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Capítulo 3 A CASA DOS SETE

A chuva havia parado, mas Chimoio continuava mergulhada numa escuridão pesada. Eram quase onze da noite quando Daniel percebeu que sua mãe havia adormecido no sofá. Ou pelo menos parecia. Ele permaneceu alguns minutos parado no corredor, observando-a. Amélia tinha os braços cruzados sobre o peito. O rosto estava cansado. Depois da conversa daquela noite, parecia ter envelhecido vários anos. Daniel sabia que deveria ficar em casa. Sabia que o pai havia proibido qualquer saída. Sabia também que a voz de Madalena não era algo que deveria seguir. Mas havia uma pergunta que não o deixava respirar: Quem era Salvador Mucavele? E por que todos tinham tanto medo dele? Daniel pegou o casaco. Abriu a porta devagar. Antes de sair, olhou novamente para a mãe. — Desculpa, mãe. Fechou a porta. Do outro lado da rua, um carro estava estacionado. Os faróis estavam apagados. Daniel parou. Observou. O carro não se mexeu. Continuou caminhando. Quando chegou ao fim da rua, ouviu um motor ligar atrás dele. Virou-se. O carro começou a segui-lo. Daniel acelerou o passo. O carro também. Ele entrou numa rua estreita. O carro passou lentamente. Por um instante, Daniel conseguiu ver o motorista. Um homem. Olhos fixos nele. Daniel correu. Dobrou uma esquina. Quando olhou para trás, o carro havia desaparecido. Seu coração batia violentamente. Então ouviu uma voz: — Você está atrasado. Daniel virou-se. Madalena estava parada debaixo de uma árvore. A mesma mulher do quintal. A mesma mulher que segurava o rato morto. Dessa vez, porém, não havia rato em suas mãos. — Como sabia que eu viria? Madalena sorriu. — Eu não sabia. — Então? — Estava esperando. Daniel ficou desconfiado. — Para onde vamos? — Para a Casa dos Sete. — Onde fica? — Longe daqui. — Quanto? — O suficiente para que aqueles que estão procurando você não nos encontrem. Daniel olhou para a estrada. — Quem está me procurando? Madalena começou a caminhar. — Todos aqueles que têm medo do sangue Mucavele. Daniel foi atrás dela. — E por que querem a mim? Ela não respondeu. — Madalena. A velha continuou andando. — Porque você é o último. Daniel parou. — Último o quê? Ela olhou para trás. — Herdeiro. ________________________________________ A estrada A viagem durou horas. Madalena não explicou para onde estavam indo. Daniel também não perguntou muito. A estrada estava quase vazia. As árvores passavam como sombras diante dos faróis. De vez em quando, apareciam pequenas casas iluminadas por candeeiros. Depois desapareciam novamente. Daniel olhava pela janela. Pensava na mãe. No pai. No livro. No governador. E na marca em sua mão. A marca continuava ali. Uma pequena cicatriz circular. Às vezes ardia. Às vezes parecia desaparecer. Mas quando Daniel fechava os olhos, conseguia vê-la claramente. — Você está com medo — disse Madalena. Daniel olhou para ela. — Não. — Está. — Como sabe? — Porque todos os homens que entram no Círculo sentem medo. Daniel ficou sério. — Eu não entrei em nenhum Círculo. — Ainda não. — E se eu não quiser entrar? Madalena demorou alguns segundos para responder. — Então alguém entrará por você. Daniel não entendeu. — O que significa isso? — Significa que o Círculo não precisa da sua permissão. A estrada ficou silenciosa. Depois de algum tempo, Daniel perguntou: — Meu pai fazia parte? — Sim. — Minha mãe? — Sim. — E meu avô? Madalena sorriu. — Seu avô não fazia parte do Círculo. Daniel franziu a testa. — Então o que ele era? A velha olhou pela janela. — O homem que comandava o