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Capítulo 3 Capitulo 3
- O que trouxe vocês até aqui, afinal? - perguntei, adotando um tom um pouco mais suave. - O que meus dois pequenos lobos querem agora? No mesmo instante, a expressão de ambos mudou. As feições de Adamastor e Rudi se contraíram em uma careta simultânea de indignação. - Já falamos mil vezes para você parar de nos chamar assim! - protestaram em coro, exatamente da mesma forma como faziam quando tínhamos dez e doze anos a menos. Não consegui segurar o riso baixo que subiu pela minha garganta. - Enquanto eu for o Alfa e o irmão mais velho de vocês, continuarei chamando como eu bem entender. Acostumem-se. Adamastor soltou um suspiro pesado, fingindo irritação enquanto ajeitava a postura. - Um dia a gente descobre um jeito de arrancar esse apelido ridículo da sua boca na base da força. - Fiquem à vontade para tentar a sorte quando quiserem - respondi, arqueando uma sobrancelha com um desafio mudo. - Sabem exatamente onde fica o campo de treinamento. O clima descontraído e leve que sempre marcava nossas interações familiares começou a se dissipar de forma abrupta. Percebi o momento exato em que a atmosfera ao nosso redor mudou. Adamastor e Rudi trocaram um olhar rápido. Não era um olhar de cumplicidade brincalhona, mas uma troca de sinais carregada de hesitação e nervosismo. O corpo de ambos se tensionou, e as posturas relaxadas deram lugar a um alinhamento rígido e defensivo. Havia algo seriamente errado. O instinto do meu lobo interior ergueu as orelhas mentalmente, colocando-me em estado de alerta máximo. Ajeitei minha posição sobre a rocha e cruzei os braços, encarando-os com o olhar afiado que reservava para as reuniões do conselho. - Falem de uma vez. O que aconteceu? Nenhum dos dois respondeu de imediato. O silêncio que se seguiu foi incômodo, quebrado apenas pelo ruído suave da água do lago batendo contra as pedras da margem. - Vocês aprontaram alguma coisa nas fronteiras? - pressionei, aumentando ligeiramente a gravidade da minha voz. - Atravessaram os limites estabelecidos sem a minha autorização? Adamastor ergueu as duas mãos abertas em um gesto rápido de defesa. - Não! Não é nada disso, Dário. Nós respeitamos as patrulhas. Rudi deu um passo à frente, confirmando rapidamente com a cabeça. - Ninguém invadiu o território e nós não quebrámos nenhuma regra de segurança. Dessa vez não tem nada a ver com as fronteiras. - Então qual é o motivo desse suspense todo? - retruquei, a paciência diminuindo a cada segundo. - Vocês parecem dois recrutas prestes a receber uma punição. Diga o que está acontecendo de uma vez. Eles respiraram fundo ao mesmo tempo, buscando coragem para encarar a autoridade que emanava do meu olhar. Adamastor deu um passo à frente, assumindo a responsabilidade como o mais velho entre os dois. - Nós queremos sair da reserva, Dário. Queremos ir viver entre os humanos. A frase ecoou no ar como um golpe físico. Fiquei absolutamente imóvel sobre a rocha. Por um breve instante, cheguei a considerar a possibilidade de ter ouvido mal, ou de que aquilo fizesse parte de mais uma das brincadeiras de mau gosto que eles costumavam planejar. Mas a rigidez no rosto dos meus irmãos e a seriedade nos seus olhares sepultaram qualquer dúvida. - O quê? - A palavra saiu da minha boca fria, baixa e perigosa. Rudi adiantou-se rapidamente, temendo a minha reação imediata. - Não estamos falando de abandonar a alcateia ou renunciar à nossa família! Não é nada disso. Nós só... só queremos ter a chance de conhecer o mundo lá fora. Queremos estudar de verdade. Fazer uma faculdade, ter uma profissão, ter amigos humanos sem precisar esconder quem somos a cada segundo. Queremos ir a festas, ver o funcionamento das grandes cidades, experimentar como é ter uma vida normal como a deles. O meu lobo interior não apenas rejeitou a ideia; ele rugiu em fúria dentro do meu peito. A mera menção de colocar meus irmãos no meio daquela raça desprezível fez o meu sangue ferver instantaneamente. Levantei-me da rocha com um movimento lento e calculado, mas carregado de uma aura tão pesada e opressiva que a vegetação ao redor pareceu encolher. A aura do Alfa dominou o espaço entre nós, fazendo com que o ar ficasse denso e difícil de respirar. - Vocês perderam completamente o juízo? - perguntei, dando um passo lento na direção deles. Minha voz reverberava com a força de um comando supremo. Adamastor e Rudi mantiveram-se de pé, embora eu pudesse ver o esforço que faziam para não ceder à pressão biológica da minha presença. - Vocês esqueceram quem são os humanos? - avancei mais um passo, encarando-os com olhos que começavam a faiscar em um tom dourado e perigoso. - Esqueceram o que aqueles monstros fizeram com a nossa família? Esqueceram como eles massacraram o nosso pai, como caçaram a nossa mãe até o último segundo de vida dela? O silêncio deles foi a resposta, mas a determinação não desapareceu de seus rostos. - Quantos guerreiros da nossa linhagem morreram por cometer o erro estúpido de confiar em humanos? - minha voz subiu de tom, cortando a tranquilidade da manhã como uma lâmina. - E agora vocês vêm até mim dizer que querem caminhar no meio deles? Que querem ir para as cidades deles brincar de ter uma vida comum? Adamastor abaixou a cabeça por um breve segundo, sentindo o peso das minhas palavras, mas não recuou um único milímetro. - Nós não esquecemos nada, Dário - disse ele, erguendo o olhar novamente com uma firmeza que há muito tempo eu não via nele. - Nós estávamos lá naquela noite. Nós nos lembramos de cada segundo daquele horror, assim como você. - Então por que insistem nessa aberração? - questionei, exasperado. Foi Rudi quem respondeu, dando um passo destemido para ficar ao lado do irmão. Sua voz trazia uma mistura de dor e uma necessidade desesperada de liberdade. - Porque nós não queremos passar o resto das nossas vidas escondidos no meio desta floresta como se fôssemos monstros acuados! Não queremos viver apenas em função do medo do passado. A resposta dele atingiu o centro do meu peito com a força de um impacto devastador. O silêncio voltou a dominar a clareira. O vento frio da montanha soprava suavemente, fazendo as copas das árvores balançarem e as águas do lago criarem pequenas marolas contra as pedras. Dentro de mim, uma batalha feroz se estabeleceu. De um lado, o meu coração devastado pelo passado gritava que eu deveria trancá-los dentro do território, proibi-los categoricamente de dar um único passo fora das nossas fronteiras e protegê-los de todo e qualquer perigo do mundo humano, nem que para isso precisasse usar a minha autoridade de Alfa. Do outro lado, o meu instinto mais profundo como irmão mais velho, aquele que fez uma promessa sobre o corpo caído dos nossos pais, encarava a realidade. Eu havia jurado proteger a vida dos meus irmãos a qualquer custo. Mas agora, olhando para a determinação nos olhos daqueles dois homens que ajudei a criar, uma pergunta dolorosa começou a corroer minha mente: protegê-los significava mantê-los seguros em uma gaiola de ouro... ou permitir que eles enfrentassem o mundo para encontrarem o próprio destino, mesmo que esse caminho nos levasse de volta para o coração do território inimigo?
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