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Capítulo 3 Quando O Sol Se Apaga

Por um longo tempo nenhum dos dois falou nada. Seguiram caminhando na direção que Elías havia escolhido, em silêncio. Em algum momento encontraram uma trilha disforme e mal pavimentada, onde a floresta se estreitava em ambos os lados, provavelmente aberta por um dos exércitos responsáveis pelo massacre de antes.

Conforme a aura de morte ficava para trás e o sol, antes alto no céu, começava a dar sinais de repouso, ela refletia sobre a própria situação. Já havia desistido de tentar lembrar de algo algum tempo atrás. Não importava se era uma árvore particularmente retorcida ou uma pedra com alguma forma estranha, nada parecia familiar. Assim, acomodando-se à ausência de suas memórias, decidiu focar na próxima coisa mais tangível ao seu redor: o homem alto de cabelos escuros.  Elías.

Assim como ela, pelo pouco que conseguia perceber, ele também não parecia alguém que deveria estar naquele lugar. Era alto e esguio. Tinha músculos, mas seu físico era mais tonificado e leve do que o adequado para suportar as armaduras e armas pesadas espalhadas pelo campo de batalha. Seu corpo não se parecia com o dos soldados adormecidos.

Se não fosse pela arrogância natural com que observava tudo ao redor, talvez pudesse até ser descrito como desajeitado.

- Como você sobreviveu?

Elías quase tropeçou com a quebra repentina do silêncio e olhou para ela, estupefato.   - Como assim sobrevivi? Eu lutei como todo mundo. Só aconteceu que fui o último de pé.

Sua resposta foi seguida por um silêncio reservado, quase julgador. Ela não se virou para encará-lo e apenas continuou caminhando normalmente.

- Você não acredita? Eu obviamente fui o único que sobreviveu. Minhas habilidades com certeza serviram, sabe...

- Você, sua pirralha, por que perguntar se vai me ignorar?

Ela parou abruptamente, virando-se ligeiramente para ele e levantando uma das sobrancelhas. Elías quase se engasgou com a própria saliva, incrédulo, antes de começar a resmungar.

- Eu estava na parte de trás do batalhão. Um tempo depois de o conflito começar, levei uma pancada na cabeça e desmaiei. Quando acordei, estava embaixo de um monte de corpos. Acho que a vitória do inimigo foi tão unilateral que ninguém se deu ao trabalho de verificar se alguém tinha sobrevivido... e não sobrou ninguém do meu lado. Então só tinha você, quase caindo de cabeça no rio... e eu.

- Então você perdeu e teve sorte. Entendi.

Vendo como ela acenava com a cabeça com seriedade, Elías de repente se sentiu estranhamente ofendido.

- Sua pirralha! Você! Por que-

Elías não teve tempo de terminar o que provavelmente seria um longo discurso em defesa da própria honra. Um barulho de marcha se aproximava rapidamente pela frente.

Ele agarrou o pulso dela e a puxou para a vegetação à beira da estrada, cobrindo sua boca com a própria mão quando os olhos dela se arregalaram. Em seguida levou o indicador aos lábios, pedindo silêncio.

Ela assentiu cautelosamente, e Elías a orientou a se agachar entre as árvores e arbustos.

Não precisaram esperar muito.

O som de vários passos e cascos ficou cada vez mais alto. Prendendo a respiração, os dois se encolheram ainda mais.

O grupo parecia conter algumas dezenas de pessoas. Alguns montavam cavalos, e o tilintar de metal denunciava armas e armaduras.

Quando os passos começaram a diminuir, os dois ouviram latidos.

Os olhos esverdeados de Elías pareceram ficar ainda maiores. Ele cobriu a própria boca com as duas mãos, e sua companheira rapidamente imitou o gesto.

Os latidos ficaram mais próximos.

Em vez de se afastar, aproximavam-se.

Os corações dos dois dispararam. O sangue corria como se fossem coelhos prestes a serem capturados pelas mandíbulas dos cães.  Talvez os animais pegassem o rastro de seu cheiro: uma jovem sacerdotisa acompanhada de um soldado sem armadura, mas ainda vestindo a segunda pele do equipamento nas cores do inimigo.

Talvez fossem decapitados ali mesmo.

Ou levados para interrogatório e executados depois.

Ou mantidos em cativeiro até perceberem que nenhum dos dois tinha valor algum.

- Que porra tem de errado com esses bichos? Eles não param há horas! Vamos, seus idiotas, não tem nada aí! A vanguarda escorraçou todo mundo. Até os bichos devem ter abandonado o mato!

