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Capítulo 3 Meu mercenário- Livro 4

Confesso que nunca havia presenciado o velho Charlie tão debilitado quanto com a morte de Esther. Eu acredito que nada é por acaso, cada pessoa nessa terra tem a oportunidade de traçar o próprio destino. O que você irá colher, depende do que plantar. Infelizmente, perdi o que mais amava por uma vingança idiota de um bando de traficante de merda. Desgraçado, estava nervosinho porque o FBI havia prendido a cabeça da quadrilha. Ou melhor, Charlie o prendeu. E como consequência, pagamos um alto preço. Ele abandonou seu trabalho oficial, aposentou-se indiretamente. A revolta, a mágoa, misturadas com a dor da perda o transformou. Simplesmente se tornou um dos melhores assassinos de aluguel, ou usando um termo mais apropriado, mercenário. A diferença entre nós, é que Charlie somente aceitava contratos onde deveria matar bandidos cruéis, corruptos. Agora eu? Indiferente. Acredito que se alguém contrata os meus serviços é porque tem um bom motivo, então, cada um com seus problemas. Ouço a voz do comandante comunicando sobre nossa chegada ao aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Não é a primeira vez que venho a trabalho para o Brasil. Domino com destreza o idioma português. E por sorte, tenho um grande amigo em quem posso confiar para me acomodar com segurança. Em alguns minutos, sinto a vibração das rodas na pista de pouso. Aguardo a saída dos passageiros apressados, não me importo em ficar por último apreciando a linda mulher que estava me servindo durante o voo, uma pena que não pode me servir de outro jeito. Sexo em banheiro de avião é adrenalina pura. Levanto-me da poltrona, caminhando lentamente em direção à aeromoça. Paro ao seu lado aproximando a boca da sua orelha, e sussurro: — Obrigado — digo com a voz rouca. Vejo que sua pele se arrepia, deixando-a com as bochechas coradas. Talvez devesse ter aproveitado melhor o serviço exclusivo da primeira classe. Sorrindo, enfio as mãos dentro dos bolsos na calça social. Engulo em seco limpando a garganta, e sigo em direção à saída. Faço os procedimentos necessários, e aguardo a retirada da mala com roupas e pertences pessoais. Puxo os óculos de sol que estavam dentro do bolso da camisa e o coloco no rosto. Arrasto a mala, andando no saguão principal, mais à frente vejo Marcelo acenando euforicamente. Balanço a cabeça negativamente. Aproximo-me rapidamente para acabar com o show de vergonha alheia. Cumprimentamo-nos, e seguimos direto para o estacionamento do aeroporto. Pedi que fosse cuidadoso ao alugar o carro, já que não quero chamar atenção. Mas quanto mais me aproximo do automóvel, tenho a certeza de que ele tem problemas com discrição. Andar pelas ruas de São Paulo dirigindo um Camaro Branco não é algo que se possa dizer que é discreto. Encaro-o, fuzilando com o olhar matador. Sorte que não estou armado, senão, seria uma morte a mais na minha conta. Sem graça e desajeitado, abre o minúsculo porta-malas, guardando a bagagem. Encosto na porta do motorista e estendo a mão pedindo a chave. Com certeza o iludido achou que ia ficar desfilando com esse carro, atraindo olhares curiosos. — Qual é, capitão, só mais uma vez — suplica juntando as mãos. Meu Deus, estou lidando com um homem ou uma criança? Enfim, opto por deixá-lo dirigir, mas só porque preciso me familiarizar com as ruas paulistanas novamente. Aproximadamente uma hora depois de sairmos do estacionamento, entramos em uma área rural, repleta de galpões abandonados. Sem casas, ou qualquer outro tipo de vizinhança. Marcelo para o carro em frente a uma grande porta de metal, e aperta o controle remoto, abrindo-a. Entramos, e o som do motor ressoa ecoando dentro do grande galpão. Desço do Camaro, analisando o local. Caixas pretas blindadas empilhadas ao lado da pilastra, e no centro, computadores com sistemas de localização. Não existe um programa que meu escandaloso amigo não consiga hackear. Ele me faz lembrar aquele amigo nerd do delegadinho da Camilly. Tenho certeza de que seriam grandes amigos, irmãos separados na maternidade. Enquanto Marcelo fala sem parar sobre o funcionamento geral, ando de um lado a outro observando todas as entradas e saídas, e possíveis rotas de fuga caso seja necessário. Do lado de fora várias câmeras de segurança. — Ali tem banheiro, e como pode ver, improvisei uma cozinha, e camas. Já que alguém não quis ir para o hotel. Por que dessa vez não? — questiona-me. — Prevenção. É um contrato milionário, e não tenho muitas informações sobre o cliente. Todo cuidado é pouco. Hoje à noite irei ao seu encontro, ou melhor, falso encontro. — E se ele cancelar o contrato? — Acredito que não, depois posso alegar que tive problemas por isso o atraso. — Cara, você pensa em tudo. — Hum... Agora quero comer alguma coisa e descansar um pouco — digo, abrindo a geladeira improvisada.