Círculo. Daniel ficou em silêncio. — Ele matou pessoas? — Muitas. — Quantas? — O suficiente para que ninguém ousasse contar. — Por dinheiro? — Dinheiro era apenas uma parte. — Então por quê? Madalena olhou diretamente para ele. — Salvador queria controlar tudo aquilo que pudesse. Daniel sentiu um arrepio. — Ele era um homem poderoso? — Era. — Rico? — Muito. — Político? — Não precisava ser. — Então como controlava as pessoas? Madalena respondeu: — Conhecia os segredos delas. Daniel ficou pensando. — Segredos? — Todo homem tem alguma coisa que teme perder. — E Salvador descobria essas coisas? — Salvador fazia questão de descobrir. Ela fez uma pausa. — Alguns compravam a liberdade. — E os outros? Madalena não respondeu. Daniel entendeu. ________________________________________ A Casa dos Sete Quando chegaram, o céu começava a clarear. A casa ficava isolada. Era enorme. Construída em pedra escura, cercada por árvores antigas. Não havia outras casas próximas. O portão de ferro estava enferrujado. Acima dele havia sete círculos entrelaçados. Daniel saiu do carro. Olhou para a construção. — É aqui? — Sim. — Quem mora aqui? — Ninguém. — Então por que viemos? Madalena caminhou até o portão. Colocou a mão sobre o símbolo. O portão abriu. Daniel ficou parado. — Como fez isso? — A casa reconhece o sangue. Daniel sentiu a mão arder. — Meu sangue? Madalena olhou para ele. — O sangue Mucavele. Eles entraram. O interior da casa era ainda mais estranho. Não havia móveis modernos. As paredes estavam cobertas por retratos antigos. Daniel caminhou lentamente. Reconheceu alguns sobrenomes. Mucavele. Nhamatanda. Chivambo. Sitoe. Mabote. Matsinhe. E outro que não conhecia. — Quem são essas pessoas? — As sete famílias. Daniel aproximou-se de um retrato. Era uma mulher. Muito jovem. Mas o nome embaixo da pintura dizia: Helena Mucavele — 1891. Daniel ficou olhando. — Ela morreu quando? — Em 1964. Daniel arregalou os olhos. — Essa mulher viveu mais de setenta anos. — Sim. Ele olhou para outro retrato. Um homem. Salvador Mucavele — 1978. Daniel aproximou-se. Seu coração acelerou. Era o avô. Mas havia alguma coisa errada. A pintura parecia recente. — Por que ele parece tão jovem? Madalena respondeu: — Porque talvez tenha sido pintada ontem. Daniel virou-se. — O quê? Madalena continuou andando. — Venha. Daniel ficou alguns segundos olhando para o retrato. Depois a seguiu. ________________________________________ O salão subterrâneo Desceram uma escada. Depois outra. Depois outra. O ar ficou frio. Finalmente chegaram a uma grande sala subterrânea. Daniel parou. No chão havia um enorme círculo desenhado em pedra. Ao redor dele estavam sete cadeiras. Seis estavam vazias. Uma estava ocupada. Daniel aproximou-se lentamente. Um homem estava sentado. Terno preto. Cabelos grisalhos. Olhar tranquilo. Daniel parou. O homem levantou a cabeça. — Daniel. A voz. Daniel conhecia aquela voz. Tinha ouvido em sonhos. Deu um passo para trás. — Quem é você? O homem sorriu. — Você sabe. Daniel olhou para Madalena. Ela permaneceu imóvel. O homem levantou-se. — Faz muito tempo. Daniel não conseguia falar. — Você cresceu. — Salvador? O homem abriu os braços. — Seu avô. Daniel sentiu as pernas enfraquecerem. — Você está morto. Salvador riu. — É isso que sua família contou. — Você não envelheceu. — Algumas dívidas têm preços curiosos. Daniel recuou. — O que você quer de mim? Salvador aproximou-se. — Nada que você não queira dar. — Não vou fazer parte disso. — Parte de quê? — Do Círculo. Salvador olhou para as sete cadeiras. — O Círculo existia antes de você