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Capítulo 2 O PRIMEIRO SANGUE
Chimoio, Província de Manica A chuva começou depois da meia-noite. Não era uma chuva forte. Era fina, persistente, quase silenciosa. Caía sobre Chimoio como se o céu estivesse tentando lavar alguma coisa que não podia ser limpa. As ruas estavam quase vazias. As luzes dos postes refletiam-se no asfalto molhado, enquanto alguns carros passavam lentamente pelas avenidas. Ao longe, ouvia-se o som abafado de uma sirene. Uma. Depois outra. E outra. Naquela noite, ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo dentro do edifício governamental. Mas todos sabiam que alguma coisa terrível havia acontecido. O governador estava morto. E a notícia já começava a espalhar-se pela cidade. Nos bairros, pessoas permaneciam acordadas diante das televisões. Nas pequenas barracas, homens discutiam em voz baixa. - Dizem que ele vomitou sangue. - Sangue? - Sangue e coisas estranhas. - Que coisas? O homem aproximou-se. - Agulhas. Outro fez o sinal da cruz. - Isso não é doença. - Então o que é? Ninguém respondeu. Uma senhora que estava sentada perto da porta da barraca murmurou: - É dívida. Todos olharam para ela. - Que dívida? Ela não respondeu. Apenas continuou olhando para a televisão. Naquele momento, uma fotografia do governador apareceu na tela. A mulher baixou a cabeça. - Ele devia ter ficado calado. ________________________________________ A quase cinco quilômetros dali, Daniel Mucavele ainda estava acordado. Estava sentado sozinho na sala. A televisão iluminava seu rosto. Tinha vinte e dois anos. O cabelo estava desarrumado e havia um livro aberto sobre a mesa que ele já não lia havia quase meia hora. Seus olhos estavam presos à televisão. - As autoridades ainda não divulgaram oficialmente a causa da morte do governador... Daniel aumentou o volume. A jornalista continuou: - Segundo testemunhas presentes no local, o governador começou a apresentar sinais de forte mal-estar durante uma cerimônia oficial. Minutos depois, sofreu uma hemorragia severa e morreu diante de dezenas de pessoas. Daniel franziu a testa. A imagem mudou. Apareceram viaturas policiais. Depois ambulâncias. Depois jornalistas. Depois imagens do edifício governamental. A jornalista voltou a aparecer. - Fontes não oficiais afirmam que objetos metálicos teriam sido encontrados no corpo da vítima. As autoridades não confirmaram essa informação. Daniel sentiu um arrepio. - Objetos metálicos? A televisão mostrou novamente a imagem do governador. Daniel aproximou-se. Foi então que percebeu a mãe parada atrás dele. Amélia estava imóvel. - Mãe? Ela não respondeu. - Você está bem? Amélia continuou olhando para a televisão. Seu rosto havia perdido a cor. Daniel levantou-se. - Mãe? Ela finalmente respondeu: - Desliga. - O quê? - A televisão. - Por quê? - Daniel, desliga. Ele olhou para ela. - Você conhece o governador? Amélia desviou o olhar. - Não. - Então por que está assustada? - Não estou. - Está. Amélia aproximou-se do aparelho. - Desliga. Daniel pegou o controle, mas não apertou o botão. - O que está acontecendo? - Nada. - Mãe... - Eu disse que não é nada. Daniel olhou novamente para a televisão. A jornalista estava dizendo: - A polícia isolou o local e iniciou uma investigação. Algumas testemunhas afirmam que o comportamento do governador antes da morte foi extremamente incomum... Amélia arrancou o controle da mão do filho. Desligou a televisão. A sala ficou escura. Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Então Daniel perguntou: - Quem era ele para você? Amélia virou-se. - Ninguém. - Você está mentindo. Ela abriu a boca para responder. Mas não conseguiu. Foi nesse momento que a porta da frente abriu. Joaquim Mucavele entrou. O pai de Daniel trazia o casaco molhado pela chuva. Parou ao ver a esposa e o filho. - Vocês viram? Amélia respondeu: - Sim. Joaquim fechou a porta. Trancou-a. Depois verificou as janelas. Daniel percebeu. - Pai, o que está acontecendo? Joaquim não respondeu. - Pai? - Vai dormir. - Não. Joaquim olhou para ele. - Daniel. - Eu quero saber. - Não há nada para saber. Daniel riu sem