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Capítulo 2 A mulher que ele abandonou
Valentina dirigia sem enxergar a estrada. As lágrimas embaçavam sua visão, mas ela não conseguia parar. O volante tremia entre seus dedos e sua respiração saía irregular, como se o peito tivesse esquecido como funcionava. As imagens se repetiam diante de seus olhos. Ricardo beijando Bianca. Bianca chamando-a de amiga. E a frase que parecia gravada em sua mente. - Ela me faz sentir vivo. O celular começou a tocar no banco do passageiro. Ricardo. Ela ignorou. Segundos depois, outra ligação. Bianca. Valentina desligou o aparelho e o jogou dentro da bolsa. - Acabou... acabou... - repetia baixinho, como se precisasse convencer a si mesma. Ela passou a mão sobre a barriga, ainda incapaz de acreditar que, poucas horas antes, estava escolhendo a melhor forma de contar ao marido que seria pai. O semáforo fechou e ela precisou parar o carro. Aproveitou para abrir a bolsa e tirar o envelope do exame médico. O nome dela estava ali, junto da confirmação da gravidez. Um soluço escapou. - O que eu faço agora, meu Deus? A buzina do carro atrás a fez despertar. O sinal havia aberto. Ela acelerou, mas a cabeça continuava longe. Não percebeu quando um caminhão avançou no cruzamento. O som dos freios ecoou pela avenida. Valentina virou o volante por instinto. O carro rodou e bateu violentamente contra a proteção lateral da pista. O impacto fez sua testa atingir a janela. Tudo ficou escuro. ________________________________________ Dois veículos pretos pararam quase ao mesmo tempo. Os seguranças saltaram rapidamente, mas Dante Moretti saiu antes de todos. Ele caminhou até o carro destruído e encontrou a motorista desacordada, com um pequeno corte na testa. - Senhor, isso pode ser uma armadilha - alertou um dos homens. Dante sequer desviou os olhos dela. - Abra a porta. - Mas... - Eu não costumo repetir ordens. O segurança usou uma barra de ferro para forçar a abertura. Assim que a porta cedeu, Dante se inclinou e soltou o cinto de segurança. Valentina abriu os olhos por um instante. Tudo estava desfocado. Ela só conseguiu distinguir um rosto masculino muito próximo do seu. - Meu... bebê... Dante franziu a testa. - O que ela disse? - Acho que falou "bebê", senhor. Ela perdeu os sentidos novamente. Dante a tomou nos braços com cuidado. - Levem-na para o Hospital Santa Helena. E avisem ao diretor que eu estou chegando. O segurança hesitou. - O hospital pertence ao grupo Vasconcelos. Dante lançou um olhar frio. - A partir desta noite, ninguém ligado à família Vasconcelos chega perto dessa mulher sem a minha autorização. ________________________________________ Ricardo ainda estava no saguão do hotel quando recebeu a ligação. - Senhor Ricardo? Aqui é da Polícia Rodoviária. Encontramos seu contato como emergência no telefone da senhora Valentina Albuquerque. Ele empalideceu. - O que aconteceu? - Ela sofreu um acidente de carro e foi encaminhada para o Hospital Santa Helena. A pequena caixa com os sapatinhos ainda estava em sua mão. Sem dizer uma palavra, ele correu para o estacionamento. Bianca foi atrás dele. - Ricardo! Espera! Eu vou com você! Ele abriu a porta do carro. - Não. - Ela vai precisar de apoio e... - Eu disse não! Bianca recuou, surpresa com o tom dele. Ricardo bateu a porta e arrancou com o veículo. Enquanto dirigia, as palavras de Valentina ecoavam em sua cabeça. - Eu ia te contar uma notícia... Ele apertou o volante. Abriu a pequena caixa mais uma vez. Os sapatinhos estavam ali. Ao lado deles, dobrado cuidadosamente, havia um cartão. "Mal posso esperar para ver você se tornar o melhor pai do mundo." O papel escorregou de seus dedos. - Não... Ele levou a mão aos cabelos, completamente transtornado. - Ela está grávida... Uma mistura de culpa e desespero tomou conta dele. Não podia perdê-la. Não daquele jeito. ________________________________________ Quando Ricardo chegou ao hospital, encontrou dois homens de terno preto parados na entrada da ala de emergência. Tentou passar, mas um deles colocou o braço à sua frente. - Acesso restrito. - Sai da frente. Minha esposa está lá dentro. - Ordem do senhor Moretti. Ricardo franziu a testa. - Moretti? Que Moretti? O segurança não respondeu. Nesse instante, as portas do elevador se abriram. Dante Moretti saiu calmamente, ajustando o relógio no pulso. O terno escuro parecia ter sido feito sob medida, e a expressão fria em seu rosto fazia até os médicos evitarem contato visual. Ricardo reconheceu o sobrenome imediatamente. Era impossível não conhecer. Dante era o homem que comandava o Grupo