nascer. — E matou pessoas. — Sim. Daniel sentiu raiva. — Você matou o governador? Salvador ficou em silêncio. Depois respondeu: — Não. Daniel ficou surpreso. — Então quem matou? Salvador sorriu. — Você ainda pensa como uma pessoa comum. — E você? — Eu penso como alguém que conhece o preço do poder. Daniel aproximou-se. — O que aconteceu com o governador? Salvador respondeu: — Ele tentou revelar coisas que deveriam permanecer escondidas. — Então alguém o matou. — Sim. — Quem? Salvador olhou para Madalena. — Pergunte a ela. Daniel virou-se para a velha. — Foi você? Madalena não respondeu. Salvador voltou a sentar-se. — O governador era apenas uma peça. — Peça de quê? — De uma guerra que começou muito antes de você nascer. ________________________________________ O livro dos mortos Salvador apontou para uma mesa. Havia um livro enorme sobre ela. Daniel aproximou-se. — Abra. — O que é? — A memória da nossa família. Daniel abriu. A primeira página tinha apenas uma frase: "Todo poder exige uma dívida." Ele virou a página. Havia nomes. Muitos nomes. Centenas. Alguns estavam riscados. Outros tinham uma palavra ao lado: PAGO. Daniel começou a folhear. Empresários. Políticos. Comerciantes. Policiais. Funcionários públicos. Pessoas comuns. — Por que existem tantos nomes? Salvador respondeu: — Porque todos eles deviam alguma coisa. — Dinheiro? — Alguns. — O quê então? — Silêncio. Daniel parou. — Silêncio? Salvador assentiu. — O Círculo comprava pessoas. — E quando alguém recusava? Salvador olhou para ele. — Você já conhece a resposta. Daniel fechou o livro. — Eu não quero isso. Salvador levantou-se. — Ainda não. — O que significa? — Significa que você ainda acredita que poder é uma escolha. Daniel encarou o avô. — E não é? Salvador aproximou-se. — Poder é uma oportunidade. — Para fazer o quê? — Para nunca mais ser impotente. Daniel ficou em silêncio. A frase atingiu alguma coisa dentro dele. Salvador percebeu. — Você já sentiu isso. — O quê? — Impotência. Daniel lembrou dos homens que o perseguiam. Da mãe escondendo segredos. Do pai mentindo. Do governador morto. — Você não sabe nada sobre mim. Salvador sorriu. — Sei mais do que imagina. ________________________________________ A investigação Enquanto Daniel conhecia a Casa dos Sete, em Chimoio a polícia trabalhava durante toda a madrugada. Mateus Nhamatanda estava diante das fotografias do governador e de Ernesto Mabote. Sobre a mesa havia dois relatórios. Duas mortes. Duas cenas diferentes. Mas o mesmo símbolo. Mateus entrou na sala do investigador. — Senhor, encontramos outra coisa. — O quê? O policial entregou um saco de evidências. Dentro havia um pequeno pedaço de tecido branco. — Encontramos isso na loja de Mabote. Mateus examinou. Havia três linhas negras bordadas. — Onde exatamente? — Debaixo do corpo. Mateus ficou pensativo. — E o dinheiro? — Desapareceu. — Documentos? — Também. — Família? — Diz que não sabe de nada. Mateus respirou fundo. — Procurem todos os documentos antigos relacionados aos Mucavele. O policial hesitou. — Mucavele? — Sim. — Tem certeza? Mateus olhou para ele. — Você conhece esse nome? — Meu avô falava deles. — O que dizia? O policial ficou pálido. — Dizia para nunca mexermos com aquela família. Mateus voltou a olhar para as fotografias. — Então talvez seja exatamente isso que devemos fazer. ________________________________________ A mulher de branco Na Casa dos Sete, Daniel ouviu um grito. — O que foi isso? Madalena não respondeu. Outro grito. Dessa vez mais distante. Daniel correu pelo corredor. — Espera! Madalena foi atrás