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Capítulo 3 NARRADOR

Capítulo 3 Camila Camila ia no banco do fundo do ônibus, colada na janela, com Diego adormecido no peito. O tiro no ombro ardia. O da coxa latejava com o movimento. Encostou a testa no vidro. Lá fora, a estrada era uma linha negra que se repetia. Dentro, em sua cabeça, as últimas horas se misturavam. Havia acordado dois dias antes sobre um colchão. Com a dor no ombro e a boca seca, abriu os olhos procurando um teto que reconhecesse. Encontrou uma lâmpada velha, uma mesinha com um Cristo de madeira e uma mulher enrugada sentada ao lado do colchão. ---Você acordou, filha. A senhora aproximou um copo d'água. ---Beba. Devagar. ---Onde estou? ---Na minha casa. Peguei você na rua. Tinha dois tiros. Pariu bem aqui. ---Não entendo, não lembro de estar grávida. Virou a cabeça. Sobre o cobertor, envolto numa toalha limpa, dormia um bebê. Cabelo preto colado no crânio, os punhos fechados. ---É meu? ---É seu. Você pariu há dois dias. Olhou para ele por um bom tempo. Não sentiu o que pensou que ia sentir. Só um peso no peito. ---Como ele se chama? ---Você não chegou a batizar. Desmaiou antes. ---E o pai? A senhora balançou a cabeça. ---Não sei. Você chegou sozinha. Não mencionou ninguém. Valéria buscou dentro de si. Um rosto, um nome, uma voz. Não veio nada. Só manchas. Uma sala de espera de hospital. Um cheiro de desinfetante. Uma mulher falando em outro quarto. Depois, névoa. ---Como eu me chamo? A senhora ficou imóvel. ---Valéria. Você me disse Valéria antes de desmaiar. ---Valéria. Repetiu na boca como quem experimenta uma palavra estrangeira. Não soou como ela. ---O que aconteceu comigo? ---Você chegou correndo. Me disse que sua sogra queria te matar e tirar o menino de você. Eu te levei para dentro e você começou a parir. Tirei a bala com uma faca do fogo. Você desmaiou de dor. ---Não lembro de ter sogra. ---Você não lembra de nada, filha. A cabeça às vezes se fecha quando vê coisas muito feias. É a forma que ela tem de te proteger. Valéria voltou a olhar para o bebê. Passou um dedo pela bochecha dele. O menino se mexeu no sono. Algo subiu pela garganta dela. Um nome, sem motivo. ---Diego. Ele se chama Diego. ---Bonito nome. A senhora contou o resto, devagar. Que a mulher tinha ido procurá-la naquela mesma noite. Que ela conseguira fazê-la acreditar que Valéria tinha morrido no parto. Que a mulher fora embora com essa ideia e não voltaria. ---E onde ela acha que está meu corpo? ---Vem. Você precisa ver uma coisa. Ajudou-a a se levantar. Custou. A cada passo, o tiro na coxa descia até o pé. Saíram para o quintal de terra. Num canto, junto a um limoeiro, havia um montinho de terra recém-revolvida. Uma cruz de madeira. E sobre a cruz, escrito com marcador preto numa tábua, um nome. Valéria Cruz. Que descanse em paz. Camila levou a mão livre à boca. ---É para os vizinhos. E para os homens que ela possa mandar confirmar. Se alguém vier perguntar, eu digo que você está enterrada ali. E se alguém quiser abrir, que abra. Tem um cachorro morto lá dentro. Valéria olhou para ela. Não soube se ria ou vomitava. ---Por que a senhora está fazendo tudo isso? ---Porque os anos ensinam a gente a saber quando uma mulher não merece morrer. Voltaram para dentro. A senhora lhe entregou uma sacola de pano. Dentro havia um maço grosso de notas, um título de eleitor, uma certidão de nascimento e uma passagem de ônibus. Valéria tirou o documento. A foto era de outra mulher, parecida, mas não igual. O nome embaixo dizia Camila Ríos. Vinte e três anos. Mazatlán. ---Minha sobrinha. Morreu há três anos num acidente. Ninguém procura por ela. Tem sua idade. De agora em diante, você é ela. ---Camila Ríos. ---Repita para si mesma todos os dias até virar seu nome verdadeiro. E esqueça o outro. Três quarteirões pelo beco até a avenida. O ônibus sai às seis para Tijuana. De lá você atravessa. Quando estiver do outro lado, não volte. ---Por quê? ---Porque nem toda verdade serve. Às vezes o que você não sabe é o que te salva. Não entendeu o que ela quis dizer com aquilo. Mas assentiu. Repetiu o nome baixinho. ---Camila Ríos. E continuou repetindo até o ônibus sair da cidade. • • • Oito anos depois. Nova York. A doutora Camila Ríos fechou o último prontuário do dia e