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Capítulo 3 Luna Narrando

Luna Narrando O vento cortante da cidade grande bateu forte em mim assim que desci do ônibus. Tudo parecia maior, mais barulhento, mais apertado ao meu redor. Mas eu já tinha passado por situações muito piores do que apenas me sentir pequena no meio da multidão. Meu nome é Luna Vargas. Tenho vinte e cinco anos. Até ontem ainda tinha uma rotina, um lugar, uma identidade. Hoje, sou apenas uma forasteira. Cabelos longos e escuros, traços que sempre chamaram atenção — uma atenção que aprendi cedo a detestar e temer. Porque na minha vida, ser notada sempre custou caro. Vim de um relacionamento que quase acabou comigo de verdade. Não foi dor de cabeça ou sofrimento de novela: foi viver de olhos abertos, aprendendo a decifrar cada expressão, cada tom de voz, como quem lê um manual de sobrevivência. Foi ficar segurando a respiração cada vez que ouvia a chave girar na porta. Estou aqui porque precisei fugir. Não por coragem, mas por necessidade. Um dia ele saiu para trabalhar, e eu aproveitei: mochila nas costas, documentos, o dinheiro que juntei escondido por meses… e saí sem olhar para trás. Prédios altos erguiam‑se ao meu redor, sombras compridas cobrindo a calçada apressada. O barulho de carros e buzinas parecia querer me sufocar. “Bem‑vinda à selva de pedra”, pensei, apertando com força a alça da mochila contra o peito. A única luz no meio de tudo isso era Karen — minha melhor amiga, a única pessoa no mundo que sabia exatamente quem eu era e o que eu tinha vivido. Foi ela quem arrumou um canto para mim, um quarto apertado no seu apartamento pequeno. O plano era simples e claro: ficar invisível, recomeçar, trabalhar, sobreviver. E nunca mais repetir os mesmos erros. Nada de se envolver. Nada de confiar cegamente. Nada de colocar minha segurança em risco outra vez.

— Luna, você não pode ficar aí trancada como se estivesse escondida do mundo todo. Vamos sair só uma noite. Distrair a cabeça. — Karen me chamou, insistindo para que eu saísse de casa. Pensei em recusar, mas depois de dias fechada, sentia que ia acabar enlouquecendo com os próprios pensamentos. Aceitei. Fomos as duas. Quando chegamos ao bar, depois de um dia longo e cansativo, tudo o que eu queria era um momento de paz: um drink, música baixa, nenhum alerta ligado em alerta máximo. Estávamos sentadas no balcão, observando o movimento, quando senti de imediato. Um olhar.

Pesado. Firme. Queimando nas minhas costas e nuca como se fosse um toque real. Levantei os olhos devagar e cruzei com ele de vez. Alto, ombros largos, vestia um terno caro que parecia ser feito sob medida — e mesmo com aquele ar de desleixo calculado, deixava claro que ele tinha poder, dinheiro e mando. O olhar dele… não era de quem observa. Era de quem examina, avalia e já decide que tudo ali lhe pertence. Ele se aproximou sem cerimônia nenhuma, como se todo mundo devesse abrir caminho só para ele passar. — Parece perdida, deslocada… — disse ele, voz grave, calma, mas carregada de uma arrogância que já me acendeu o sinal de alerta. Ergui uma sobrancelha, mantendo o rosto duro e a postura firme. Meu corpo travou por um segundo — reflexo antigo — mas não deixei transparecer nem um pouco de receio. — E você parece muito acostumado a falar o que pensa, mesmo quando ninguém pediu a sua opinião. — Respondi seca, e continuei bebendo devagar, mantendo todo o controle. Não ia dar o gosto de me ver tremer. Um sorriso de canto apareceu nos lábios dele. Não era simpatia. Era interesse de quem encontrou um desafio que valia a pena perseguir. — Damien. — Se apresentou, como se aquele nome por si só já bastasse para abrir todas as portas e convencer qualquer uma. Não fiquei nem um pouco impressionada.

— Luna. — Falei direto, sem rodeios. E foi estranho: depois de tanto tempo escondida, usando outro nome, ali, na frente de um completo estranho, saiu o meu nome de verdade. Não entendi por quê, mas senti que era o certo. Ele se inclinou ainda mais, invadindo meu espaço de propósito. O perfume forte, amadeirado e caro tomou conta de todo o ar entre nós. Cada nervo do meu corpo ficou em estado de prontidão, mas minha expressão continuou firme. — Nome bonito… assim como tudo o que se vê por aqui. — Disse ele, com aquele tom de quem acha que está fazendo um grande favor em elogiar. Revirei os olhos com toda a franqueza.

