/0/19807/coverbig.jpg)
/0/19347/coverbig.jpg)
Capítulo 3 ....
A luz da manhã entrou pela janela do meu quarto cortando a penumbra com uma suavidade fria, desenhando listras douradas sobre as tábuas do assoalho. Eu não havia dormido direito, com a mente ainda a reboque das imagens que descobrei na tela do celular na noite anterior. O rinque imponente em Nova York, com sua arquitetura moderna e gelo impecável, piscava nos meus pensamentos como uma promessa silenciosa, embora o medo de perder o meu lugar no mundo continuasse a apertar o peito. Levantei-me antes que o sol estivesse totalmente alto e caminhei até a escrivaninha. Minha velha câmera analógica estava ali, fria ao toque. Peguei-a, pendurando a alça no pescoço, e fui até a janela. O quintal de casa exibia a névoa fina do outono, as folhas caídas formavam um tapete cor de cobre sobre a grama, e o vapor escapava da chaminé da casa do caseiro ao fundo. Apontei a lente, ajustei o foco manual e disparei. O clique abafado do obturador quebrou o silêncio da madrugada. Para mim, fotografar não era apenas registrar imagens; era um modo de reter o tempo antes que ele escapasse por entre os dedos. Eu conseguia enxergar beleza na forma como a luz despontava torta sobre o telhado ou na solidão elegante de uma cadeira vazia no jardim. Detalhes que passariam despercebidos aos olhos apressados dos outros ganhavam peso e significado através da minha lente. Desci para a cozinha guiada pelo cheiro familiar de café fresco e pão tostado. A mesa da família já reunia os meus pais e irmãos. Papai lia uma pauta impressa sobre o layout logístico da mudança da Miller Jewelry, enquanto mamãe conversava baixinho com Marta sobre os prazos de encaixotamento dos móveis da ala leste. Artemis, sempre compenetrado, conferia algo no tablet ao lado do prato de frutas, e Zeus cortava uma fatia de bolo com um entusiasmo matinal que beirava o irritante. — Bom dia, dorminhoca — Zeus cantarolou assim que puxei a cadeira ao lado da dele. — Tem uma olheira charmosa de quem passou a madrugada investigando a concorrência na Costa Leste. Ou será que estava pesquisando a arquitetura dos cafés de Manhattan? Parei com a xícara de café a meio caminho da boca, lançando-lhe um olhar estreito. — Eu estava dormindo, Zeus. — Claro que estava. E eu sou o herdeiro do trono britânico — ele riu, piscando um olho para Artemis, que ergueu os olhos do tablet por um segundo com um meio sorriso divertido. — Não adianta disfarçar, baixinha. Eu conheço essa sua cara de quem traçou um plano estratégico de fuga ou de sobrevivência urbana. — Deixe sua irmã em paz, Zeus — mamãe interveio com carinho, embora seus olhos brilhassem com uma ponta de curiosidade maternal. Ela colocou uma xícara extra para mim e afagou meu ombro ao passar. — Mas falando nisso, Astrid... A correspondência chegou mais cedo. Tem algo para você ali no aparador da entrada. Meu estômago deu um salto descompassado. Levantei-me da mesa com passos lentos, sentindo o peso de cada olhar da minha família nas costas. Sobre o aparador de mogno, repousava um envelope de bordas grossas e oficiais, timbrado com o logotipo da universidade em Nova York para a qual a minha transferência acadêmica havia sido submetida às pressas por Artemis na semana anterior. O papel timbrado confirmava a aceitação imediata e o início das aulas no campus de Manhattan logo após a nossa chegada. Até então, a mudança era apenas uma ideia abstrata, um pesadelo distante que papai havia jogado sobre a mesa de jantar. Mas ao segurar aquele pedaço de papel pesado, a realidade caiu sobre mim com a força de uma avalanche. Havia uma data. Havia um endereço. Havia uma burocracia intransigível determinando o fim da minha vida exatamente do jeito que eu conhecia. Voltei à mesa em silêncio e sentei-me novamente. Meus dedos apertavam a borda do envelope até os nós dos dedos ficarem brancos. — Chegou? — perguntou papai, com a voz contida, buscando meus olhos com uma mistura de orgulho e cautela. — Sim — consegui responder, engolindo seco. — Universidade