Pular para o conteúdo principal

Capítulo 3 Fazendo amizades

Lara saiu do prédio e respirou fundo. O ar de Manhattan era diferente do Texas, mais denso, misturado com cheiro de asfalto, comida de rua e o perfume vago de alguém que passou com um café na mão.

Ela apertou a bolsa contra o corpo e começou a andar.

A lista na cabeça era simples: leite, ovos, pão, frutas, legumes, algum tipo de proteína para a semana. E, se sobrasse dinheiro, talvez um chocolate para celebrar sua primeira semana em Nova York.

O mercado ficava a três quarteirões do prédio. Lara tinha visto no caminho no dia anterior. Mas, no meio do trajeto, algo chamou sua atenção.

Uma VITRINE deslumbrante, com manequins vestindo roupas que pareciam ter saído das passarelas de Paris. Vestidos fluidos, blusas de seda, calças de alfaiataria, casacos estruturados. Tudo em cores neutras e elegantes.

Lara parou.

Olhou para a vitrine. Depois para sua própria roupa calça jeans desgastada, blusa azul simples que ela tinha comprado em liquidação no Walmart, tênis surrados que já tinham visto dias melhores.

- Você está em Manhattan, Lara - murmurou para si mesma. - Talvez seja hora de se vestir melhor.

A loja se chamava "Banks & Co." A fachada era de vidro, o interior iluminado com luzes suaves, as roupas penduradas em cabides de madeira. Lara olhou para a porta, hesitou, e depois empurrou.

Uma campainha tilintou.

O interior era ainda mais bonito do que a vitrine. Piso de madeira, espelhos emoldurados a ouro, um balcão de atendimento com flores frescas. O cheiro era de lavanda e algo floral que Lara não conseguiu identificar.

- Bem-vinda! - Uma voz animada veio de trás do balcão.

Uma garota apareceu. Ela tinha cabelos loiros presos num rabo de cavalo alto, olhos azuis brilhantes, sardas espalhadas pelo nariz, e um sorriso tão largo que parecia ocupar metade do rosto. Vestia uma calça de alfaiataria bege e uma blusa de seda creme. Não tinha mais de vinte e poucos anos.

- Oi! - Lara sorriu de volta. - Eu... eu só tô olhando.

- Olhe à vontade! - A garota saiu de trás do balcão. - Sou a Maya. Se precisar de ajuda, é só chamar. Qualquer tamanho, qualquer peça, qualquer dúvida.

- Obrigada. - Lara começou a andar entre os cabides.

As roupas eram lindas. Mas os preços...

Ela pegou uma etiqueta de uma blusa azul-marinho e quase engasgou.

$240,00

- Ai, meu Deus - sussurrou.

- Muito caro, né? - A voz de Maya surgiu ao lado. - Não se preocupa. Temos uma seção de liquidação atrás. As peças são de coleções passadas, mas ainda estão impecáveis.

Lara sentiu o rosto esquentar.

- Eu... eu não tô com orçamento limitado - mentiu. - Só tô...

- Relaxa - Maya riu, e o som era contagiante. - Eu trabalho aqui. Sei que a maioria das pessoas não tem $240 por uma blusa. Vem comigo.

Antes que Lara pudesse protestar, Maya a puxou para o fundo da loja. Lá, em cabides separados, havia roupas lindas com etiquetas de preço reduzido.

- Olha só. - Maya pegou uma calça de alfaiataria preta. - Essa era $350, agora tá $120. E essa blusa - ela pegou uma camisa de seda cor de rosa -, era $280, tá $90. Combinando, fica $210 o look inteiro.

Lara olhou para as peças. Eram lindas. Muito mais elegantes do que qualquer coisa que ela tinha no armário.

- Você acha que fica bem em mim? - perguntou, insegura.

- Com certeza! - Maya olhou para Lara de cima a baixo. - Você tem um corpo maravilhoso, sabia? Ele é bem vantajado... esse tipo de roupa vai valorizar suas curvas. Só precisa do tamanho certo.

Lara sentiu o rosto aquecer, mas dessa vez com um sorriso.

- Obrigada.

- Qual é o seu nome, aliás?