— Se acha que vai me conquistar com frases prontas e baratas, pode parar por aí. Não funciona comigo. Ele soltou uma risada baixa, rouca. Gostou. A minha resistência parecia só atiçar ainda mais aquele interesse doentio.

— Gosto de mulher que não se deixa levar por qualquer coisa. — Passou a ponta da língua lentamente pelos lábios — um gesto que em qualquer outro seria ridículo, mas nele parecia um aviso claro de que não ia parar por nada. Neguei com a cabeça, sentindo um frio desagradável subir pela espinha.

— E eu gosto de homens que sabem respeitar quando ouvem um “não”. O sorriso diminuiu um pouco, mas o brilho nos olhos ficou mais forte, mais intenso. Ficou claro de cara: Damien Reid não era o tipo que aceita recusas. — Quem foi que disse que eu costumo desistir logo na primeira negativa? — Rebateu, firme e seguro de si. Cheguei meu rosto mais perto, encarando fundo aqueles olhos que pareiam querer devorar tudo. Sem medo. Sem recuo.

— E saiba de uma coisa: o homem que não entende um “não” como resposta definitiva… é exatamente o tipo que eu aprendi, da pior forma possível, a manter o mais longe que puder. O silêncio pairou pesado entre nós por segundos que pareceram uma eternidade. Ao lado, Karen observava com um sorriso leve, mas me conhecia o suficiente para perceber: aquilo não era paquera leve. Era confronto e perigo. — Vamos, Luna. Chega por hoje. — Chamou ela, puxando‑me com carinho mas firmeza. Levantei‑me de uma vez, pronta para ir embora e deixar aquilo para trás. Mas antes que eu pudesse dar dois passos, senti sua mão envolver meu pulso. Firme o suficiente para me deter, mas calculado para não deixar marca — ele sabia exatamente como tocar para impor poder sem parecer agressivo de primeira. Meu corpo congelou de imediato. Lembranças vieram como um choque: mãos fortes, portas trancadas, o medo de não poder fugir. Respirei fundo, controlei o desespero que subia pelo peito e ergui o olhar para ele com toda a frieza que consegui. — Solta. — Não foi pedido. Foi ordem. Seca, absoluta. Ele soltou na hora, mas aquele olhar continuou ali, cravado em mim como uma marca.

— Pode tentar fugir agora… mas saiba que você ainda vai mudar completamente de ideia em relação a mim. — Disse ele, com uma certeza que me deu calafrios. Afastei‑me de vez, virando‑lhe as costas. — Boa sorte com essa ilusão. Saí andando ao lado de Karen, mas sentia cada passo queimado por aquele olhar que não me largava nem por um segundo. — Nossa… você tratou ele como ninguém nunca fez — comentou ela, rindo um pouco, enquanto andávamos pela rua fria. — Ele ficou todo envolvido com você. Eu balancei a cabeça, inquieta.

— Não foi envolvimento, Karen. Foi obsessão. Ele é exatamente igual ao tipo que eu jurei nunca mais chegar perto. Não viu como ele me olhava? Como se já tivesse decidido tudo sobre mim, como se eu fosse algo que ele pode ir atrás até conseguir. Ela ficou séria de imediato.

— Desculpa… é que não consigo ver tudo isso como você vê. Mas tem razão. Fica esperta, sempre. Ao chegar ao apartamento, tranquei a porta com duas voltas — hábito que nunca mais perdi. Tomei um banho demorado, mas nem a água quente conseguiu lavar aquela sensação de estar sendo observada. Deitei‑me cansada, mas com a mente girando sem parar. Até que o celular vibrou forte ao lado da cama. Meu coração deu um salto desesperado. Tela acesa: número desconhecido. E o pior — a foto que aparecia ali era ele. Damien. Meus dedos apertaram o aparelho até doer. Como ele conseguiu? Como já tinha foto e contato? O desespero antigo voltou todo de uma vez: outro que não aceita não, outro que acha que pode me perseguir, controlar… igual antes. Não atendi. Deixei tocar até parar. Mas aquela sensação estava mais forte do que nunca: eu achei que tinha fugido de tudo… mas agora, de novo, me sinto caçada.   Continua...

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  1. Capítulo 1Capítulo 1 Damien Narrando
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Damien Narrando
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Luna Narrando

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