Moretti, um conglomerado internacional de segurança privada, logística e investimentos. Oficialmente, era isso. Extraoficialmente, rumores diziam que sua influência alcançava lugares onde a lei não conseguia chegar. Os dois homens se encararam. - Onde está a minha esposa? - Ricardo perguntou. Dante observou a caixa branca nas mãos dele. - Sua esposa? - Sim. - Curioso. Há menos de uma hora eu vi você beijando outra mulher em um hotel. Ricardo travou o maxilar. - Isso não é da sua conta. - Concordo. Mas o acidente dela acabou se tornando. - Eu agradeço a ajuda, mas agora eu assumo. Dante deu um passo à frente. - Assumir? Você já não abandonou essa responsabilidade? Os seguranças ao redor ficaram em silêncio absoluto. Ricardo nunca tinha sido confrontado daquela maneira. - Escute aqui, Moretti. Eu não sei quem você pensa que é... - Eu sei exatamente quem eu sou. A questão é quem você é. Os dois ficaram frente a frente. - O médico disse que ela está bem? - Ricardo perguntou, tentando controlar a própria raiva. - Está sendo examinada. - Então eu vou vê-la. Ele tentou caminhar, mas um dos seguranças bloqueou a passagem. - Você não ouviu? Eu sou o marido dela! Dante inclinou a cabeça. - Engraçado. Quando ela saiu correndo do hotel, parecia estar sozinha. Ricardo cerrou os punhos. - Você está se aproveitando de uma situação que não entende. - Eu entendo o suficiente. Antes que a discussão aumentasse, uma médica surgiu no corredor. - Família da senhora Valentina Albuquerque? Ricardo correu até ela. - Sou o marido. A médica consultou a prancheta. - Ela sofreu um traumatismo leve e alguns cortes superficiais. Felizmente, o cinto de segurança evitou algo pior. Ricardo respirou aliviado. - E o bebê? A médica o encarou, confusa. - Então o senhor já sabe? Dante desviou o olhar para Ricardo. O silêncio que se instalou foi suficiente para responder. A médica continuou: - A gestação é recente, mas está tudo bem com a criança. No entanto, a paciente passou por um forte estresse emocional. Ela precisará de repouso e tranquilidade. Ricardo levou a mão ao rosto. Era verdade. Valentina estava grávida. E ele havia descoberto isso depois de destruí-la. A médica voltou a falar. - Assim que ela acordar, apenas uma pessoa poderá entrar para visitá-la. - Eu vou entrar - Ricardo respondeu imediatamente. Mas a voz grave de Dante ecoou pelo corredor. - Não. Ricardo se virou. - Você perdeu a noção? - Não. Apenas acredito que a última pessoa que ela vai querer ver ao abrir os olhos é o homem que a fez chorar. - Você não tem direito de decidir isso! - Nem você. A médica interrompeu os dois. - Senhores, a decisão será da paciente. Quando ela despertar, perguntaremos quem ela deseja receber. Ricardo respirou fundo. Claro. Ela escolheria o marido. Apesar de tudo, ela o amava. Ela sempre o perdoava. Ele se sentou na cadeira do corredor, convencido de que ainda poderia consertar as coisas. Do outro lado, Dante permaneceu em pé, olhando pela janela. Um de seus homens se aproximou discretamente. - Senhor, a investigação foi concluída. - E então? - A traição é verdadeira. O marido mantém um relacionamento com a melhor amiga dela há seis meses. Também descobrimos que a senhora Valentina abandonou a carreira para ajudá-lo a construir a empresa. Dante permaneceu em silêncio. - Há mais uma coisa. - Fale. - O pai da criança pode tentar usar a gravidez para obrigá-la a voltar. Dante olhou para a porta do quarto onde Valentina estava internada. Seus olhos perderam a frieza por um breve instante. - Isso não vai acontecer. - O senhor pretende interferir? Dante ajeitou os punhos da camisa. - Ela salvou a vida da minha irmã quando ninguém mais parou para ajudar. Naquele dia, fiz uma promessa. - Que promessa? Ele voltou a olhar para a porta. - Que, se um dia o destino colocasse essa mulher no meu caminho, eu garantiria que ninguém voltasse a machucá-la. Naquele mesmo instante, dentro do quarto, Valentina começou a despertar. Ainda atordoada, ouviu o som de aparelhos médicos e sentiu a cabeça latejar. A enfermeira sorriu ao vê-la abrir os olhos. - Que bom que acordou. Há duas pessoas esperando para vê-la. Valentina tentou falar. - Quem? A enfermeira consultou a ficha. - Seu marido... e um senhor chamado Dante Moretti. Ela fechou os olhos por um segundo. A lembrança do hotel, do beijo e dos sapatinhos esquecidos voltou com toda a força. Então, com a voz rouca e quase sem conseguir conter as lágrimas, ela respondeu: - Diga ao meu marido... que eu não quero vê-lo nunca mais.
Lista de capítulos
30 capítulos no total
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