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Capítulo 2 À Sombra do Sol

Olhando por mais um momento para o reflexo, uma sensação de perplexidade começou a se instalar, um arrepio percorreu sua espinha e dormência começou a se espalhar pelas extremidades. Caindo de joelhos à beira do lago e tomada pela falta de ar, cada vez que encarava a imagem refletida naquela superfície espelhada, seu coração batia alto o suficiente para que fosse possível escutar nos próprios ouvidos.

Não é possível, de quem é esse rosto? Esse rosto não me pertence, ela pensou. Porém a realidade da situação foi ficando cada vez mais aparente. Esse realmente não é o rosto dela? Como era o rosto? E onde ela está? Como ela veio parar nessa zona de guerra?

Quanto mais ela pensava sobre isso, mais sentia sua visão se estreitar. O mundo se inclinava e desfocava nas bordas. Uma dor de cabeça perfurante lhe atingiu, fazendo com que levasse as mãos ao cabelo, pressionando a cabeça com força e agarrando os fios escuros e sujos dos detritos da cena ao redor.

Quem eu sou? Quem eu sou? Quem eu sou?

Quanto mais ela pensava mais a dor de cabeça se aprofundava. Sem conseguir obter nenhuma epifania, ela começou a hiperventilar. Seus olhos se encheram de lágrimas, seus pulmões cada vez mais doloridos ao serem privados do ritmo de respiração adequado. Aos poucos pequenos fragmentos de memória ressurgiram. Tudo que ela podia lembrar era um pequeno fragmento de luz e a sensação pegajosa de algo agarrando seu corpo. Esta última lhe fazia se sentir ainda mais suja e desgastada do que a combinação de terra, sangue, suor e lágrimas reais que cobriam seu corpo.

Quando a dor se tornou cegante e as bordas de sua consciência começaram a escurecer, uma mão agarrou seu ombro de forma brusca, tirando-lhe à força do torpor e do estado de pânico.

- Que porra você tá fazendo? - Uma voz masculina rouca e áspera. Apesar de faltar um pouco de força por trás da pergunta, seja devido ao estado da pessoa ou realmente pela falta de intenção ao xingar, a voz parecia firme e determinada. - Sobreviver esse desastre pra morrer afogada por ter caído em um lago sujo não é muito inteligente.

Olhando para cima, bloqueando a luz do sol, a silhueta de um homem se destacava. O cabelo escuro e olhos verdes brilhantes. Apesar da sujeira que claramente impregnava as roupas e a pele do mesmo, ainda era possível afirmar que este homem era alguém cuja aparência é extremamente marcante.

- Quem é você? - Ela falou pela primeira vez desde que acordou, se dando conta do quão seca sua garganta estava. Essa pequena frase exigiu um grande esforço e ainda assim sua voz soava extremamente rouca, fazendo uma pequena careta de desagrado tanto pela sensação de areia na boca quanto pelo som da própria voz.

O homem levantou a sobrancelha, parecendo um pouco confuso e ao mesmo tempo intrigado. Mesmo assim pareceu aceitar a pergunta.

- Elias... - Ele pareceu aguardar um momento, os olhos analisando-a de cima a baixo e catalogando, como se esperasse algo mais antes de perguntas. - E você? Não parece que você devia estar aqui - afirmou, como se fosse óbvio, como se ela devesse saber o que ele queria dizer.

- Eu não sei.

- O quê? - Ele lhe lançou um olhar exasperado.

- Eu não lembro - ela esclareceu. O mundo parecia um pouco menos confuso agora que tinha algo mais em que focar. Elias aparentava estar ainda mais confuso antes de perguntar um pouco mais bruscamente.

- Como você não lembra?

Ela sentiu algo estalar. Sua enxaqueca parecia que poderia voltar a qualquer momento. Ela estava no meio do nada, não se lembrava de nada e não sentia que pertencia à própria pele, e agora havia um estranho querendo informações que ela não tinha.

- Eu não sei! Não lembro! - respondeu, se sentindo irritada. Ela deu um tapa na mão que segurava seu ombro, fazendo com que ele recuasse. - Se você sabe algo me diz! Não consigo saber se você não me disser, não lembro nada!

Elias recuou, jogando as mãos para cima, ofendido, e olhou para a mão que foi atingida como se não pudesse acreditar que ela tivesse feito aquilo. Ele suspirou mais uma vez antes de comentar em um tom arrependido.

- Tudo bem, desculpe. Pelas suas roupas você não devia estar aqui. Essa é, ou melhor, era uma zona de conflito da vanguarda. - Ele olhou ao redor com um pouco de arrependimento e esperou uma resposta da mulher ainda ajoelhada. Percebeu que a informação não trazia nenhuma familiaridade. Ele suspirou novamente antes de continuar. - Você está usando roupas do templo, provavelmente é uma sacerdotisa. Devia estar na área de cura ou entrar com uma equipe depois que o conflito tivesse acabado, para, sabe... abençoar os mortos e os feridos, coisas assim. - Ele acenou com a mão para o campo aberto.

