando rapidamente uma lágrima solitária que havia escapado pelo canto do olho. — Você é idiota, Kendal Freiser. — E você me ama por isso. Agora me escuta: antes de se trancar no quarto para chorar pitangas com os seus patins, você já conversou direito com os seus pais? Tipo, conversou de verdade, sem o modo defensivo ativado? Olhei para a porta fechada do meu quarto. A lembrança do silêncio pesado na mesa de jantar ainda latejava, mas o peso da pergunta de Kendal me fez pensar. Meus pais nunca haviam tomado uma decisão que destruísse a nossa felicidade de propósito. Papai sempre fora justo; mamãe, o porto seguro que nos entendia no olhar. — Não — admiti em um sussurro. — Eu só fugi para cá depois do anúncio. — Então levanta essa bunda da cama e vai lá embaixo. Eles merecem pelo menos que você jogue os seus argumentos na cara deles antes de decretar o luto oficial da mudança. Desligamos com uma promessa mútua de continuar a conversa depois. Fiquei parada por alguns segundos diante da escrivaninha, encarando o reflexo no espelho, antes de decidir que Kendal tinha razão. Fugi não era o meu estilo. Os Miller enfrentavam as coisas juntos, fossem vitórias da empresa ou tempestades familiares. Desci as escadas com passos firmes, embora o estômago continuasse pesado. A luz da biblioteca ainda estava acesa. Empurrei a porta de correr de carvalho e encontrei papai e mamãe ali. Papai estava sentado poltrona de couro marrom, com os óculos de leitura pendurados no bolso do colete, enquanto mamãe examinava alguns catálogos antigos de tecidos na mesa de centro. Eles olharam para cima assim que entrei. Nenhum sinal de rigidez ou autoritarismo frio nos rostos deles; apenas aquela expressão de paciência e afeto incondicional que sempre me desarmava. — Pensei que estivesse dormindo, minha filha — mamãe disse com suavidade, fechando o catálogo e estendendo a mão para que eu me aproximasse. Caminhei até eles e me acomodei no sofá em frente à poltrona de papai, cruzando os braços sobre o peito em uma tentativa inconsciente de autodefesa. — Eu não consigo dormir sabendo que tudo o que a gente construiu aqui vai simplesmente ser deixado para trás, papai — joguei as cartas na mesa, olhando diretamente nos olhos dele. — Por que Nova York? Por que agora? A Miller Jewelry já é gigante aqui. A minha faculdade acabou de começar. Meus treinos, meus amigos, a minha vida... Por que a gente tem que ir? Papai suspirou, tirando os óculos e apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele me olhou com uma seriedade branda, a mesma expressão que usava quando Artemis ou Zeus precisavam de orientação firme, mas carregada de orgulho. — Astrid, olhe para mim — ele pediu, com aquela voz grave e acolhedora. — O mundo corporativo não perdoa quem estagna, meu amor. A expansão para Nova York não é um capricho de momento; é o passo necessário para garantir que o império que construímos para vocês, para os seus irmãos e para os filhos de vocês, continue forte nas próximas décadas. Mas uma empresa não vale um centavo se a família que a sustenta se fragmentar. Ele esticou a mão e tocou os meus dedos cruzados, desfazendo a barreira que eu havia criado com os braços. — Nós não vamos porque queremos fugir de casa. Nós vamos porque a família Miller permanece unida, onde quer que seja. E eu jamais, em hipótese alguma, exigiria isso de vocês se não soubesse que temos a estrutura para manter cada um dos seus sonhos intactos. Mamãe levantou-se do sofá, veio até mim e afagou o meu cabelo loiro-quase-albino com um carinho que me desmontou por dentro. — Seu pai tem razão, querida — ela sussurrou, encostando o queixo no topo da minha cabeça. — Sabe que ninguém aqui tem a intenção de podar as suas asas. Queremos que você voe mais alto do que imaginava. Nova York tem as melhores escolas de design do mundo, rinques de patinação de nível olímpico e cenários que vão fazer jus a cada fotografia que você decidir tirar com essa sua câmera velha. A mudança é grande, eu sei. Dá medo. Mas nós estaremos lá. Juntos. Fiquei em silêncio, absorvendo o calor daquelas palavras. A revolta ardente foi murchando, substituída por um nó de resignação na garganta. Eu ainda não estava feliz. A ideia de arrumar as malas continuava a parecer uma injustiça cósmica contra a garota de dezoito anos que só queria paz. Mas percebi, com uma clareza incômoda, que a decisão não era contra mim. Era um caminho sem volta para o qual eu teria que encontrar um jeito de olhar. — Eu ainda acho que vocês podiam ter nos consultado antes de fechar o contrato — resmunguei, cruzando os braços de novo, mas com um meio sorriso teimoso nos lábios. Papai soltou uma risada curta, balançando a cabeça em sinal de rendição. — Sobre isso, admito a culpa. Negócios de grande porte exigem sigilo até a assinatura final. Mas prometo que a partir de agora você terá voto em todas as decisões logísticas da nova casa. Subi de volta para o meu quarto com passos mais lentos, mas sem o pânico estrangulando o meu peito. O aposento estava silencioso. A luz da rua projetava sombras geométricas no tapete. Caminhei até a escrivaninha, peguei a câmera analógica, passei os dedos pelas páginas em branco do meu caderno de esboços de moda e toquei a sola gasta dos patins. A resistência ainda morava ali, mas a curiosidade — aquela velha companheira das mentes inquietas — começou a sussurrar mais alto. Peguei o celular que havia deixado sobre a cama, desbloqueie a tela e, pela primeira vez na vida, abri o navegador de internet. Meus dedos digitaram devagar na barra de pesquisa: melhores lugares em Nova York para patinação no gelo e fotografia urbana. A tela iluminou-se com imagens de rinques iluminados por milhares de luzes de Natal, arquiteturas imponentes cercadas por neve e horizontes vertiginosos que pareciam tocar o céu. Entre os resultados, um link específico chamou a atenção, destacando a infraestrutura de uma das maiores academias de formação e alta performance de patinação artística da cidade, famosa por seus rinques cobertos e programas de elite. Fiquei encarando a tela por um longo tempo, o reflexo azulado brilhando nos meus olhos violeta. Eu ainda não estava pronta para amar a ideia. Mas, enquanto fechava o navegador e desligava o aparelho, decidi que, se a vida realmente me obrigaria a começar do zero em meio aos arranha-céus daquela cidade gigantesca, eu faria questão de descobrir exatamente do que ela era capaz.
Lista de capítulos
23 capítulos no total
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