Desço do táxi em frente ao restaurante combinado com o contratante. A atmosfera em volta do local é suspeita. Através da grande vidraça de luxo, consigo visualizar muitos clientes usando ternos, na cor preta. Qual a probabilidade de 70% desses homens usarem a mesma roupa em pleno sábado à noite? Eu digo, é zero. Óbvio que isso está cheirando a emboscada. Não sei se me sinto ofendido, ou se me considero importante levando em consideração o tanto de capangas que aguarda a minha chegada. Entrar ou não entrar, eis a questão? Talvez ele só queira garantir a sua segurança ao estar do meu lado. Qual é Jhon, quer enganar quem? Esse filho da puta acha que pode me pegar assim? Ah, qual é? Não está lidando com nenhum amador. Sei que dentro desses carros estacionados do outro lado da rua, está repleto de homens armados só esperando o sinal para atirar. E que em cima dos prédios provavelmente também têm atiradores de elite com seus rifles de mira noturna. Patético. Esgueirando-me através das sombras da noite. Ajeito o capuz sobre a minha cabeça, passo direto pelo restaurante, avançando alguns quarteirões. Logo à frente, encontro uma cabine telefônica. Entro, fecho a porta, insiro algumas moedas, e digito o número do celular do contratante. — Sou eu. Achou mesmo que eu fosse idiota o suficiente de encontrar você com essa cambada armada? Ah, qual é? Não, vingança? Porra, já falei que não tenho nada a ver com isso? Matar- me? Tente a sorte, seu porco. Cuidado para não acabar com uma bala no meio da testa. Coloco o telefone no gancho encerrando a chamada. Desgraçado, chamou-me até o Brasil só para me matar. Caralho, já expliquei que não estou envolvido na morte do seu filho, mas o infeliz quer achar um culpado de qualquer jeito para superar o luto. E o bode expiatório da vez, sou eu.         Capítulo 4

