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Capítulo 3 Episódio 2: Uma Certeza Perigosa
Em 2003, aos quatorze anos, Gaby continuava tão certa de seu futuro quanto estivera durante a infância. Ela e Beto já não eram apenas as duas crianças que todos diziam que um dia se casariam. Agora namoravam, e o que antes existia como uma promessa feita pelas mães começava a ganhar, para Gaby, o significado de uma escolha. Romântica, nunca enxergara aquele namoro como uma experiência passageira. Era apenas o começo de uma história cujo final acreditava conhecer. Um dia terminariam os estudos. Depois viriam faculdade, trabalho, casamento, filhos. Ela não sabia exatamente quando cada coisa aconteceria. Mas sabia com quem. Beto. Naquele mesmo ano, uma nova família chegou a Minaçu. Os Pacheco vieram do interior de São Paulo e se instalaram na cidade em meio ao crescimento econômico da região. Paulo Pacheco comprou uma casa grande, abriu uma pousada e matriculou os filhos na escola local. Luiz Gustavo logo encontrou seu espaço. A irmã também. Janecelly. Jane, como preferia ser chamada. No primeiro dia em que entrou na sala, chamou atenção sem fazer qualquer esforço para isso. Gaby estava conversando com Flávia e Cida quando a professora entrou acompanhada da aluna nova. - Pessoal, esta é Janecelly Pacheco. A família dela acabou de se mudar para Minaçu. Espero que vocês a recebam bem. Jane percorreu a sala com os olhos. - Pode me chamar de Jane. A professora indicou uma carteira vazia. Pouco depois, no intervalo, Gaby foi a primeira das três amigas a se aproximar. - Oi. Eu sou Gabriela. - Eu sei. Gaby se surpreendeu. - Sabe? - A professora falou seu nome na chamada. - Ah. Jane sorriu. - Mas todo mundo chama você de Gaby, não é? - Chama. Essas são Flávia e Cida. As meninas se apresentaram. Jane parecia segura demais para alguém que acabara de chegar a uma cidade onde não conhecia quase ninguém. - Você veio de São Paulo? - Cida perguntou. - Do interior. - Está gostando daqui? Jane olhou ao redor. - Ainda não decidi. Gaby riu. - Você chegou agora. - Por isso ainda não decidi. Havia alguma coisa diferente nela. Um jeito de falar sem preocupação com o que os outros pensariam. Gaby achou interessante. Quando o intervalo terminou, Jane já caminhava com as três. Nos dias seguintes, passou a acompanhá-las com frequência. Não demorou para ouvir a história que todos em Minaçu pareciam conhecer. Aconteceu quando Beto apareceu na saída da escola. Ele se aproximou de Gaby, beijou seu rosto e pegou sua mochila. Jane observou. - Quem é? Flávia respondeu antes de Gaby: - Beto. - Namorado dela - acrescentou Cida. Jane olhou novamente. - Bonito. Gaby sorriu. - É. - Vocês namoram há muito tempo? Flávia começou a rir. - Muito mais do que você imagina. - Como assim? - Eles vão se casar. Jane olhou para Gaby. - Já estão noivos? - Não! - Gaby respondeu, rindo. - Então por que vão se casar? Cida se adiantou: - Porque eles são prometidos. Jane franziu a testa. - Prometidos? - Desde antes de Gaby nascer - explicou Flávia. Dessa vez, Jane não riu. Gaby já conhecia aquela reação. Quem ouvia a história pela primeira vez quase sempre ficava surpreso. Por isso contou o restante: falou sobre a amizade entre as duas famílias e sobre a promessa feita antes de seu nascimento. Terminou sorrindo. Jane permaneceu em silêncio. - O que foi? - Gaby perguntou. - Nada. - Você fez uma cara estranha. Jane olhou para Beto, que esperava Gaby alguns metros adiante. Depois voltou os olhos para ela. - Você realmente acredita nisso? - Nisso o quê? - Que vocês nasceram para ficar juntos. Gaby sorriu. - Acho que sim. - Porque suas mães decidiram? - Não é assim. - Parece exatamente assim. Gaby sentiu-se incomodada. - Eu gosto do Beto. - Então é diferente. Você está com ele porque quer. - Claro. Jane inclinou levemente a cabeça. - E se um dia não quiser mais? Gaby não soube o que responder. Nunca havia pensado naquilo. Não daquele jeito. - Não vai acontecer. - Como sabe? - Porque eu amo o Beto. Jane voltou a olhar para ele. - E ele ama você? - Ama. - Então tudo certo. Jane sorriu. Mas havia alguma coisa naquele sorriso que Gaby não conseguiu compreender. - Vamos? - Beto chamou. Ele conversava com Fred enquanto esperava. Os dois riam de alguma coisa, até que Fred desviou os olhos para as meninas. Seu olhar passou por Gaby e se demorou em Jane. Ela percebeu. Por um instante, os dois se encararam. Fred esboçou um sorriso, curioso, claramente interessado na garota nova que acabara de entrar para o grupo de amigas de Gaby. Jane apenas desviou o olhar. - Já vou - respondeu Gaby. Despediu-se das amigas e correu até os rapazes. Beto passou o braço por seus ombros, enquanto Fred ainda lançou um último olhar na direção de Jane antes de seguir com os dois. Jane permaneceu parada diante da escola, observando-os se afastar. Tinha acabado de chegar a Minaçu, mas já havia descoberto a história que todos naquela cidade pareciam considerar escrita: Beto e Gaby, unidos por uma promessa feita antes do nascimento e por um casamento tratado como destino. Jane não acreditava em destino. E, naquele instante, decidiu que aquela história ainda estava longe de ter um final.
*** 💬 NOTA DA AUTORA Jane acabou de chegar a Minaçu e já fez a pergunta que ninguém parecia fazer: Gaby e Beto estão juntos porque escolheram um ao outro... ou porque cresceram acreditando que deveriam ficar juntos? E você? Até aqui, acha essa promessa romântica ou perigosa? 👀 Se gostou do capítulo, deixe seu like. Seu apoio ajuda Prometida ao Homem Errado a alcançar mais leitores. ❤️ Nelma de Paula
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