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Capítulo 2 Sem educação
Lara acordou no dia seguinte com a luz do sol entrando pela janela. Bocejou, espreguiçou-se e ficou um momento na cama, processando onde estava.
- Bom dia, Nova York - murmurou.
Levantou-se, foi até a cozinha e preparou um café. Abriu a geladeira ainda vazia, mas ela tinha comprado pão e manteiga na noite anterior numa loja de conveniência. Café da manhã básico.
Passou a manhã arrumando o apartamento. Pendurou quadros, organizou os livros na estante, colocou as plantas que trouxe do Texas perto da janela.
À tarde, decidiu explorar o bairro. Pegou a bolsa, colocou um casaco leve e saiu.
Andou por Manhattan, maravilhada com tudo. Lojas, restaurantes, pessoas correndo. O barulho constante de carros, sirenes, conversas. Tudo era tão diferente do Texas.
Voltou no final da tarde, cansada mas feliz. Comprou algumas coisas no mercado ovos, leite, frutas, legumes. Ia cozinhar seu primeiro jantar em Nova York.
Enquanto preparava um macarrão simples, ouviu a porta do elevador se abrir no corredor. Passos. Depois, a porta ao lado se fechando.
- Deve ser o vizinho - murmurou.
Curiosa, foi até a porta da entrada e espiou pelo olho mágico. Mas só viu o corredor vazio.
- Hum.
Voltou à cozinha, terminou de cozinhar, comeu e lavou a louça. Depois foi para a sala, sentou no sofá e pegou o celular. Assistiu a um episódio de uma série de romance sua mãe sempre dizia que ela via coisas "muito água com açúcar", mas Lara adorava.
Quando o episódio terminou, já era quase meia-noite. Lara bocejou, levantou-se para ir dormir.
Foi quando ouviu.
- ...amor, vai devagar...
Lara congelou.
A voz vinha da varanda. Da varanda do lado.
Ela olhou para a janela da sala dava para a varanda ao lado. A cortina estava aberta. Não tinha visto antes, mas agora percebeu que as varandas eram separadas por uma pequena distância. E que a do vizinho estava COM AS LUZES ACESAS.
- Isso... não... - sussurrou Lara.
- Ah, assim, assim!
Era uma mulher. Gemendo. E uma voz masculina, ofegante.
Lara ficou paralizada. O som vinha claro.
Ela olhou para a cortina. Se a cortina estivesse aberta, ela poderia ver.
Não. Ela NÃO ia olhar.
Mas as vozes continuavam.
- Meu Deus - Lara levou as mãos ao rosto. - Meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Ela correu para fechar a cortina da sala. Mas as vozes estavam ALTAS. Muito altas.
Lara tapou os ouvidos, mas ainda conseguia ouvir.
- Vamos, amor, mais forte!
Ela correu para o quarto. Fechou a porta. As vozes continuavam.
O quarto também tinha janela para a varanda ao lado.
- Não acredito! - Lara fechou a janela do quarto com força.
Mas a varanda do vizinho ficava entre os dois cômodos. Não importava onde ela estivesse, o som chegava.
Lara se jogou na cama, enterrou o rosto no travesseiro e gritou baixinho.
- Que vizinho é esse?!
Por quase vinte minutos, ela ouviu os sons. Gemidos, respirações, palavras sujas, o barulho do corpo contra a parede.
Quando finalmente o silêncio chegou, Lara estava com o rosto vermelho, os olhos arregalados e uma vontade enorme de se mudar de volta para o Texas.
- Amanhã - disse para si mesma, ofegante -, amanhã eu vou achar esse vizinho e vou DAR UM ESCLARECIMENTO.
Mas a vergonha era tanta que ela nem sabia como ia encarar o homem.
No dia seguinte, Lara acordou tarde. Tinha dormido mal, os sons da noite anterior ainda ecoando na mente.
Olhou no celular: 10h47.
- Ai, meu Deus, eu devia ter ido ao mercado de manhã - murmurou.
Levantou-se, tomou um banho rápido, vestiu uma calça jeans e uma blusa branca simples. Prendeu o cabelo num coque e pegou a bolsa. Precisava comprar mais coisas para a semana.
Saiu do apartamento, fechou a porta, e foi em direção ao elevador.
A porta do elevador estava se fechando.
- Espera! - Lara correu, esticando a mão.
A porta parou. Abriu.
E lá estava ele.
O vizinho.
Lara reconheceu na hora. O homem alto, de quase dois metros, ombros largos, cabelos castanhos escuros bagunçados, olhos negros. Ele usava uma camisa social branca, mangas dobradas até o cotovelo, e calça preta. Parecia ter saído de um comercial de perfume caro.
Ela entrou no elevador. Ele não a olhou.
Apenas ficou ali, em silêncio, olhando para as portas.
Lara engoliu em seco. Lembrou dos sons da noite anterior. O rosto ficou quente.
- Bom dia - disse, tentando soar natural.
O homem não respondeu. Apenas ficou parado, como se ela fosse invisível.
Lara sentiu uma pontada de irritação. Ela era uma pessoa educada. Sempre cumprimentava os outros. Aquele homem podia ao menos ter respondido.
Mas o elevador desceu em silêncio.
Quando as portas se abriram, o homem saiu primeiro. Andou rápido, sem olhar para trás.
Lara ficou parada no elevador por um segundo.
- Que homem mal-educado - murmurou.
Mas não pôde evitar: os sons da noite anterior voltaram à mente. Ela sentiu as bochechas queimarem.
- Não, não, não - disse para si mesma, saindo do elevador. - Você não vai pensar nisso, Lara. Você vai comprar suas coisas e voltar pra casa.
Ela seguiu em direção à saída.
O vizinho já tinha desaparecido na rua.
Lara suspirou aliviada.
Mal sabia ela que aquela indiferença era apenas o começo.
Lista de capítulos
12 capítulos no total
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