humor. - Vocês dois estão assustados. Silêncio. - E querem que eu acredite que não aconteceu nada? Joaquim aproximou-se. - Escuta o que vou dizer. Sua voz estava baixa. - A partir desta noite, você não sai sozinho. Daniel ficou surpreso. - Por quê? - Não faça perguntas. - É por causa do governador? Joaquim permaneceu calado. - É? - Daniel... - É por causa dele? O pai finalmente respondeu: - Sim. Daniel sentiu o estômago apertar. - Vocês conheciam o governador? Joaquim olhou para Amélia. Ela abaixou os olhos. - Não - disse ele. Daniel percebeu imediatamente que também era mentira. Antes que pudesse insistir... Toc. A batida veio da porta. Os três congelaram. Toc. Toc. Joaquim levantou a mão. - Fiquem aqui. Ele caminhou lentamente até a entrada. Daniel aproximou-se alguns passos. - Quem é? Ninguém respondeu. Joaquim olhou pelo pequeno visor. Depois recuou. - Não há ninguém. Toc. Toc. Toc. Dessa vez a batida foi mais forte. Daniel sentiu um arrepio percorrer a coluna. - Quem está aí? - perguntou Joaquim. Uma voz masculina respondeu: - Tenho uma mensagem para os Mucavele. Joaquim ficou imóvel. Amélia levou a mão à boca. - Vá embora - disse Joaquim. - Não posso. - Vá embora! A voz respondeu: - O sangue já começou a cobrar a dívida. Daniel olhou para a mãe. - Que dívida? Amélia sussurrou: - Daniel, não. A voz do outro lado continuou: - O primeiro já caiu. Joaquim abriu a porta violentamente. Não havia ninguém. A chuva caía sobre o jardim. O portão estava fechado. A rua estava vazia. Joaquim saiu. Olhou para um lado. Depois para o outro. Nada. Quando voltou, havia alguma coisa no chão. Um envelope preto. Joaquim abaixou-se. Pegou-o. Daniel aproximou-se. - O que é? - Nada. - Deixa eu ver. - Não. Joaquim apertou o envelope. Daniel percebeu que havia alguma coisa escrita. - Pai... Joaquim virou o envelope. Na frente estava escrito: PARA O HERDEIRO. Daniel sentiu um frio no peito. - Quem é o herdeiro? Joaquim respondeu imediatamente: - Ninguém. - Então por que está escrito isso? Joaquim não respondeu. Amélia aproximou-se. - Joaquim... Ele olhou para ela. Os dois compreenderam alguma coisa sem precisar falar. Joaquim caminhou até a cozinha. Acendeu o fogão. Colocou o envelope sobre a chama. O papel começou a queimar. Daniel observou. Mas, antes que desaparecesse completamente, conseguiu ler uma frase no interior: O GOVERNADOR FOI APENAS O PRIMEIRO. O papel virou cinza. Daniel ficou olhando. - Pai. - Vai dormir. - Quero saber a verdade. - Ainda não. - Quando? Joaquim respondeu: - Quando for tarde demais. ________________________________________ Daniel não dormiu. Ficou deitado no escuro, olhando para o teto. A chuva continuava. O relógio marcava 02h17. 02h18. 02h19. Ele fechou os olhos. Tentou dormir. Então ouviu: - Daniel... Abriu os olhos. Silêncio. Sentou-se. - Mãe? Nada. Olhou para a porta. Estava aberta. Daniel levantou-se. Saiu do quarto. A casa estava escura. Caminhou até a sala. Nada. Passou pela cozinha. Nada. Então ouviu novamente: - Daniel... A voz vinha do quintal. Ele aproximou-se da janela. Afastou lentamente a cortina. E viu uma mulher. Estava parada no meio da chuva. Era velha. Vestia uma capulana escura e um pano cobrindo parte dos cabelos. Na mão esquerda segurava alguma coisa. Daniel aproximou o rosto do vidro. Era um rato morto. O animal tinha um pequeno buraco no abdómen. Daniel recuou. A velha levantou a cabeça. Olhou diretamente para ele. Mesmo separados pelo vidro e pela distância, Daniel teve a certeza de que ela estava olhando para os olhos dele. A mulher sorriu. Depois levou o dedo aos lábios. Silêncio. Daniel piscou. Ela desapareceu. Correu até a porta. Abriu-a. Saiu para o quintal. - Ei! Nada. A chuva molhava sua roupa. Olhou para o portão. Fechado. Correu até lá. Abriu. A rua estava vazia. Nenhuma pessoa. Nenhum carro. Nenhuma sombra. Daniel voltou para dentro. Quando fechou a porta, percebeu alguma coisa no chão. Um pequeno objeto. Aproximou-se. Era uma moeda antiga. Havia um símbolo gravado nela. Um círculo. Dentro dele, três linhas. Daniel tocou. Sentiu uma dor aguda na mão. - Ah! Soltou a moeda. Uma pequena marca apareceu na palma da sua