dele. Chegaram a uma sala. A porta estava aberta. Dentro havia uma mulher. Vestia branco. Estava de costas. Daniel perguntou: — Quem é ela? Madalena ficou séria. — Não se aproxime. A mulher começou a falar. — O sangue voltou. Daniel congelou. — Quem é você? A mulher virou-se. Seu rosto estava coberto por um véu. — O filho voltou. — Filho de quem? Ela respondeu: — De Salvador. Daniel olhou para o avô. Salvador estava parado no corredor. Pela primeira vez, seu rosto demonstrou preocupação. — Saia daqui — ordenou. A mulher riu. — Você não pode escondê-lo para sempre. — Saia! As velas da sala apagaram-se. Quando voltaram a acender... A mulher havia desaparecido. Daniel olhou para Salvador. — Quem era ela? Salvador respondeu: — Um aviso. — De quem? Salvador não respondeu. Madalena aproximou-se. — O Círculo descobriu que você está aqui. Daniel perguntou: — E o que vão fazer? Madalena olhou para Salvador. — Vão tentar matar você. Daniel ficou em silêncio. Salvador aproximou-se. — Agora entende por que precisa aprender? Daniel sentiu medo. Mas dessa vez havia outra sensação. Uma sensação estranha. Ele queria saber. Queria entender. Queria descobrir o que havia dentro dele. — Se eu aprender... — disse Daniel. Salvador sorriu. — Sim? Daniel olhou para a própria mão. — Posso proteger minha família? Salvador respondeu: — Pode. — Posso proteger a mim mesmo? — Pode. — Posso destruir quem tentar me matar? Salvador demorou alguns segundos. Então respondeu: — Pode fazer muito mais do que isso. Daniel levantou os olhos. E naquele instante percebeu que estava diante da primeira grande escolha de sua vida. Ele ainda tinha medo. Mas o medo começava a transformar-se em curiosidade. E a curiosidade começava a transformar-se em desejo. ________________________________________ A mensagem Antes de partir, Daniel voltou ao salão principal. Olhou novamente para os sete retratos. Agora percebia que havia algo estranho. Todos os retratos tinham os olhos voltados para ele. Madalena apareceu atrás dele. — Está pronto? Daniel não respondeu. — Daniel? Ele aproximou-se do retrato de Salvador. Passou a mão sobre a pintura. Atrás dela havia alguma coisa. Um pequeno papel. Daniel retirou. Leu. Seu rosto mudou. "Não confie em Salvador." Ele virou-se. Madalena estava olhando para ele. — Quem escreveu isso? Ela respondeu: — Seu pai. Daniel ficou imóvel. — Quando? Madalena aproximou-se. — Antes de tentar fugir do Círculo. — Meu pai tentou fugir? — Sim. — E o que aconteceu? Madalena olhou para o retrato de Salvador. — Ele descobriu que fugir não era suficiente. Daniel apertou o papel. — Então por que ele nunca me contou? Madalena respondeu: — Porque alguém da sua família estava sempre observando. Daniel sentiu um arrepio. — Quem? Madalena sorriu tristemente. — Descubra sozinho. Do andar de cima veio um barulho. CRASH! Todos olharam para o teto. Depois outro. CRASH! Salvador gritou: — Eles chegaram. Daniel olhou para Madalena. — Quem? Salvador respondeu: — Os Nhamatanda. As portas da Casa dos Sete começaram a bater violentamente. Daniel ouviu homens do lado de fora. Depois ouviu um grito: — SALVADOR! Salvador sorriu. — Finalmente. As luzes apagaram-se. E, no escuro, Daniel ouviu uma última frase: — Bem-vindo à guerra, neto.

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Lista de capítulos

37 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Prólogo - O Último Discurso
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O PRIMEIRO SANGUE
  3. Capítulo 3Capítulo 3 A CASA DOS SETE

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