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Capítulo 2 A Mansão Kırımlı
A viagem até a mansão pareceu não ter fim. Eyul observava pela janela do carro as luzes de Istambul se dissolvendo sob a chuva — manchas douradas escorrendo pelo vidro como lágrimas silenciosas. O motorista mantinha as mãos firmes no volante, os olhos presos à estrada molhada, sem ousar dizer uma palavra. Dentro do carro, porém, o silêncio era insuportável. Leyla estava morta. A ideia ainda parecia absurda demais para ser real. Sua irmã. A irmã que ela não via havia quase sete anos. A irmã que partira naquela madrugada gelada, chorando, levando apenas uma mala pequena e o homem por quem escolhera abandonar tudo. Agora, dela, restava apenas um menino. Emre. Seu sobrinho. Eyul apertou os dedos contra o tecido gasto do casaco, tentando controlar o tremor nas mãos. O coração batia rápido demais, pesado demais, como se anunciasse que algo terrível ainda estivesse por vir. — Como ela morreu? — perguntou, quebrando o silêncio. O motorista hesitou antes de responder. — A senhora Leyla sofreu um acidente. A resposta veio seca. Ensaiada. Fria demais. Eyul virou lentamente o rosto em sua direção. — Acidente? — Foi o que me informaram. Aquilo a atingiu imediatamente. Não “foi o que aconteceu”. Foi o que me informaram. Como se até ele duvidasse da própria versão que repetia. Um desconforto gelado percorreu a espinha de Eyul. Ela abriu a boca para perguntar mais alguma coisa, mas o carro desacelerou antes. Então os enormes portões de ferro negro se abriram diante deles. E ela viu a mansão Kırımlı. O lugar não parecia uma casa. Parecia uma fortaleza construída para esconder segredos. Imensa. Sombria. Ameaçadora. As luzes douradas refletiam na chuva enquanto homens da segurança caminhavam discretamente pelos jardins, atentos a tudo. O ar carregava poder. Dinheiro. Controle. E perigo. O carro parou diante da entrada principal. Um empregado abriu a porta imediatamente. — Por aqui, senhorita. Eyul saiu devagar. Assim que pisou do lado de fora, o vento frio atingiu seu rosto como um aviso. Ela ergueu os olhos para a construção colossal e sentiu o peito apertar de repente. Uma sensação estranha. Como se estivesse entrando em um lugar do qual talvez nunca mais conseguisse sair. *** O interior da mansão era silencioso demais. Mármore escuro. Quadros antigos observando tudo das paredes. Lustres enormes lançando sombras frias pelo salão. Não havia calor humano ali. Apenas luxo… e vazio. Enquanto atravessava o corredor principal, Eyul percebeu os olhares discretos dos empregados. Alguns curiosos. Outros assustados. Como se soubessem de algo que ela ainda ignorava. Então uma voz masculina cortou o silêncio. Fria. Autoritária. — Eu disse que ela não pisaria nesta casa. Eyul parou imediatamente. O homem surgiu no topo da escadaria principal. Alto. Imponente. Vestido inteiramente de preto. Os olhos escuros carregavam uma dureza brutal, quase desumana. Yaman Kırımlı. Ele desceu os degraus lentamente, sem desviar o olhar dela nem por um segundo. Havia algo perigoso na maneira como a observava. Como se calculasse cada movimento. Como se enxergasse nela uma ameaça. E talvez enxergasse mesmo. Quando ele parou à sua frente, Eyul sentiu o ar ficar pesado. Aquele homem parecia incapaz de demonstrar qualquer emoção. Nem tristeza. Nem luto. Nem dor pela morte da própria cunhada. — Então você é Eyul — disse ele. A voz grave atravessou o salão como uma lâmina. Eyul ergueu o queixo, recusando-se a demonstrar medo. — Vim buscar Emre. O olhar de Yaman endureceu instantaneamente. — Emre não vai a lugar nenhum. — Sou tia dele. — E eu sou o homem que o criou. O silêncio entre os dois tornou-se sufocante. Eyul sentiu o sangue ferver. — Minha irmã queria que eu cuidasse dele. A expressão de Yaman ficou ainda mais fria. — Leyla tomou muitas decisões erradas na vida. A frase atingiu Eyul como um tapa no rosto. — Não fale dela assim. Yaman deu mais um passo. Agora ela podia sentir a presença esmagadora dele. A tensão. A raiva contida. — Você não sabe nada sobre esta família. — E você não sabe nada sobre a minha irmã. Os olhos dele escureceram perigosamente. Por um instante, Eyul teve a impressão de que havia algo quebrado dentro daquele homem. Algo sufocado por anos. Raiva. Ódio. Dor. Talvez tudo ao mesmo tempo. Mas, antes que o confronto explodisse, uma voz pequena interrompeu o silêncio. — Amca… Os dois olharam na mesma direção. Um menino observava tudo perto do corredor. Emre. Os olhos grandes estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. O rosto pequeno carregava um medo que nenhuma criança deveria conhecer. E, naquele instante, o coração de Eyul se despedaçou. Ela se ajoelhou devagar. — Emre… O menino hesitou. Por um segundo, pareceu lutar contra a própria insegurança. Então caminhou lentamente até ela. Quando Eyul o abraçou, sentiu o corpinho estremecer em seus braços. Como se ele estivesse segurando o choro havia tempo demais. Naquele instante, ela entendeu a verdade mais cruel de todas: Aquela criança estava completamente sozinha. Eyul fechou os olhos e o apertou contra si, como se pudesse protegê-lo do mundo inteiro. — Estou aqui — sussurrou, com a voz falhando. — Não vou embora. Do outro lado da sala, Yaman observava a cena em absoluto silêncio. Mas algo mudou em seu olhar. Algo mínimo. Quase imperceptível. Uma rachadura. Porque, pela primeira vez em muitos anos, aquele homem frio sentiu algo se partir dentro do próprio peito. E odiou aquilo imediatamente. *** Enquanto a chuva continuava castigando Istambul… Um carro preto permanecia estacionado do outro lado da rua, escondido na escuridão. Alguém observava a mansão através do vidro embaçado. Uma mão segurava uma fotografia. A fotografia de Emre. Então uma voz masculina rompeu o silêncio dentro do veículo: — A criança precisa desaparecer antes que descubram a verdade. O motor ligou lentamente. E, naquela noite, o verdadeiro pesadelo começou.
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