O responsável pelos cães xingou e assoviou, chamando a atenção dos animais. Após alguns instantes, eles finalmente abandonaram qualquer rastro que pudessem ter captado e seguiram em frente, ganindo.   Quando o chão já não tremia mais e os passos desapareceram ao longe, ela e Elías finalmente puderam respirar.  Baixaram as mãos e tocaram o solo com os dedos, como se precisasse se ancorar. Hiperventilavam, os joelhos fracos, levando alguns minutos para recuperar o fôlego.

- Vamos seguir um pouco mais - disse Elías por fim. - Depois entramos na floresta e procuramos um lugar para passar a noite. Amanhã mudamos de direção. Se continuarmos assim, vamos acabar dando de cara com o acampamento principal.

Ele respirou fundo.

- Tivemos sorte. Quando acordamos, a vanguarda deles já tinha ido embora. Estão com pressa para avançar. Esse grupo deve ter vindo limpar e segurar o território.

Ela franziu levemente a testa.

- Quem são "eles"?

-Nosso reino vizinho. Acho que ainda estamos bem perto da fronteira. Uns cinquenta anos atrás uma nova família real assumiu nosso trono. Eles começaram a anexar os reinos menores um atrás do outro até que só sobraram o nosso e mais três reinos maiores. O apetite da família real não diminuiu mesmo depois de tanto tempo, e eles continuam ameaçando os vizinhos que restaram. Acho que a gota d'água para o reino inimigo foi que a família real impôs uma mudança de religião no continente... Não sei se eu devia falar esse tipo de coisa para uma sacerdotisa.

Ele riu, como se achasse a situação engraçada.

Ela, por sua vez, ignorou o comentário e respondeu com expressão séria, sem hesitação.

- E como você sabe que sou uma sacerdotisa? Pelo que você sabe, posso ter roubado a roupa de alguém.

- Roubar do templo é crime!

- Eu não lembro. Você pode condenar alguém por algo que a pessoa não sabe se cometeu? Além do mais... talvez eu realmente seja uma sacerdotisa e te denuncie para o templo.

- Para alguém sem memória você raciocina rápido...

- E para alguém da sua idade você suspira muito.   Elías não conseguia deixar de se sentir perplexo. Como essa garota conseguia falar qualquer coisa sem contrair um músculo do rosto ou sentir o mínimo de vergonha? Realmente um talento a ser apreciado.

Vendo o sol se escondendo e a escuridão manchando os arredores, Elías sinalizou para que parassem. Olhando ao redor da floresta densa, franziu a testa e de repente percebeu um problema fatal.

- Seria um ótimo momento para você realmente ser uma sacerdotisa e invocar uma faísca, porque eu não sei fazer fogo -.

- Que tipo de soldado é você? Mesmo se eu for, é claro que não sei fazer nada. Eu-

- Não lembra, eu sei!

Ele completou a frase e rapidamente agarrou a faixa de couro desgastada que estava presa à própria coxa. Com a outra mão segurou o pulso dela, que sequer piscou.

Ela realmente devia ter um instinto de preservação maior, ele pensou. Porém, a essa altura não adiantava ela estar alerta contra ele. Se algo fosse dar errado por culpa dele, já teria acontecido.

Ele começou a amarrar as mãos deles juntas o mais forte que conseguia, chegando a usar os dentes para puxar a faixa.  Quando terminou, vendo o sol em sua última faixa de luz, explicou rapidamente:

- Escuta. Vamos sentar aqui, bem embaixo dessa árvore. Não vamos nos mexer até amanhecer. Não importa o que aconteça, o que você escute ou sinta, não vamos soltar as mãos um do outro até o sol aparecer de novo. - E se alguém aparecer e ver a gente parado? Não devíamos estar mais perto da estrada? Ela olhou para o caminho de onde vieram e depois para as mãos amarradas.

Elías lançou um olhar estranho para ela, e ela teve a sensação de que estava perdendo alguma informação importante.

- Ninguém vai encontrar a gente. Não vamos conseguir ver nada. Não tem luz à noite. Mesmo que conseguíssemos fogo, só ia aumentar nosso campo de visão em alguns palmos.   Ela não compreendeu exatamente o que Elías quis dizer, mas o seguiu até a árvore e se sentou ao lado dele. Além das mãos amarradas, ele fez questão de segurar as palmas com força.  - Se prepare.

Com esse aviso ele fechou os próprios olhos e encostou a cabeça na casca da árvore, como se fosse dormir.  E logo ela compreendeu o significado das palavras anteriores.

Assim que o sol deu seu último suspiro pelo dia, como se alguém tivesse soprado o astro como a chama de uma vela, toda a luz do mundo se extinguiu.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

15 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Em Lugar Nenhum
  2. Capítulo 2Capítulo 2 À Sombra do Sol
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Quando O Sol Se Apaga

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