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Capítulo 3 O homem que ela escolheu

A enfermeira ficou alguns segundos em silêncio, como se quisesse ter certeza de que havia ouvido corretamente. - Senhora Valentina... tem certeza? Ela virou o rosto para a janela. A cabeça ainda doía por causa do acidente, mas a dor no peito era muito pior. - Tenho. Eu não quero ver o Ricardo. A profissional assentiu com delicadeza. - Vou avisá-lo. Assim que a porta se fechou, Valentina levou a mão ao ventre. - Desculpa... - sussurrou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. - Eu prometi que você teria uma família feliz. Prometi que seu pai seria o melhor homem do mundo. Ela fechou os olhos. As lembranças dos últimos anos começaram a surgir como pequenas facadas. Ela se lembrava do dia em que recebeu a proposta de trabalho em um grande escritório de advocacia. Era o emprego dos sonhos, aquele pelo qual havia estudado tanto. Ricardo a abraçara naquela noite. - Você não precisa trabalhar. Eu vou cuidar de tudo. Quero construir uma família, e ninguém administra uma casa como você. Ela havia recusado a vaga. Depois vieram as viagens de negócios, as reuniões de última hora, os aniversários esquecidos, os jantares cancelados e as desculpas. Ela sempre encontrava uma forma de defendê-lo. "Ele está cansado." "Ele faz isso por nós." "Quando a empresa crescer, tudo vai melhorar." Agora entendia que, enquanto ela fazia planos para o futuro, ele dividia o presente com outra mulher. Uma batida suave na porta interrompeu seus pensamentos. - Posso entrar? Valentina reconheceu a voz da enfermeira. - Sim. A mulher entrou com um copo de água e alguns medicamentos. - Avisei seu marido. Valentina não conseguiu esconder a tensão. - Ele... ele foi embora? A enfermeira sorriu de maneira discreta. - Não. Na verdade, ele ficou muito alterado. Insistiu que tinha o direito de vê-la. Valentina soltou uma risada amarga. - Direito? - Um dos acompanhantes que está do lado de fora impediu que ele entrasse. Ela franziu a testa. - O senhor Dante Moretti. O nome soou estranho. Ela se esforçou para lembrar. Então uma imagem confusa passou por sua mente. Um homem a tirando do carro. Braços fortes. Um perfume amadeirado. Uma voz grave dizendo para ela ficar calma. - Foi ele que me trouxe para cá? - Sim. Se não fosse pela rapidez com que ele agiu, talvez a situação tivesse sido mais complicada. Valentina baixou os olhos. - Eu nem conheço esse homem. A enfermeira pareceu pensar antes de responder. - Pode ser. Mas ele ficou aqui o tempo todo. ________________________________________ Do lado de fora do quarto, Ricardo andava de um lado para o outro. - Ela não pode fazer isso! Eu sou o marido dela! O médico responsável pela internação tentava manter a calma. - Senhor, a paciente sofreu um trauma físico e emocional. Não podemos obrigá-la a receber visitas. - Ela está confusa! Ela acabou de descobrir uma situação difícil! Dante, que permanecia encostado próximo à janela, falou sem sequer olhar para ele. - Ela não descobriu uma situação difícil. Descobriu que se casou com um covarde. Ricardo virou-se imediatamente. - Você não tem nada a ver com a minha vida! - Engano seu. O acidente dela colocou sua vida na minha frente. - Não banque o herói! Você nem conhece a Valentina! Dante finalmente o encarou. - Conheço o suficiente para saber que ela merecia coisa melhor. Ricardo avançou um passo. - Escuta aqui. O que aconteceu entre mim e minha esposa diz respeito apenas a nós dois. - Sua amante também pensa assim? O silêncio foi imediato. Os médicos e enfermeiros que passavam pelo corredor fingiram não ouvir. Ricardo cerrou os punhos. - Bianca não tem nada a ver com isso. - Curioso. Porque ela estava muito confortável no quarto do hotel. - Você está me julgando sem conhecer a história. Dante cruzou os braços. - Então conte. Existe alguma explicação razoável para trair a mulher que abandonou a carreira para construir sua vida ao seu lado? Ricardo não respondeu. Porque não havia resposta. Ele