A única resposta que ele recebeu foi uma inclinação de cabeça confusa. Era como se ele estivesse falando outra linguagem. A garota parecia um passarinho que bateu em uma janela, tão confusa que não conseguia se pôr em pé, mas ele não conseguia ver nenhum ferimento grave. Além da sujeira, algumas contusões, havia um pouco de sangue no canto dos lábios dela, mas ela parecia saudável.

Ou ele pensou até que ela tomou a iniciativa de se levantar, instável e com os joelhos trêmulos como um filhote recém-nascido. Agora que ele conseguia vê-la por completo, pensou que algo não parecia certo.

Ela tinha cabelos longos e escuros, um porte delicado e postura firme. Não parecia abaixo do peso. Com exceção de arranhões nos joelhos e cotovelos nada parecia fora do lugar. Se excluísse a imundície das roupas poderia facilmente categorizá-la como uma jovem dama de média ou alta posição, que em nenhuma circunstância sequer respiraria próximo a uma zona de guerra. Mas aqui estava ela, numa cova a céu aberto de uma vanguarda falha, vestindo o manto de sacerdotisa. Que tipo de família deixaria uma filha tão bem cuidada se dedicar ao templo?

Uma mão delicada se estendeu para afastar os cabelos do rosto com uma careta. Os fios estavam claramente emaranhados e sujos. Ao ver os pulsos da jovem, Elias segurou a respiração. Um anel escuro envolvia o pulso da mesma. Abaixando o olhar, ele percebeu uma lesão igual no outro pulso.

Ouvindo o som da inspiração, ela ergueu os olhos rapidamente, com uma pergunta escrita no rosto. Elias não sabia o que responder ou explicar. Olhando para o pescoço da mesma, agora que a encarava de frente, de repente se sentiu sem palavras. Ali, ao redor da garganta, fazendo um conjunto com as marcas dos pulsos, repousavam as marcas arroxeadas e extremamente definidas de dez dedos. As marcas foram impressas com tal violência que cada um dos dedos podia ser contabilizado.

Elias sentiu o impulso de estender a própria mão para verificar as marcas mais de perto, porém ao receber o olhar desconfiado e arisco se sentiu um pouco estranho e retraiu a mão após pausar por um instante.

Era uma situação verdadeiramente estranha. Nenhum dos dois deveria estar vivo e, de alguma forma, eram os únicos em pé ao meio de algumas centenas de outros mortos. A única outra pessoa sobrevivente sequer parece lembrar como sobreviveu. O mais estranho ainda, apesar de claramente sofrer de perda de memória, ela parece alerta. Após o pequeno colapso seus olhos agora estão afiados e já observando tudo ao redor. Ela não parece ter perdido o senso racional ou a capacidade lógica e, apesar de não ter noção da própria identidade, ainda mantinha seu temperamento, um forte por sinal.

De repente Elias sentiu que não queria se envolver mais do que o necessário. E quanto mais olhava para a jovem que parecia estar debatendo o que fazer, ele rapidamente fez questão de se despedir.

- Já que você não parece mais que vai se matar por acidente, vou indo, boa sorte! - Assim que a última parte da sentença foi falada e ele se virou para começar a caminhar, sentiu um par de olhos afiados cravarem na sua nuca. Um arrepio imediatamente percorreu o local e ele sentiu o couro cabeludo formigar.

Sem dúvida, logo havia alguém caminhando ao seu lado. Não importava o quão trêmula a jovem estava antes, agora não importava o ritmo que ele caminhasse, desde que não corresse ela conseguia acompanhá-lo.

- Por que você está me seguindo? - Ele perguntou entre dentes, parando para encarar sua agora sombra.

- Você parece saber para onde ir - a resposta foi simples e desapegada, acompanhada de um breve encolher de ombros.

Pressionando os olhos por um momento, Elias podia começar a sentir uma enxaqueca se aproximando.

- Você ao menos sabe até onde tem que ir?

Sua pergunta foi recebida com outro encolher de ombros. Então ela pareceu pensar por um momento antes de seus olhos brilharem como se entendesse algo. Elias se sentiu esperançoso, mas então ela pôs os pensamentos em palavras.

- Eu tenho certeza de que perdi alguma coisa, então tenho que encontrar, mas não está aqui - ela disse apontando para os próprios pés.

Tentando não iniciar mais uma discussão com alguém que claramente ainda estava instável, Elias perguntou uma última vez.

- Você sabe em qual região você deixou o que quer que seja isso?

- Não.

Frustrado e ainda mais derrotado do que quando acordou após a batalha, Elias soltou uma respiração exasperada e, escolhendo uma direção aleatória, começou a caminhar novamente.

Dando uma última olhada para a zona de guerra que ficava para trás e então para a jovem ao seu lado, ele não conseguiu afastar a sensação de mau agouro que caía sobre si mesmo como um cobertor e que não tinha nada a ver com a aura de morte que ficava para trás com os corpos dos soldados derrotados.

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Lista de capítulos

15 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Em Lugar Nenhum
  2. Capítulo 2Capítulo 2 À Sombra do Sol
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Quando O Sol Se Apaga

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