Com a cabeça escondida debaixo do travesseiro, procuro com uma mão o despertador que está em cima da mesinha de cabeceira. Bato os dedos em todos os lugares, menos no botão para acabar com aquele som torturante. Bufando, tateio mais algumas vezes até encontrá-lo, bato com força quase quebrando o meu pequeno objeto de tortura matinal. Rolo o corpo na cama ficando de barriga para cima. Encaro o teto branco e sem graça do quarto. O final de semana passou muito rápido. Ainda não acredito que meus pais insistem em fazer inspeção quinzenal. Bem, na verdade, eles trazem alimentos abastecendo o armário e geladeira, mamãe com sua mania de limpeza, é como se eu fosse uma criança irresponsável que não pode cuidar de si própria. Divido o apartamento com Diego há mais de dois anos, ele não reclama dos mimos dos meus “Dadys” como ele faz questão de chamá-los. Depois daquela maldita viagem, criei coragem para enfrentar a vida, e entendi que posso andar com minhas próprias pernas, não preciso de marido, ou homem, para seguir em frente rumo ao futuro. Para alguma coisa serviu ser sequestrada, e usada como um objeto sexual descartável por um desconhecido. Sherolayne aproveitou cada segundo, mas quando relembro que fui expulsa praticamente com a calça nos pés, ainda tenho vontade de gritar. Sorte daquele Don Juan do Paraguai, não nos encontrarmos mais, senão, iria falar tudo que ficou entalado na garganta. Paris, quem precisa disso? Bocejando, levanto lentamente, arrasto o corpo cansado para fora da cama em direção ao banheiro. Lavo o rosto, escovo os dentes e prendo o cabelo em um coque alto. Lidar com vinte e cinco crianças na idade de cinco anos é um grande risco para cabelos compridos e soltos. Glitter, cola, por vezes piolhos, com tudo que uma professora do jardim de infância tem direito. Mas não troco meus “pimpolhos” por nenhum outro tipo de trabalho, amo o que faço. Ouço o som da porta da frente sendo aberta. Diego passou novamente à noite fora trabalhando como barman em uma boate. É um clube de público misto, constantemente insiste para que eu vá à caça como costuma dizer, e colocar a Sherolayne para malhar, mas ela está sedentária, contentando-se com exercícios leves em casa. — Diego? — chamo seu nome. — Sim, honey. Oh, meu Deus, estou mortinha — responde. Escolho um jeans e uma regata, calço o par de sapatos, e abro a porta do quarto, indo direto até a cozinha/sala. Encosto no batente e fico admirando a beleza do grande homem jogado no sofá. Não consigo definir sua beleza. Droga. Homens de sorte. Aproximo- me nas pontas dos pés, e puxo os tênis, jogando-os no chão. Por trás do seu 1,80m de altura, e lindos olhos castanhos tem uma história de vida muito triste. Preconceito, decepção, tortura física e psicológica. Quando vejo meus pais o tratando como filho, sinto um aperto no peito. Ainda não acredito que as pessoas que lhe deram a vida o torturaram durante anos, só por sua opção sexual. Faltou amor? E sobrou preconceito, incompreensão. Seu peito sobe e desce acompanhando o ressonar da sua respiração regular, indicando que já está dormindo. Continuo andando nas pontas dos pés até a geladeira. Pego uma fruta, e a bolsa de cima da cadeira, e saio sorrateiramente para não o acordar. Aperto o botão do elevador e aguardo. Logo os vizinhos do nosso andar também aguardam a chegada da caixa de metal. É como se combinássemos, mas aparentemente todos cumprimos a mesma carga horária. Ansiosa, confiro o relógio no pulso mais uma vez. Quando a porta dupla se abre, revelando uma grande quantidade de pessoas, considero a hipótese de esperar o próximo ou até mesmo descer de escada, mas quando vejo o sorriso do nosso querido condômino, Caio, não resisto e entro na lata de sardinha suportando o aperto. Droga, droga, não aprende mesmo. É só um homem bonito sorrir que a Sherolayne bate palmas empolgada. Oh, meu Deus, sinto como se faltasse o ar, além das fragrâncias misturadas dos perfumes das pessoas. Recuo alguns passos no pequeno confinamento para me afastar de uma senhora que provavelmente exagerou no perfume, e esbarro em algo duro, sólido, mas ao mesmo tempo macio, aconchegante. Estou dentro dos braços de Caio. Abaixo a cabeça envergonhada sem coragem para encará-lo. Algumas partes do meu corpo comemoram com gritos, palmas e confesso que até mesmo rojões barulhentos, porém a parte racional, aquela que me faz querer sair correndo e nunca mais encontrá-lo, no momento é quem controla a situação. Respiro fundo, controlando a respiração para não parecer a louca tarada do sétimo andar. — Está tudo bem — sussurra próximo à minha orelha. Fecho os olhos, lutando internamente contra a Sherolayne que insiste que devo aproveitar o momento e tirar uma casquinha do vizinho bonitão. Mas, não posso fazer isso, ou posso? — Não, você não pode — penso alto deixando as palavras escaparem da boca. — O quê? — questiona confuso, encarando-me. Droga... Droga... Nossa senhora das calcinhas molhadas, como resistir à tentação? Porque me colocais à prova logo pela manhã, ainda mais quando sonhei com aquele... Aquele... Sabe... Tenho raiva só de lembrar seu nome, ou melhor, eu não lembro. Como era mesmo? Pietro? Pablo? Quem quer saber o nome de uma criatura desprezível. — Desculpe, estou pensando alto. — Sorrio envergonhada. Só mais duas paradas, aguenta firme, Malu. Flashes de três anos atrás, naquele quarto contra a parede invadem meus pensamentos. Mesmo tão próxima do Caio, não sinto aquela eletricidade que percorreu meu corpo naquela noite. Foi inexplicável, incomparável. Esquece, Malu, esquece, foca no Caio. Não sei de onde, e como, mas um odor fedorento exala dentro do elevador, dificultando respirar. Fala sério, meu dia começou maravilhosamente bem. Prendo a respiração. Credo, alguém anda comendo muitos ovos nesse prédio. Graças a Deus, em fração de segundos chegamos ao térreo, como se tivesse uma bomba prestes a explodir, todos saem correndo, desesperados por ar puro. Agradeço gentilmente o vizinho por ter me acolhido mesmo sem ser sua intenção. Despeço-me indo na direção contrária a dele. Acelero os passos por alguns quarteirões até o ponto de ônibus. Sento no banco da pequena casa azul aguardando a condução. Pego o celular do bolso, e percorro o Facebook procurando algo útil, então, quando ergo a cabeça sou atingida com uma bomba pior do que a que soltaram no elevador. Em plena avenida, dirigindo um Camaro branco, com o braço apoiado na janela, e uma mão no volante, está Pierry. Não pode ser meus olhos são traiçoeiros e estão tentando me enganar, deve ser alguém muito parecido, impossível que depois de todos esses anos, iremos nos encontrar no Brasil, na minha cidade. Meu coração bate acelerado como se fosse saltar do peito, a sensação é de borboletas no estômago causando náuseas. Levanto rapidamente, deixando o celular cair no chão. Perplexa, em choque, permaneço encarando o homem sentado atrás do volante. E se for ele? Por que estou agindo assim? Não é da sua conta, ele não é importante, não é ninguém para você. Como se notasse minha presença, Pierry vira a cabeça, levando seus olhos diretamente até onde estou. Pela expressão no rosto com o olhar surpreso, confirmo o que suspeitava. É ele, esse homem, o Don Juan falsificado. Faço menção de abrir a boca, mas a fecho imediatamente. Lanço um último olhar em sua direção, e viro de costas para não o ver. Infantilidade? Talvez. Qual mulher madura nunca teve uma noite de sexo quente e casual? Só não quero ter contato nunca mais, nunca mais, repito mentalmente.