se lembrava do dia em que conheceu Bianca em uma festa da empresa. Ela era divertida, espontânea, vivia elogiando suas decisões e fazia questão de dizer que ele era brilhante. Enquanto isso, em casa, Valentina perguntava sobre contratos, despesas, reuniões e horários. Ela se preocupava com sua alimentação, com suas noites mal dormidas e com a pressão que ele carregava. Durante muito tempo, ele confundiu cuidado com rotina. E agora entendia tarde demais o tamanho do erro. O celular vibrou no bolso de seu paletó. Era Bianca. Ele recusou a ligação. Ela insistiu. Na terceira tentativa, Ricardo atendeu, irritado. - O que foi? - Como a Valentina está? - a voz dela saiu baixa e insegura. - Grávida. Do outro lado da linha, o silêncio foi absoluto. - O quê? - Ela está grávida. Bianca demorou alguns segundos para reagir. - Você... você tem certeza? - Eu vi os exames. Ela ia me contar hoje. A amante apertou o telefone contra o ouvido. Aquilo mudava tudo. Durante meses, Ricardo dizia que o casamento estava acabado, que só faltava encontrar o momento certo para conversar com a esposa. Mas um filho complicava completamente a situação. - Ricardo, você precisa pensar direito. - Eu já estou pensando. - Não vai me dizer que pretende voltar para ela só por causa dessa gravidez. Ele fechou os olhos. A pergunta o atingiu em cheio. Bianca percebeu a hesitação. - Você me ama. Ele não respondeu. - Ricardo... você me ama, não ama? Ele olhou para a porta do quarto onde Valentina estava internada. Lembrou dos sapatinhos de bebê. Do cartão escrito à mão. Do sorriso que ela provavelmente tinha no rosto enquanto preparava aquela surpresa. - Eu não sei mais o que sinto. Bianca desligou a ligação sem dizer outra palavra. ________________________________________ No apartamento que dividia com a protagonista, Bianca caminhava de um lado para o outro. Sim, apartamento que dividia. Havia quase três meses que ela mantinha uma cópia da chave entregue pelo próprio Ricardo. Quando Valentina acreditava que o marido estava viajando, os dois passavam dias inteiros ali. Ela pegou uma moldura sobre a estante. Era uma fotografia de Valentina e Ricardo durante uma viagem. Os dois sorriam. Bianca passou o dedo pelo rosto da antiga amiga. - Você sempre teve tudo. Ela lembrava do tempo de faculdade, quando as duas se conheceram. Valentina era bonita, inteligente e gentil. Todos gostavam dela. Bianca vinha de uma família simples e carregava uma coleção de frustrações. Aos poucos, aproximou-se da colega e conquistou sua confiança. Depois conheceu Ricardo. No início, queria apenas provar para si mesma que podia tirar dela a única coisa que parecia perfeita. Só não imaginava que acabaria se apaixonando. Agora, com uma gravidez inesperada no caminho, sentia que podia perder tudo. Ela pegou o celular e abriu uma conversa arquivada. O nome salvo era apenas uma letra. "C." Bianca digitou rapidamente. "Ela sobreviveu ao acidente. E está grávida." A resposta veio menos de um minuto depois. "Então teremos que mudar os planos." Ela empalideceu. "Você disse que ninguém se machucaria." A nova mensagem apareceu. "E ninguém vai. Se você fizer exatamente o que eu mandar." Bianca bloqueou a tela imediatamente quando ouviu a campainha tocar. Abriu a porta acreditando que fosse Ricardo. Mas encontrou um homem desconhecido. Alto, vestido de preto, expressão séria. - Senhorita Bianca Lemos? Ela engoliu em seco. - Sim. O homem entregou um envelope pardo. - Pediram para deixar isso com a senhora. - Quem mandou? - O remetente não informou. Ele virou as costas e foi embora. Com as mãos trêmulas, Bianca abriu o envelope. Dentro havia apenas três fotografias. A primeira mostrava ela e Ricardo entrando no hotel. A segunda mostrava os dois se beijando no estacionamento da empresa. A terceira fez seu sangue gelar. Era uma foto antiga, tirada meses atrás. Ela conversava com um homem dentro de um carro preto. No verso da imagem havia uma única frase escrita à mão. "Eu sei exatamente quem você é." ________________________________________ No hospital, a noite já avançava quando Valentina pediu para se levantar. A enfermeira a ajudou a caminhar até a janela. As luzes da cidade brilhavam lá embaixo, indiferentes ao caos que havia se tornado sua vida. - Posso fazer uma pergunta? - ela disse. - Claro. - O senhor Moretti... ainda está aqui? A enfermeira sorriu. - Está. Recusou todos os compromissos da noite. Valentina ficou surpresa. - Mas por quê? - Não faço ideia. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Então tomou uma decisão. - Se ele ainda estiver aí... diga que eu gostaria de agradecer pessoalmente. A enfermeira saiu do quarto. Menos de um minuto depois, a porta tornou a se abrir. Valentina ergueu os olhos. O homem que entrou era exatamente como sua memória confusa havia registrado. Alto, elegante, vestido com um terno escuro impecável. Os cabelos negros estavam alinhados para trás, e seus olhos carregavam uma calma quase intimidadora. Ele não sorriu. Apenas caminhou até uma distância respeitosa da cama. - Disseram que a senhora queria falar comigo. Valentina apertou as mãos sobre o lençol. - Eu... eu queria agradecer. Disseram que o senhor salvou a minha vida. Dante a observou por alguns segundos. - Não precisa agradecer. - Preciso, sim. Se eu não estivesse usando o cinto... - Não foi o cinto que a salvou. Ela franziu a testa. - Então o quê? Ele respondeu sem desviar os olhos dela. - Sua vontade de continuar vivendo. Valentina sentiu um nó se formar em sua garganta. Ninguém havia lhe dirigido uma palavra gentil desde que tudo aconteceu. - Mesmo assim... obrigada. Dante fez um leve movimento com a cabeça. - Espero que se recupere logo. Ele se virou para sair, mas a voz dela o fez parar. - Senhor Moretti... - Sim? Ela hesitou por um instante. - A enfermeira disse que o senhor ficou aqui o tempo todo. Nós nos conhecemos de algum lugar? Pela primeira vez... (DESENVOLVIMENTO AJUSTADO: Ele demorou alguns segundos para responder.) Dante manteve o olhar fixo nela. - Não. Mas, há muitos anos, você fez algo por alguém muito importante para mim. - Eu fiz? - Fez. - E quem era essa pessoa? Um brilho quase imperceptível atravessou seus olhos. - Minha irmã. Valentina tentou se lembrar, mas a cabeça ainda doía. - Eu não me recordo. - Não tem problema. Você não precisava lembrar. Ela sorriu de maneira tímida. - Mesmo assim, fico feliz em saber que ajudei alguém. Dante permaneceu em silêncio. Porque havia uma verdade que ela ainda desconhecia. Naquela época, a irmã dele estava sendo perseguida pelos inimigos da família Moretti. Ferida e desesperada, caiu desacordada em uma rua quase deserta. Todos passaram direto. Todos, menos uma jovem estudante de Direito chamada Valentina Albuquerque, que chamou uma ambulância, ficou ao lado da desconhecida durante horas e ainda pagou parte das despesas do hospital com o pouco dinheiro que tinha. Desde aquele dia, Dante nunca esqueceu seu rosto. E, enquanto observava a mulher sentada diante dele, destruída pela traição e tentando reunir forças para continuar, fez uma promessa silenciosa. Se Ricardo Vasconcelos havia escolhido perder a esposa que tinha... ele jamais permitiria que Valentina enfrentasse essa guerra sozinha. Sem que ela soubesse, naquele mesmo instante, do lado de fora do hospital, um carro preto estacionava discretamente. Um homem observava a janela do quarto dela e falava ao telefone. - Ela já acordou. A voz do outro lado perguntou: - E o Moretti? O desconhecido continuou observando o prédio. - Ele ainda está com ela. A resposta veio fria e carregada de ameaça. - Então está na hora de lembrar ao Dante que ninguém interfere nos nossos negócios... sem pagar um preço.

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Lista de capítulos

30 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O jantar que destruiu a minha vida
  2. Capítulo 2Capítulo 2 A mulher que ele abandonou
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O homem que ela escolheu

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