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Capítulo 2 Capitulo 2

Era um homem alto, de porte imponente e ombros largos, vestindo um sobretudo escuro que se arrastava levemente pela lama. Seu rosto trazia marcas profundas, mas o que realmente se destacava eram seus olhos: um par de orbes frios, desprovidos de qualquer humanidade, carregando um ódio cultivado ao longo de gerações. Em suas mãos, ele segurava uma arma de grande porte, usinada em prata polida e gravada com símbolos antigos projetados especificamente para neutralizar e destruir a biologia de um licantrope. O homem parou a poucos metros do meu pai. Um sorriso sádico e lento curvou seus lábios finos. Ele ergueu o armamento pesadamente, alinhando a mira com o centro do peito do Alfa. E puxou o gatilho. O disparo não soou como um tiro comum; foi uma explosão abafada e devastadora. O projétil de prata maciça atravessou o tórax do meu pai, destruindo tecido e osso antes de expelir uma névoa de sangue pela sua espinha. O Alfa da Satomi fraquejou. Seus joelhos dobraram. Ele atingiu o solo com um baque pesado, levantando uma nuvem de poeira e sangue. Ele tentou erguer a cabeça, tentou usar a força de sua vontade soberana para se colocar de pé novamente... mas seu corpo não respondeu mais. Minha mãe soltou um uivo. Não era um rosnado de guerra, mas um lamento tão terrivelmente doloroso, tão impregnado de agonia e desespero, que senti minha própria mente estilhaçar ao ouví-lo. Ela ignorou os tiros que começaram a atingir sua própria carne. Ignorou as lâminas que cortavam seu dorso. Correu desesperadamente na direção do seu Alfa, rastejando e investindo contra os homens que tentavam bloqueá-la. Ela nunca conseguiu chegar a tempo de salvá-lo, mas conseguiu alcançar o seu lado. Com as poucas forças que lhe restavam, desabou ao lado do corpo dele. Seus olhares se cruzaram uma última vez. Em um esforço extremo, quase inacreditável para dois corpos destruídos pela prata, eles esticaram os focinhos até que se tocassem delicadamente no chão frio. E então... o silêncio se fez. Em um milissegundo, uma onda de choque invisível percorreu minha mente. O vínculo coletivo da alcateia - aquela teia invisível que conectava os sentimentos, as vozes e as vidas de todos os membros ao seu líder - simplesmente arrebentou. A sensação foi de um vazio absoluto, como se uma parte da minha própria alma tivesse sido arrancada sem anestesia. Naquele preciso instante... eu soube. A presença grandiosa dos meus pais havia se apagado do mundo. Pressionei minhas duas mãos contra a boca com quanta força possuía para abafar o grito de horror que rasgava minha garganta. As lágrimas queimavam meus olhos, descendo quente pelo meu rosto coberto de sujeira. Dentro do meu peito, o filhote havia desaparecido. O lobo interior, despertado precocemente pelo trauma, uivava em fúria cega. Saia daí. Mate todos eles. Beba o sangue daqueles monstros. Vingue a sua linhagem. Cada músculo do meu jovem corpo tencionou. A vontade de saltar daquela toca e me lançar sobre a garganta do homem de sobretudo era quase incontrolável. Eu preferia morrer ali, coberto pelo sangue dos meus pais, a ter que encarar o peso de continuar vivo naquele cenário de desolação. Mas no exato momento em que ensaiei um movimento para frente, senti o tremor do meu irmão mais novo ao meu lado. Senti sua mão pequena buscando refúgio na minha camisa. As últimas palavras da minha mãe ressoaram com clareza cristalina no meu peito: Proteja seus irmãos. Se eu saísse dali, se eu permitisse que a fúria cega me guiasse para a morte, não haveria ninguém para protegê-los. A Linhagem Satomi terminaria manchando o chão daquela floresta desgraçada. Eu precisei engolir o grito. Engoli o choro, o desespero e a dor dilacerante da perda. No lugar daqueles sentimentos humanos, deixei que uma pedra fria e dura se formasse no centro do meu peito. A raiva pura transformou-se em algo muito mais perigoso: determinação indomável. Fixei meus olhos no caçador de sobretudo escuro através das raízes. Gravei cada milímetro daquele rosto vil. A linha fina de seus lábios, a cicatriz profunda que cortava sua bochecha esquerda, o tom acinzentado de seus olhos frios e o modo como ele limpava o sangue do seu armamento com desdém. Respirei fundo, sentindo o cheiro da morte se impregnar na minha memória olfativa para sempre. - Eu vou sobreviver - murmurei para a escuridão da toca, num tom tão baixo que nem mesmo os sentidos treinados dos homens lá fora puderam captar. Ergui ligeiramente o queixo, selando o destino daquele caçador e o meu próprio. - Eu vou encontrar você. E quando esse dia chegar... não haverá misericórdia neste mundo que possa salvar a sua vida. Vou fazer você pagar por cada gota de sangue derramada nesta terra. Meu nome é Dário Satomi. Hoje tenho trinta anos de idade. E sou o Alfa soberano da Alcateia Satomi. Duas décadas se passaram desde aquela noite de massacre. Vinte anos reconstruindo o que os humanos julgaram ter destruído para sempre. Tirei meus irmãos daquela floresta tingida de morte. Submeto-me a privações, treinei meu corpo e minha mente até o limite da exaustão humana e lupina. Erguemos nossa nova comunidade nos confins mais profundos e inexplorados da cordilheira ocidental, um lugar onde a civilização humana jamais ousou pisar com facilidade. Tornei-me a força que a alcateia precisava. Aprendi a controlar o lobo furioso dentro de mim, transformando a raiva desenfreada em um poder frio, calculado e absoluto. Sob o meu comando, os Satomi ressurgiram das cinzas. Fortalecemos