- Lara. Lara Mendes de Texas.

- Prazer, Lara. - Maya estendeu a mão. - Maya Lopes de Nova York. Agora vamos provar as roupas.

Lara pegou as peças que Maya sugeriu e foi até o provador.

O provador era espaçoso, com um espelho de corpo inteiro e uma cortina de veludo. Lara tirou a blusa e a calça jeans e vestiu a calça de alfaiataria preta.

Ela olhou no espelho.

A calça assentava perfeitamente em seus quadris, realçando suas curvas. A cintura alta alongava a silhueta, e o caimento era impecável.

- Uau - sussurrou.

Vestiu a blusa de seda cor de rosa. A cor combinava com seu tom de pele, e o tecido leve caía suavemente sobre seu corpo.

Lara se virou de um lado para o outro, admirando o reflexo.

Ela parecia... elegante. Sofisticada. Uma mulher de Manhattan.

- E aí? - a voz de Maya veio de fora. - Deixa eu ver!

Lara abriu a cortina e saiu.

Maya soltou um assobio baixo.

- Você tá INCRÍVEL. - Ela deu um passo ao redor de Lara, examinando cada detalhe. - O caimento ficou perfeito. A cor combinou com você. - Ela bateu palmas. - Levou!

Lara riu.

- Eu tô gostando muito, mas... $210 ainda é bastante.

- Escuta, eu posso te dar um desconto de funcionária. - Maya piscou. - $180 pelo conjunto. É o máximo que posso fazer.

Lara fez as contas rápidas na cabeça. Era caro, mas... ela estava em Manhattan. Queria começar uma nova vida. Talvez precisasse de roupas novas.

- Tá bom - disse, sorrindo. - Vou levar.

- Boa! - Maya aplaudiu. - E já que você gostou, quer ver mais uma peça? Tenho uma coisa que combina perfeitamente com esse look.

Maya foi até o fundo da loja e voltou com um casaco curto, de corte estruturado, na cor creme.

- Isso aqui é um clássico. Combina com tudo. E tá em promoção também.

Lara provou o casaco. Ficou perfeito sobre o conjunto.

- Quanto?

- Originalmente $400, tô vendendo a $150.

Lara hesitou. Sua mãe ia ter um ataque se soubesse que ela gastou $330 em roupas.

- Vai, vai - Maya incentivou. - Você merece. É um presente pra si mesma.

Lara riu.

- Tá bom. Levo o casaco também.

- Aí sim!

Maya correu para o balcão e começou a embalar as roupas em sacolas de papel creme, com o logo "Banks & Co." em dourado.

- Então, Lara - Maya disse, enquanto passava o cartão de Lara na máquina -, o que trouxe você a Manhattan?

- Meu avô. - Lara assinou o comprovante. - Ele faleceu há seis meses e me deixou o apartamento dele. Resolvi mudar de vida.

- Sinto muito pelo seu avô. - Maya colocou a mão no ombro de Lara. - Mas que coragem, hein? Deixar tudo pra trás e vir pra cá sozinha.

- É... foi difícil. Mas meu avô sempre disse que eu tinha talento como designer gráfica. Que Nova York era o lugar certo.

- Designer gráfica? Que legal! - Maya se animou. - Eu tô fazendo faculdade de administração, mas sempre admirei quem trabalha com criatividade. - Ela inclinou a cabeça. - Você trabalha em casa?

- Por enquanto. Tô montando meu portfólio. Quero pegar freelas.

- Olha, se precisar de indicação, eu conheço um monte de gente. - Maya pegou um cartão de visitas e escreveu algo atrás. - Meu número. Me chama quando quiser tomar um café.

Lara pegou o cartão, surpresa.

- Nossa, obrigada. - Ela guardou o cartão na bolsa. - Você é muito gentil.

- Gentil nada. - Maya riu. - Só tô feliz de conhecer alguém que não é um daqueles clientes estressados. Você é legal. - Ela piscou. - E a gente se identifica. Moças humildes tentando sobreviver em Manhattan. - Ela baixou a voz. - Minha família é rica, mas eu tô aqui trabalhando igual todo mundo. Não quero viver às custas dos meus pais.