mão. O mesmo símbolo. Daniel ficou imóvel. Então ouviu passos atrás dele. Virou-se. Joaquim estava parado no corredor. O rosto do pai mudou quando viu a marca. - Onde conseguiu isso? - Apareceu. Joaquim aproximou-se. Segurou a mão do filho. - Você viu alguém? Daniel hesitou. - Vi. - Quem? - Uma mulher. Joaquim fechou os olhos. - Como ela era? Daniel descreveu. A reação do pai foi imediata. - Madalena. - Quem? Joaquim soltou sua mão. - Vá para o quarto. - Pai, quem é Madalena? - Daniel! - Eu quero saber! - Essa mulher não deveria ter vindo atrás de você. - Então você conhece ela. Joaquim não respondeu. Daniel aproximou-se. - Quem é Madalena? O pai finalmente olhou para ele. - Uma mulher que trabalhou para seu avô. Daniel ficou confuso. - Meu avô? Joaquim percebeu que havia falado demais. - Esqueça. - Não. - Daniel... - Quem era meu avô? Joaquim virou-se. - Seu avô está morto. - Qual era o nome dele? Joaquim parou. Durante alguns segundos, apenas a chuva podia ser ouvida. Então respondeu: - Salvador. Daniel sentiu um estranho desconforto. - Por que nunca falou dele? - Porque algumas histórias devem permanecer enterradas. - O que ele fazia? Joaquim respondeu: - Coisas que não quero que você conheça. E saiu. Daniel permaneceu sozinho. Olhou para a marca na mão. Ela parecia pulsar. ________________________________________ Na manhã seguinte, Chimoio acordou diferente. A notícia do governador dominava as ruas. Na rádio, especialistas discutiam a possibilidade de envenenamento. Nas redes sociais, circulavam vídeos e fotografias. Algumas pessoas falavam de assassinato. Outras de feitiçaria. E havia uma fotografia que se espalhava rapidamente. Era a imagem de um objeto encontrado próximo ao palco. Um círculo negro. Com três linhas no interior. Daniel viu a fotografia no telefone. Seu coração acelerou. Era o mesmo símbolo. O telefone tocou. Era seu amigo Mateus. - Daniel. - Sim? - Você viu as notícias? - Sim. - Tenho uma coisa para te contar. - O quê? Mateus hesitou. - Meu tio está investigando o caso. - Seu tio? - Mateus Nhamatanda. Daniel conhecia o nome. O investigador era conhecido na cidade. - O que ele descobriu? - Não sei. - Então por que ligou? - Porque ele encontrou uma coisa que me assustou. - O quê? Mateus baixou a voz. - O governador tinha um símbolo desenhado no corpo. Daniel ficou em silêncio. - Que símbolo? - Um círculo. Daniel sentiu a mão arder. - Com três linhas? Mateus ficou calado. - Como você sabe? Daniel desligou. ________________________________________ Naquela tarde, Daniel voltou à antiga casa dos Mucavele. Ficava numa zona mais afastada de Chimoio. Era uma construção antiga, cercada por árvores e muros altos. A casa estava fechada havia anos. Ou pelo menos era o que a família dizia. Daniel encontrou uma janela quebrada. Entrou. O interior cheirava a madeira velha e humidade. Havia móveis cobertos por lençóis. Fotografias antigas nas paredes. Daniel caminhou lentamente. Encontrou uma fotografia de Joaquim ainda jovem. Ao lado dele havia um homem. Daniel aproximou-se. Era Salvador. Seu avô. Mas havia algo estranho. Salvador não parecia velho. Na fotografia, Joaquim aparentava ter cerca de vinte anos. Salvador parecia ter aproximadamente quarenta. Daniel encontrou outra fotografia. E outra. Salvador continuava praticamente igual. Uma terceira fotografia. Mesma aparência. Décadas separavam as imagens. Daniel sentiu um arrepio. - Quem é você? Uma voz respondeu atrás dele: - Seu avô. Daniel virou-se. Ninguém. A voz desapareceu. Ele continuou procurando. Encontrou uma porta de madeira. Estava trancada. Tentou abrir. Nada. Ao lado havia uma parede com um símbolo. O mesmo círculo. Daniel tocou. A porta abriu sozinha. Atrás dela havia uma escada. Descia para o subterrâneo. Daniel ligou a lanterna do telefone. Desceu. Um degrau. Dois. Três. O ar ficou mais frio. No fim havia uma sala. Velas antigas estavam espalhadas pelo chão. Panos brancos. Fotografias. Documentos. E sete cadeiras. No centro havia uma mesa. Sobre ela estava um livro. Daniel aproximou-se. Na capa estava escrito: O CÍRCULO Ele abriu. A primeira página dizia: Sete famílias. Um