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Capítulo 2 Damien Narrando

Damien Narrando O silêncio que ficou entre mim e Sérgia era denso, pesado — quase tão repugnante quanto a cena que ela acabara de ver de tudo. — Devia aprender a engolir esse orgulho e superar logo. — Ela quebrou o silêncio com aquele tom de quem sabe tudo. — Não foi a primeira que te virou as costas, e com certeza não vai ser a última. Levantei o olhar devagar, firme e cortante.

— Se veio até aqui só para me dar lição de vida, a porta é a mesma por onde ela saiu. Pode ir. Sérgia sorriu de lado, aquele sorriso provocador que sempre me enchia de impaciência. Seus olhos percorreram cada detalhe do meu corpo, demorados, como se estivesse despindo‑me só com o olhar. — Um dia você vai descobrir que não dá para amarrar tudo e todos ao seu bel‑prazer. — Disse, virando‑se para ir, mas parou antes de sair. Passou a ponta da unha comprida e afiada de propósito pelo meu braço — um toque leve, mas cheio de aviso e posse. — E aí talvez seja tarde demais para correr atrás do prejuízo. — Desaparece da minha frente. — Cuspi as palavras entre os dentes, seco e áspero. Ela saiu caminhando devagar, balançando os quadris de propósito, deixando apenas o rastro daquele perfume enjoativo e o som do meu próprio sangue fervendo nas veias. Meu maxilar estava travado como uma rocha. Os punhos cerrados com tanta força que as unhas quase furavam a palma da mão. O gosto daquela traição, de ver ela simplesmente escolher outra coisa, outra vida… queimava mais forte que qualquer coisa. Eu não perdia. E perder para quem achava que podia me trocar por qualquer coisa chamada “paz”? Isso era inaceitável, uma ofensa pessoal. Ela acha que vai casar? Que vai viver feliz ao lado de outro? Que ele vai tocar, possuir, o que sempre foi meu por direito? Isso não vai ficar assim. Me levantei de um impulso só, empurrando a cadeira para trás com força — o rangido do metal contra o piso pareceu um grito de revolta. Fui até o vidro enorme da janela e olhei para a cidade inteira lá embaixo, tudo pequeno, tudo sob o meu domínio… menos ela. Respirei fundo, tentei acalmar o turbilhão dentro de mim, mas foi inútil. O celular vibrou forte no bolso. Peguei apertando o aparelho como se pudesse esmagá‑lo. O nome de Ricardo aparecia na tela. LIGAÇÃO ATIVA

— Fala. — Atendi curto e grosso.

— Dam… — ele começou, mas cortei logo.

— Damien. Meu nome é Damien. Hoje é assim. Pode falar.

Houve uma pausa de estranhamento do outro lado.

— Certo… Damien. — Hesitou, mas seguiu. — Precisa vir até o escritório principal agora. O contrato com a MF Internacional tem uma cláusula que pode nos prejudicar feio se não resolvermos rápido. É urgente.

— Chego aí. — Desliguei na cara dele sem mais explicações.

LIGAÇÃO ENCERRADA Peguei o paletó e saí da sala como um furacão, sem olhar para ninguém que cruzasse o caminho. No elevador, tentei controlar a fúria que fazia até minhas mãos tremerem — não de medo, mas de uma raiva que parecia querer explodir tudo por fora. Ao chegar à garagem, mandei o motorista ficar.

— Eu dirijo. — Falei baixo, mas com autoridade que o fez sair de perto de imediato. O caminho todo foi só um borrão de ruas e luzes. A imagem dela dizendo que queria paz, que preferia outra vida, não saía da minha cabeça. Paz… palavra fraca, coisa de quem não tem força para dominar o próprio mundo. Quando cheguei, estacionei com brutalidade — pneus rangendo, carro parado torto e forte. Entrei no prédio ignorando tudo e todos, a passada pesada e ameaçadora. Abri a porta da sala de Ricardo com um empurrão que fez tudo estremecer.

— O que é tão importante que não pode esperar? — Disparei de uma vez. Ele me analisou inteiro, percebendo logo que eu estava a um passo de destruir tudo ao redor.

— Antes de negócios… você parece prestes a matar alguém. O que houve? Dei uma risada seca, peguei a garrafa de uísque que ele sempre mantinha ali e virei um gole longo, queimando garganta abaixo — mas nem senti.

— Letícia se demitiu. Vai se casar. Jogou tudo fora como se nada valesse nada. Ricardo franziu o cenho, calmo demais para o meu gosto.

— E você deixou? Assim, sem mais nem menos?

— Deixei? Ela não me deu opção! Simplesmente virou as costas e foi embora! — Minha voz saiu mais alta, carregada de frustração.

— Você devia ter rasgado esse papel na cara dela, né? — Ele provocou com calma. Fiquei em silêncio. E ele sorriu, balançando a cabeça — como quem me conhece há uma vida toda e sabe exatamente como eu funciono.

— Eu não nasci para perder coisa nenhuma. Muito menos o que é meu. — Apertei o copo até ele ranger nos dedos.

— Então por que perdeu ela? — Rebateu ele direto e firme. Meus olhos ficaram estreitos, fuzilando ele.

— Isso não tem nada a ver com…

— Tem tudo a ver, sim! — Cortei‑me de vez. — Você vive achando que tudo controla, que tudo é seu… mas será que em algum momento ela realmente se sentia sua? De verdade? O ar ficou pesado, quase impossível de respirar. Senti o peito subir e descer forte, vontade de quebrar tudo o que estava ali pela frente. Ricardo suspirou, fechou os papéis.

— Olha… com esse estado aí, não vamos resolver contrato nenhum. Vai sair, dar uma volta, esfriar a cabeça. Amanhã a gente vê tudo com clareza. — Ele se aproximou, tocou meu ombro num gesto raro, quase de aviso. — E pensa bem: às vezes só percebemos o quanto estávamos perdidos mesmo… quando achamos que perdemos algo. Ele saiu e me deixou só com aquilo martelando na cabeça. Perdido? Eu nunca estive perdido. Eu sei exatamente o que quero. E o que eu queria agora era deixá‑la pagar por ter me tratado como coisa velha. Nem que para isso eu tivesse de desmantelar toda a vida nova que ela achava que ia construir. Saí de volta para as ruas, a cabeça girando, o desejo de controle e vingança crescendo cada vez mais. Dirigi sem destino, até que luzes mais baixas, música abafada e movimento de gente chamaram minha atenção. Um bar. Lugar de gente que tenta esquecer o que não pode apagar. Exatamente o que eu precisava — ou pelo menos o que eu queria agora. Entrei, o ar noturno não foi suficiente para aliviar o peso que eu carregava. Fui direto ao balcão, pedi um copo forte e fiquei ali observando tudo com olhos de caçador. Duas mulheres estavam ali por perto, rindo, alheias ao mundo… uma delas, morena, lançou‑me um olhar e um sorriso que parecia uma oferta aberta. Eu sorri de volta, um sorriso frio, calculista.

— Hoje ninguém vai me deixar sozinho. — Murmurei baixo, bebendo um gole, sem tirar os olhos dela. — Ela que se vá ao diabo com a sua paz. Agora quem manda em mim sou eu… e eu não costumo voltar para casa vazio. Mas uma coisa estava certa: essa história não terminou ali. Ninguém entra e sai da minha vida como se nada tivesse acontecido. Cedo ou tarde, ela vai descobrir que tentar fugir de mim… é o pior erro que alguém pode cometer.   Continua...

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168 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Damien Narrando
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Damien Narrando
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Luna Narrando

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