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Capítulo 3 O Menino Silencioso
A madrugada avançava lentamente sobre a mansão Kırımlı. Mesmo cercada por luxo, Eyul sentia frio. Não por causa da temperatura. Mas por causa daquela casa. Havia algo sufocante nos corredores silenciosos, nas paredes impecavelmente limpas e na forma como os empregados evitavam encarar Yaman diretamente. Como se todos ali vivessem à espera de uma explosão iminente. Ela fechou a porta do quarto devagar atrás de si. Emre dormia na enorme cama, abraçado a um pequeno carrinho vermelho. O rostinho infantil ainda estava marcado pelas lágrimas secas. Eyul sentou-se ao lado dele. O peito apertou imediatamente. - O que fizeram com você, meu pequeno...? - murmurou, com a voz embargada. A luz fraca do abajur iluminava discretamente o quarto. Grande demais para uma criança. Frio demais. Vazio demais. Não havia desenhos nas paredes, nem brinquedos espalhados pelo chão. Nenhum vestígio de infância. Parecia um quarto decorado por adultos que jamais entenderam o que uma criança realmente precisava. Ela acariciou os cabelos do sobrinho com delicadeza. Então ouviu passos no corredor. Pesados. Firmes. Inconfundíveis. Yaman. Eyul reconheceria aqueles passos em qualquer lugar. A porta se abriu sem aviso. Ela se levantou imediatamente. - Você poderia bater antes de entrar. Yaman ignorou completamente a reclamação. Os olhos dele foram direto para Emre. O menino dormia profundamente. Só então Yaman pareceu respirar um pouco melhor. Aquilo não passou despercebido por Eyul. - Está com medo de que eu fuja com ele? - perguntou, cruzando os braços. - Ainda não decidi do que você é capaz. Ela sustentou o olhar dele. - E eu ainda não decidi se você é humano. Os olhos dos dois se encontraram. Frios. Perigosos. Mas, pela primeira vez, Yaman não reagiu com agressividade. Eyul o observou se aproximar da cama. Então viu algo inesperado. Com extremo cuidado, Yaman puxou o cobertor até os ombros de Emre. Um gesto simples. Quase imperceptível. Mas gentil. Talvez o primeiro traço de humanidade que Eyul enxergava naquele homem. - Ele teve febre ontem - disse Yaman em voz baixa. - A médica disse que é emocional. Eyul permaneceu em silêncio. - Depois da morte da mãe... ele quase parou de falar. Um nó doloroso se formou na garganta dela. - Há quanto tempo isso aconteceu? - Três dias. Três dias. Três dias sem a mãe. Três dias cercado pela dor. Três dias preso naquela mansão silenciosa, onde até o ar parecia pesado demais. Eyul voltou o olhar para Emre. E tomou sua decisão. - Vou ficar. Yaman virou o rosto lentamente para ela. - Isso não significa que terá a guarda dele. - Não me importa. Ele precisa de alguém agora. Os olhos dele se estreitaram. - E você acha que consegue protegê-lo? Eyul encarou o quarto vazio ao redor. - Melhor do que esta casa consegue. O silêncio que caiu entre os dois foi sufocante. Pesado. Perigoso. Mas, antes que Yaman respondesse... Emre se mexeu na cama. Um pequeno gemido escapou de seus lábios. Instintivamente, Eyul segurou a mão dele. O menino apertou seus dedos no mesmo instante, ainda dormindo. Como se tivesse medo de ser abandonado outra vez. Yaman observou aquela cena em absoluto silêncio. E algo profundamente incômodo começou a crescer dentro dele. Porque Emre nunca segurava a mão de ninguém. Nunca. Yaman desviou o olhar lentamente para o rosto tranquilo do menino. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O único som no quarto era a respiração suave de Emre e o vento fraco batendo contra as janelas da mansão. Então, inesperadamente, o menino murmurou algo durante o sono. - Anne... Mãe. A palavra saiu fraca. Dolorosa. Como uma ferida aberta. Eyul sentiu o coração se partir. Ela acariciou a mão pequena entre as suas. - Está tudo bem, meu amor... - sussurrou. - Eu estou aqui. Yaman permaneceu imóvel. Mas os músculos de sua mandíbula se contraíram imediatamente. Eyul percebeu. Pela primeira vez desde que chegara àquela casa, ela enxergou algo além da frieza dele. Culpa. Uma culpa brutal. Silenciosa. Devastadora. - Você não sabe cuidar dele sozinho - disse ela baixinho, sem agressividade desta vez. Yaman demorou alguns segundos para responder. - Eu sei. A sinceridade na voz dele a surpreendeu. Porque homens como Yaman pareciam incapazes de admitir fraquezas. Ele passou a mão pelos cabelos escuros, visivelmente cansado. E, naquele instante, parecia muito mais velho do que realmente era. - Ele não dorme desde o enterro - confessou. - Sempre acorda chorando. Eyul voltou a olhar para Emre. O aperto no