pacto. Uma dívida. Um herdeiro. Daniel virou a página. Havia nomes. Mucavele. Nhamatanda. Chivambo. Matsinhe. Sitoe. Mabote. E um nome parcialmente queimado. Daniel tentou ler. Não conseguiu. Então ouviu um barulho. Toc. Virou-se. Uma cadeira havia se movido. Toc. Outra cadeira. Daniel recuou. - Quem está aí? Uma voz respondeu: - Você não deveria ter vindo. Daniel congelou. - Quem é você? A voz aproximou-se. - A pergunta certa é... Silêncio. - ...quem deixou você entrar? As velas acenderam-se sozinhas. Uma por uma. Daniel ficou cercado pela luz. Na parede surgiu uma sombra. Era a silhueta de um homem. Alto. Magro. Parado atrás dele. Daniel virou-se. Não havia ninguém. Quando olhou novamente para a parede, a sombra havia desaparecido. Mas havia uma frase escrita: SALVADOR ESTÁ VIVO. Daniel deixou o livro cair. ________________________________________ Naquela mesma noite, a polícia encontrou outro cadáver. Um empresário chamado Ernesto Mabote. A loja dele ficava numa das zonas comerciais mais movimentadas de Chimoio. Quando os funcionários chegaram pela manhã, encontraram a porta aberta. Não havia sinais de arrombamento. Ernesto estava sentado atrás da mesa. Morto. Os cofres estavam abertos. Dinheiro desaparecido. Joias desaparecidas. Documentos desaparecidos. Mas ninguém havia ouvido qualquer barulho durante a noite. O investigador Mateus Nhamatanda entrou na sala. Parou diante do corpo. Um policial perguntou: - Assalto? Mateus observou o cadáver. - Não. - Por quê? Mateus apontou para os cofres. - Quem roubou sabia exatamente o que procurava. Depois olhou para o espelho. Havia uma palavra escrita. MUCAVELE. O policial ficou pálido. - Isso tem relação com o governador? Mateus não respondeu. Aproximou-se do espelho. Debaixo da palavra havia o símbolo. Círculo. Três linhas. Mateus tirou o telefone. Ligou para alguém. - Precisamos conversar. - Sobre o quê? - Sobre o Círculo. Do outro lado houve silêncio. Mateus continuou: - Acho que eles voltaram. ________________________________________ Na casa dos Mucavele, Daniel estava sentado sozinho. O livro estava diante dele. Não conseguia parar de pensar na frase. SALVADOR ESTÁ VIVO. Amélia entrou. Parou quando viu o livro. - Onde encontrou isso? Daniel levantou os olhos. - Na antiga casa. Amélia aproximou-se. Pegou o livro. Suas mãos tremiam. - Você não deveria ter aberto. - Quem é Salvador? - Seu avô. - Ele está vivo? Amélia não respondeu. - Mãe. Silêncio. - Ele está vivo? Amélia sentou-se. Pela primeira vez, Daniel viu medo verdadeiro nos olhos dela. - Eu pensei que tivesse acabado. - O quê? - Tudo. - O que é o Círculo? Amélia começou a chorar. - Uma coisa que sua família criou. - Para quê? - Para ter poder. - E conseguiu? Ela olhou para ele. - Conseguimos tudo o que queríamos. Daniel sentiu um aperto no peito. - Dinheiro? - Dinheiro. - Empresas? - Empresas. - Terras? - Terras. - E inimigos mortos? Amélia ficou em silêncio. Daniel entendeu. - Quantos? - Não sei. - Quantos, mãe? Ela começou a chorar. - Eu não queria fazer parte disso. - Mas fez. - Eu era jovem. - E meu pai? - Também. Daniel levantou-se. - Então vocês mentiram para mim a vida inteira. Amélia respondeu: - Eu menti para manter você vivo. Nesse momento, todas as luzes da casa apagaram-se. Amélia levantou-se. - Não. Daniel perguntou: - O que foi? Ela olhou para a janela. - Eles encontraram você. Do lado de fora, uma voz feminina chamou: - Daniel... Amélia segurou o braço do filho. - Não responda. A voz voltou. - Daniel... Era a voz da velha. Madalena. E então veio a frase: - Seu avô quer falar com você. Daniel olhou para a mãe. - Onde? Amélia começou a tremer. - Não vá. - Onde ele está? Madalena respondeu do lado de fora: - No lugar onde tudo começou. Daniel perguntou: - Onde? Silêncio. Depois: - Na casa dos sete. A voz desapareceu. Daniel olhou para a marca em sua mão. Pela primeira vez, não sentiu apenas medo. Sentiu curiosidade. E, escondido dentro dessa curiosidade, havia algo ainda mais perigoso. Desejo. Desejo de descobrir o que aquele poder poderia fazer.
Lista de capítulos
37 capítulos no total
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