Lara sentiu uma conexão imediata.

- Eu entendo. Meus pais são classe média. Nunca tivemos muito, mas nunca faltou nada. Meu avô que construiu essa vida em Nova York sozinho. - Ela sorriu. - Quero honrar isso.

- A gente vai dar certo, Lara. - Maya deu um tapinha no ombro dela. - Pode apostar.

As duas trocaram mais alguns minutos de conversa Maya contou que trabalhava na loja há dois anos, que morava num apartamento em Brooklyn, que adorava moda mas odiava clientes esnobes.

Lara riu tanto que quase esqueceu a hora.

- Preciso ir - disse, finalmente. - Ainda tenho que fazer compras no mercado.

- Vai, vai. - Maya acenou. - Mas me liga, hein? A gente toma um café.

- Pode deixar. - Lara pegou as sacolas e saiu da loja.

A campainha tilintou atrás dela.

Lara andou pela calçada com um sorriso no rosto. Conhecer Maya tinha sido uma sorte. Uma amiga em Manhattan. Alguém com quem ela podia desabafar, rir, compartilhar a vida.

Ela olhou para as sacolas da Banks & Co.

- Primeiro dia, primeiras roupas novas, primeira amiga. - Ela riu sozinha.

Lara chegou ao mercado e fez as compras. Leite, ovos, pão, frutas, legumes, frango, macarrão. Coisas básicas para sobreviver a semana.

Enquanto escolhia os tomates, lembrou do vizinho. O homem alto, de olhos negros, que a ignorou no elevador.

- Que pessoa mal-educada - murmurou.

Mas, ao mesmo tempo, sentiu um alívio. Melhor ser ignorada do que ouvir uma reclamação. Ela ainda estava se adaptando, ainda tentando descobrir os limites de viver em um apartamento .

Pagou as compras e voltou para casa.

Chegou ao prédio, subiu no elevador, e chegou ao décimo quarto andar. O corredor estava vazio. A porta do 1401 a do vizinho fechada.

Lara enfiou a chave na porta e entrou em seu apartamento.

Largou as compras na cozinha, guardou os mantimentos, e depois colocou as roupas novas no armário. O conjunto preto e rosa ficou pendurado ao lado de suas outras roupas e parecia destoar completamente. As peças eram tão elegantes que faziam as outras parecerem velhas e desgastadas.

- Preciso comprar mais roupas novas - murmurou.

Sentou no sofá e pegou o celular. Encontrou o número que Maya tinha escrito no cartão e salvou como "Maya Banks & Co.".

Depois, abriu o WhatsApp e enviou uma mensagem:

"Oi, Maya! Sou a Lara. Acabei de chegar em casa. Obrigada pela ajuda hoje! Adorei as roupas."

A resposta veio em segundos:

"Lara! Que bom que você chegou bem. As roupas ficaram perfeitas em você, tô até com inveja. Bora tomar café amanhã? Conheço um lugar perto da sua loja que tem um cappuccino maravilhoso!"

Lara sorriu.

"Amanhã? Pode ser sim! Que horas?"

"14h? Tô de folga amanhã."

"Fechado! Me manda o endereço."

"Mando sim. Até amanhã! 💕"

Lara guardou o celular e deitou no sofá, olhando para o teto.

Sua primeira semana em Nova York estava apenas começando, e ela já tinha feito uma amiga. Parecia que as coisas estavam se encaixando.

Só faltava resolver o problema do vizinho.

- Mas amanhã eu penso nisso - murmurou, fechando os olhos.

Do outro lado da parede, ouviu-se uma música. Piano. Melodia suave, clássica.

Lara franziu a testa.

- Ele toca piano? - sussurrou.

A música continuou, bonita e complexa.

Lara ouviu por alguns minutos, encantada, apesar de si mesma.

- Pelo menos ele tem bom gosto musical - murmurou.

E apesar de tudo, o som do piano a fez sentir-se um pouco menos sozinha.

Isso é tudo que está disponível no momento.

Continue lendo para acompanhar a história.

Continuar lendo

Lista de capítulos

12 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Olá Nova York
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Sem educação
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Fazendo amizades

Lançamentos