Desço do ônibus em frente à escola. As crianças correm na calçada, despedindo-se dos pais, outros encontrando os amigos para entrar na sala de aula. Sorrio ao ver o quanto é lindo o gesto de uma criança, sempre sincero e puro, ao contrário de uns e outros que acha que pode... Ahhgrrrr... Resmungo comigo mesma. Esqueça isso, passou, foi só sexo, só sexo. Só sexo, nada. Espero que esse cretino nunca mais cruze meu caminho. Respiro fundo, e lembro dos braços de Caio. Caio, nada, Pierry contra a parede, quente, selvagem... Cala a boca, Sherolayne, você não opta por nada sua assanhada. É o vizinho sim, nada de parede ou quente. Não tem amor-próprio, eu, hein, se controla mulher.         Capítulo 5

Como diabos pude encontrar essa mulher depois de todo esse tempo? Ela tinha que morar logo na cidade de São Paulo. Ah, qual é, e sua reação como se não me reconhecesse. Duvido que não me reconheça, por isso virou de costas, fazendo-se de difícil. Ela não estava nada difícil naquela noite no hotel, enquanto a fodia contra a parede. Piso fundo no acelerador na marginal, ultrapassando os carros mais lentos. O som do motor ronca alto atraindo olhares curiosos. Sinto como se estivesse com algo entalado na garganta. Em três anos, Maria Luiza não mudou em nada. Continua linda, e sensual com seus seios fartos de prender atenção de qualquer homem com sangue quente. Ingrata. Salvei sua vida em Paris, tirando-a das ruas, já que estava bêbada igual um gambá, colocando-se em perigo. E se eu fosse um psicopata, estuprador ou qualquer coisa assim? Hoje, ela estaria enterrada em qualquer lugar, morta. Tudo bem, que também a teria matado se fosse necessário, mas não quer dizer que não sentiria remorso. Okay... Okay... Não sentiria remorso. O que posso fazer? É minha profissão, ganho a vida basicamente arrancando a de outras pessoas. Agradeçam ao meu querido pai, responsável por envolver o filho nesse mundo sombrio e solitário. Desde pequenos aprendemos que devemos seguir os passos dos pais. É considerado que são responsáveis pela criação e futuro. Mas, acho que Charlie ficou cego de raiva e dor depois do que aconteceu com a esposa. Quem pode culpá-lo, não é? Talvez fosse melhor se tivessem acabado o serviço, mas, os desgraçados queriam deixar uma testemunha para contar em detalhes. E adivinhem quem foi o sortudo. Eu. Enfim, isso ficou no passado, e hoje, sou forte graças às feridas que com o tempo cicatrizaram.

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Lista de capítulos

21 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Meu mercenário- Livro 4
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Meu mercenário- Livro 4
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Meu mercenário- Livro 4

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