nossas fronteiras, treinamos nossos guerreiros e estabelecemos leis rígidas de sobrevivência. Dentro do nosso território, meu termo é a lei. Todos os membros da alcateia me respeitam profundamente. Muitos, até mesmo entre os mais velhos, me temem pela intensidade da minha presença e pela postura implacável que mantenho diante de qualquer ameaça. Porém, o poder, o território e a lealdade do meu povo jamais foram capazes de apagar as cicatrizes daquela noite. Basta fechar os olhos por um segundo a mais para que as lembranças retornem com a força de um soco no estômago. Ainda vejo meus pais caindo lado a lado na lama. Ainda escuto o som ensurdecedor dos tiros ecoando pelas montanhas. Ainda sinto o gosto amargo do sangue daquela chacina. E, acima de tudo, a promessa feita aos dez anos permanece intacta no meu peito. Eu nunca esqueci o rosto do homem que comandou a destruição da minha família. A busca por ele continua sendo a sombra que guia meus passos nas horas mais escuras. Nossa aldeia atual é um refúgio de madeira e pedra perfeitamente integrado à natureza intocada. Cabanas robustas erguem-se entre árvores de portes gigantescos, rodeadas por riachos de águas cristalinas, campos abertos para treinamento de combate e uma rede impenetrável de patrulhas constantes. Vivemos em paz. Uma paz aparente, sustentada pela vigilância ininterrupta dos nossos melhores guerreiros. Mantemos a regra de ouro da alcateia intacta desde a tragédia: zero contato com a sociedade humana. A lição dada pelo passado foi gravada a ferro e fogo na nossa história. Confiar nos humanos é um erro que custa vidas, e eu jamais permitirei que o meu povo pague esse preço novamente enquanto eu for o Alfa. Entretanto, o tempo passa, e com ele surge uma nova geração que não viveu o horror do passado. Jovens que cresceram ouvindo histórias sobre os massacres, mas que nunca sentiram o cheiro do acônito ou o peso de uma bala de prata. Alguns deles começaram a olhar para além das nossas montanhas com uma curiosidade perigosa, questionando os isolamentos e as tradições ancestrais. Naquela manhã em particular, o sol começava a rasgar a névoa densa que cobria o vale. Caminhei até as margens do lago principal do nosso território. A superfície da água era um espelho perfeito, refletindo o azul límpido do céu e as copas majestosas dos pinheiros ao redor. Aqueceu o vento frio da manhã contra o meu rosto enquanto me sentava em uma rocha plana à beira da água. Abaixei-me, peguei uma pequena pedra lisa no chão e a arremessei com precisão. A pedra quicou quatro, cinco, seis vezes sobre a superfície antes de afundar suavemente no centro do lago, criando círculos concêntricos que distorciam o reflexo das árvores. Minha mente vagava por estratégias de ronda e pelo treinamento dos novos recrutas, até que o som suave de passos se aproximando pela mata chamou minha atenção. Não eram passos descuidados; eram movimentos ágeis de predadores de grande porte. Dois enormes lobos emergiram do denso arbustal a poucos metros de mim. Um deles possuía pelagem castanha avermelhada e ombros largos; o outro era ligeiramente menor, de pelos cinzentos e postura incrivelmente veloz. Assim que pisaram na clareira à beira do lago, os dois animais saltaram no ar, ativando a transformação. Em questão de segundos, o estalar característico de ossos se reajustando ecoou suavemente, e onde antes estavam os predadores, agora surgiam dois homens jovens de porte atlético. Um sorriso contido surgiu no meu rosto ao encarar aquelas duas figuras. Adamastor e Rudi. Meus irmãos menores. Os filhotes que um dia protegi entre as raízes de um carvalho enquanto nosso mundo desmoronava. Ambos haviam se tornado homens fortes, guerreiros capazes e de inteligência afiada. E, para o meu constante teste de paciência, haviam se tornado especialistas em causar problemas e testar os meus limites dentro do conselho da alcateia. Adamastor, o mais velho dos dois, aproximou-se limpando a poeira das calças de couro e cruzou os braços largos sobre o peito musculoso. - Dário... por que você sempre escolhe os lugares mais isolados para ficar pensando na vida? Olhei para ele de soslaio, mantendo a postura ereta sobre a pedra. - Porque aqui é o único lugar desta aldeia onde consigo alguns minutos de paz longe das suas obrigações e da sua tagarelice. Rudi, que vinha logo atrás soltando uma gargalhada curta, caminhou até a margem e jogou um punhado de água no rosto para espantar o cansaço da patrulha matinal. - Paz? Sei muito bem qual é a sua ideia de paz, meu irmão. Ou será que o Alfa soberano está apenas fugindo do grupo de jovens fêmeas que passou a manhã inteira tentando arranjar uma desculpa para vir até a sua casa? Balancei a cabeça lentamente, soltando um suspiro de negação. - Vocês dois realmente não têm mais nada o que fazer a não ser vir até aqui para perturbar o meu sossego? Os dois se olharam e deram risada juntos. Apesar do peso que eu carregava diariamente como líder, ver a alegria e a vivacidade no rosto de Adamastor e Rudi trazia um alívio indescritível para o meu peito. Todo o sacrifício, todo o sangue e todas as noites mal dormidas valiam a pena ao constatar que eles haviam crescido livres da sombra da dor que quase nos destruiu.

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Lista de capítulos

14 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Dario
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Capitulo 2
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Capitulo 3

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