peito piorou. - E você? - perguntou, antes de conseguir se impedir. - Dormiu alguma coisa? Yaman soltou uma breve risada sem humor. Fria. Quebrada. - Não tenho esse luxo. Os olhos dos dois se encontraram novamente. Mas algo havia mudado. A hostilidade ainda estava ali. A tensão também. Só que agora existia outra coisa misturada entre elas. Dor. Uma dor que ambos conseguiam reconhecer. Subitamente, Emre se agitou outra vez. As sobrancelhas franziram. O corpinho pequeno tremeu. - Não... - murmurou dormindo. - Não vai embora... Eyul imediatamente se inclinou sobre ele. - Shhh... ninguém vai embora. Mas o menino parecia preso em um pesadelo. Os dedos apertaram os dela com mais força. E, para surpresa dos dois, Emre começou a chorar ainda dormindo. Baixinho. Como se até sua tristeza tivesse medo de fazer barulho naquela casa. Yaman deu um passo à frente instintivamente. Parou ao lado da cama. Hesitou. Então, de maneira desajeitada, tocou os cabelos do sobrinho. O menino se acalmou quase no mesmo instante. Eyul observou a cena em silêncio. E algo estranho aconteceu dentro dela. Porque aquele homem assustador... Que todos temiam. Que parecia feito de aço e violência. Estava completamente perdido diante da dor de uma criança. E talvez fosse justamente isso que o tornasse ainda mais perigoso. *** Eyul não conseguiu dormir. A mansão parecia viva durante a madrugada, como se escondesse segredos dentro das paredes. Ela caminhava lentamente pelo corredor escuro quando ouviu vozes vindas de uma sala parcialmente aberta. Parou imediatamente. - Ela não deveria estar aqui - disse uma mulher. A voz era elegante. Fria. Cortante. - Emre precisa dela por enquanto - respondeu uma voz masculina. Yaman. Eyul aproximou-se discretamente da porta. Dentro da sala, havia uma mulher extremamente sofisticada, vestida com roupas caras e joias discretas. Sua postura exalava autoridade. E desprezo. - Mulheres daquela família sempre trazem problemas - disse ela. - Primeiro Leyla. Agora, a irmã. Yaman permaneceu em silêncio. A mulher continuou: - Eyul pode destruir tudo o que construímos. - Não exagere, Esra. Esra. Eyul gravou aquele nome imediatamente. - Você está subestimando essa garota - insistiu Esra. - E isso é perigoso. Os olhos de Yaman escureceram levemente. - O único foco agora é Emre. - Não. O foco deveria ser proteger os segredos desta família. Silêncio. O coração de Eyul acelerou. Segredos? Que segredos eram aqueles? Então Esra pronunciou algo que fez o sangue dela gelar. - Leyla morreu cedo demais. Não podemos cometer outro erro. Eyul sentiu o corpo inteiro estremecer. O que aquilo significava? Outro erro? Antes que pudesse ouvir mais, o assoalho rangeu sob seus pés. O som ecoou como um disparo no silêncio da madrugada. Yaman e Esra olharam imediatamente para a porta. Eyul recuou rápido demais. Quando Yaman abriu a porta, encontrou apenas o corredor vazio. Mas seus olhos percorreram lentamente a escuridão. Desconfiados. Ameaçadores. Porque ele tinha certeza absoluta de que alguém estivera ouvindo. E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo o preocupava. ________________________________________ Na manhã seguinte... O sol mal havia nascido quando Eyul entrou na cozinha da mansão. As empregadas ficaram tensas imediatamente. Uma delas derrubou uma colher. Outra desviou o olhar às pressas. Estranho. Muito estranho. Então Eyul percebeu. Todos naquela casa tinham medo. Mas medo de quem? Ela caminhou até a mesa. - Quero preparar o café da manhã de Emre. As mulheres trocaram olhares nervosos. - A senhora Esra não permite ninguém na cozinha principal - respondeu uma delas, quase sussurrando. Nesse instante, uma nova voz surgiu atrás de Eyul. - Então talvez esteja na hora de alguém começar a permitir. Yaman. As empregadas congelaram imediatamente. Eyul virou-se, surpresa. Ele estava parado na entrada, impecável como sempre. Mas havia algo diferente naquela manhã. Ele parecia cansado. Exausto. Como se não dormisse há dias. Yaman olhou para as funcionárias. - Façam o que Eyul precisar. As mulheres assentiram rapidamente. Sem questionar. Sem hesitar. Então ele saiu. Simples assim. Eyul permaneceu imóvel, confusa. Porque aquele homem mudava de comportamento rápido demais. Frio. Depois protetor. Hostil. Depois silenciosamente gentil. Era impossível entendê-lo. E talvez esse fosse o maior perigo de todos. Porque homens imprevisíveis destruíam vidas. E Eyul começava a sentir que Yaman Kırımlı tinha poder suficiente para destruir completamente a dela.
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