de Design de Nova York. Matrícula efetivada para o próximo semestre. A mesa silenciou por um instante. Artemis olhou para mim com aquela seriedade fraterna que escondia uma proteção feroz, enquanto mamãe suspirou levemente, vindo sentar-se na cadeira em frente à minha para segurar minha mão livre. — Eu sei que parece assustador, filha — mamãe disse com suavidade. — Mas você vai brilhar tanto lá quanto aqui. O seu talento não depende de coordenadas geográficas. — Não é sobre o meu talento, mamãe — murmurei, olhando para o café escuro na minha xícara. — É sobre o lugar. É sobre o meu rinque. A menção à patinação trouxe à tona a lembrança dos meus treinos em Seattle. O cheiro de gelo limpo, o som abafado das lâminas cortando a superfície fria, a sensação indescritível de liberdade toda vez que eu executava um salto perfeito e voava por alguns segundos antes de aterrissar com precisão milimétrica. Aquele rinque guardava cada gota do meu suor, minhas frustrações engolidas e minhas maiores alegrias desde os quinze anos. Eu tinha medo de que, ao cruzar o país, eu perdesse essa parte de quem eu era. Porém, por baixo desse medo, a imagem do complexo de patinação que eu descobrira na internet na noite anterior insistia em pulsar como uma fagulha teimosa. Talvez... apenas talvez... houvesse um jeito de continuar. O restante da manhã passou em um ritmo denso, marcado pelo início prático da transição. A tarde nos encontrou no corredor dos quartos, onde Marta já havia providenciado as primeiras caixas de papelão cor de pardo e rolos grossos de fita adesiva. Entrei no meu quarto e fechei a porta. O espaço, antes perfeitamente ordenado com meus livros, tecidos, cadernos de esboços e retratos analógicos, parecia subitamente impessoal, como se já estivesse sendo esvaziado pelo tempo. Aproximei-me da escrivaninha e montei a primeira caixa, dobrando as abas de papelão com movimentos mecânicos. Comecei a guardar meus livros de história da arte, os tubos de tinta, as canetas técnicas e os blocos de rascunho. Cada objeto colocado ali dentro simbolizava um pedaço do meu passado recente sendo empacotado para caber em um caminhão de mudança. No fundo da gaveta inferior, meus dedos roçaram uma fotografia antiga, revelada em preto e branco com bordas irregulares. Era uma foto tirada no inverno passado, no rinque de Seattle. Eu aparecia no centro da pista, de braços abertos, com o vapor saindo da boca e um sorriso genuíno congelado no meio de uma pirueta. Fiquei longos minutos encarando a imagem, sentindo um nó apertar a garganta. Mas, diferentemente da noite anterior, o pensamento não se limitou à perda. Enquanto meus olhos percorriam a fotografia, comecei a me perguntar como seria registrar os invernos de Nova York através da minha lente, como seria patinar sob as luzes de um rinque novo, como a minha história continuaria a ser escrita do outro lado do país. Coloquei a fotografia cuidadosamente dentro de um livro de esboços que iria na mala de mão. Guardei mais alguns objetos pessoais na caixa de papelão, mas parei abruptamente quando cheguei ao canto do armário. Abaixei-me e toquei a lona gasta dos meus patins de gelo. Eles continuavam ali, com as lâminas perfeitamente amaciadas e ajustadas ao formato dos meus pés. Puxei-os para fora da penumbra do armário e os coloquei sobre a cama, intactos, fora de qualquer caixa de mudança. Eu ainda não estava pronta para guardá-los. E, enquanto passava os dedos pelas fivelas de couro, percebi que algumas coisas essenciais não precisavam ficar para trás. Elas viajariam comigo, atravessando o país, prontas para recomeçar no gelo de uma cidade desconhecida.
Isso é tudo que está disponível no momento.
Continue lendo para acompanhar a história.
Continuar lendoLista de capítulos
23 capítulos no total
/0/17877/coverbig.jpg)
/0/9285/coverbig.jpg)
/0/19635/coverbig.jpg)
/0/20191/coverbig.jpg)
/0/20503/coverbig.jpg)
/0/6618/coverbig.jpg)
/0/20193/coverbig.jpg)
/0/19313/coverbig.jpg)
/0/19305/coverbig.jpg)
/0/20309/coverbig.jpg)
/0/19303/coverbig.jpg)