desligou o computador do consultório. Usava o cabelo curto, na altura do queixo. Castanho-claro, com uma mecha que caía sobre o olho esquerdo cada vez que se inclinava sobre um paciente. Os olhos verdes eram lentes de contato que colocava todos os dias. A cicatriz do ombro, sempre coberta com manga comprida. Seu crachá dizia Dra. Camila Ríos. Cardiologia pediátrica. Chefe da unidade de cardiopatias congênitas do Mount Sinai. Ninguém naquele andar sabia nada dela antes de oito anos atrás. Ninguém sabia que tinha chegado à fronteira com um bebê de três dias, dois tiros fechados na marra e uma certidão de nascimento alheia. Ninguém sabia que trabalhara seis anos na limpeza noturna de hospitais para pagar o diploma e a especialização. Nem ela mesma sabia. Essa parte lhe fora contada pelos arquivos, pelos recibos, pelos diplomas. Mas por dentro, na cabeça, só havia Camila Ríos. A Valéria de antes continuava enterrada num quintal de Tepito que ela já não conseguia localizar num mapa. Pegou a bolsa, vestiu o casaco e saiu para o corredor. Diego a esperava na sala de espera, com a mochila entre os pés e um livro de problemas nas mãos. Oito anos. Cabelo preto, olhos escuros, máscara sobre o nariz - sempre a usava, desde os dois anos. A cardiopatia congênita o deixava propenso a contrair vírus. Ergueu o rosto quando a viu. ---Pronta, mãe. ---Pronta. Pegou a mão dele. No dia seguinte começava a olimpíada internacional de matemática. Diego competia pelos Estados Unidos na categoria sub-dez. No ano passado tinha ficado em segundo lugar. Neste ano ia ganhar. ---Está nervoso? ---Não. ---Tem certeza? ---Mãe. É matemática. Camila riu. Aquele menino falava como um adulto desde os quatro anos. Programava desde os seis. Às vezes olhava para ela com uma calma estranha, como se soubesse coisas que ela não tinha contado. ---Vamos para o hotel, precisamos fazer o check-in cedo. No saguão do hotel onde se hospedavam os competidores e suas famílias, Mateo Solís acabava de registrar o quarto 1402. Levava o paletó dobrado no braço e a mão de Lucas apertada na outra. ---Pai. Vamos comer? ---Vamos. Depois você vai dormir. Lucas tinha oito anos. Cabelo preto, olhos escuros, máscara colocada. A cardiopatia com que nascera nunca o largara de vez. Mateo carregava aquela culpa silenciosa de ter passado a fragilidade que os dois tiveram. ---Vou ganhar. ---Eu sei. ---E quando eu ganhar, você me leva ao museu dos dinossauros? ---Eu levo. Caminharam até o elevador. Mateo não a viu chegar. Uma mulher atravessou o saguão andando rápido, com um menino pela mão. Ia olhando o celular. Ele ia lendo um cartaz do torneio. Esbarraram na altura do ombro. ---Desculpe. ---Perdão. As duas vozes saíram ao mesmo tempo. Os dois ergueram o rosto ao mesmo tempo. Mateo ficou parado. A mulher também. Foi um segundo. Talvez dois. Ela tinha o cabelo curto castanho, os olhos verdes, o rosto de alguém que ele não conhecia. Mas algo no peito, embaixo da cicatriz antiga, deu um golpe curto. Como se o coração novo, o que já levava oito anos aprendendo a bater sob seu esterno, tivesse reconhecido algo que ele não reconheceu. Camila ficou olhando para ele. O homem era alto, terno cinza, barba de um dia. Nunca o tinha visto na vida. Mas subiu à sua boca um gosto estranho. Como quando um nome fica na ponta da língua. ---Desculpe ---repetiu ele. ---Não foi nada. Mateo baixou o olhar. Viu o menino que ia com ela. Máscara. Cabelo preto. Olhos escuros. Algo puxou de novo em seu peito. Lucas, do outro lado, olhou para o menino. O menino olhou para ele. Nenhum dos dois disse nada. Mateo ajeitou o paletó e puxou de leve a mão de Lucas. ---Vamos, filho. Camila apertou a mão de Diego e seguiu até o elevador. Nenhum dos quatro olhou para trás. Mas os dois adultos, cada um por si, chegaram ao elevador com a sensação incômoda de ter esquecido algo importante. Algo que tinha ficado parado no meio do saguão, esperando para ser recolhido. E os dois meninos, cada um com seu próprio pai, subiram em silêncio pensando um no outro.

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Lista de capítulos

55 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 NARRADOR
  2. Capítulo 2Capítulo 2 NARRADOR
  3. Capítulo 3Capítulo 3 NARRADOR

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