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Capítulo 2 A conversa de mãe e filha
O salão de chá de Helena ficava no fim do corredor leste e era o único cômodo da mansão que parecia respirar. Havia orquídeas brancas nas janelas, poltronas de linho cru, estantes cheias de livros em italiano e porta-retratos de prata em todas as superfícies: Evelyn bebê no colo do pai, Evelyn de uniforme no primeiro dia de aula, Evelyn e Henrique adolescentes, lado a lado numa gangorra, rindo de alguma coisa que ninguém mais lembrava. Helena fechou a porta atrás delas e girou a chave. Era um gesto raro. A mansão tinha mais seguranças que um banco, mas ela sempre quis um lugar onde pudesse ser só mãe. - Sente aqui. - Indicou a chaise longue sob a janela. Evelyn ainda usava o vestido; Madame Odile prometera mandar a ajudante desfazer os colchetes dali a pouco. A saia ocupava meio sofá em ondas de seda. - Você parece uma nuvem que resolveu descansar. - Uma nuvem muito apertada. - Evelyn sorriu. Depois, como a mãe não retribuiu, perguntou: - Mamãe? Aconteceu alguma coisa? - Nada. - Helena foi até uma cômoda de madeira escura, abriu a gaveta de cima e tirou uma caixa de veludo cinza. - Só passei a vida inteira me preparando para este momento e não tenho a menor ideia de por onde começar. Sentou-se ao lado da filha e abriu a caixa. Dentro, sobre um leito de cetim, havia um colar de pérolas pequenas e irregulares, de brilho antigo, amareladas como marfim velho. - Era da minha avó - disse. - Ela o usou no dia do casamento, minha mãe também, e eu também. Algo velho. Ainda faltam o novo, o emprestado e o azul, mas isso a gente resolve na véspera. - Passou o colar em volta do pescoço de Evelyn e fechou o fecho com dedos que tremiam um pouco. - Pronto. Agora você pesa trezentos anos a mais. Evelyn tocou as pérolas. Eram frias e tinham imperfeições que a ponta dos dedos reconhecia como se sempre as tivesse conhecido. - Obrigada, mamãe. - Não agradeça ainda. - Helena respirou fundo. - Preciso dizer coisas que uma mãe diz na véspera do casamento. Só que as minhas não são exatamente as que a minha mãe me disse. Ela me mandou sorrir e ter paciência. Eu vou te dizer outra coisa. Evelyn esperou. - Primeiro: eu sei sobre Henrique. O coração de Evelyn deu um solavanco. - Sabe o quê? - Que você o ama desde os oito anos. - Helena sorriu, com tristeza. - Mãe sabe, Evelyn. Eu vi você olhar para aquele menino durante catorze anos. Vi você inventar desculpa para ir aos jantares dos Vasconcelos, vi você ficar acordada quando ele viajava. E vi o seu rosto naquela tarde de junho, quando voltou do jardim dizendo que estava tudo bem. Os olhos de Evelyn arderam. Ela olhou para as pérolas, para as próprias mãos, para qualquer lugar que não fosse o rosto da mãe. - Ele ama outra pessoa. - Eu sei. - Helena tomou a mão dela. - E sinto tanto, minha vida. Pedi a seu pai que cancelasse. Implorei, na verdade. Disse que não queria que você entrasse numa casa onde seria a segunda opção de alguém. Ele me ouviu, e chorou, e depois me disse o que eu já sabia: que o tratado é a única coisa que mantém nossas famílias vivas. Que, se for rompido, haverá guerra. Que as crianças de hoje serão os mortos de amanhã. - Eu entendo - murmurou Evelyn. - Eu sei que entende. É o que mais me dói. Você sempre entendeu tudo cedo demais. - Helena apertou a mão dela. - Mas escute o que eu vou dizer e guarde: casamento nenhum, por mais assinado que esteja, dá a alguém o direito de te fazer pequena. Nem a Henrique, nem ao pai dele, nem ao seu pai, nem a mim. Você é uma Castellani, mas é muito mais do que um sobrenome. - Eu sei. - Não. - O olhar de Helena ficou firme. - Prometa. Prometa que, se um dia ele a machucar, de qualquer maneira, com a mão, com a palavra, com o silêncio, você não vai ficar para provar nada a ninguém. Que vai gritar, se for preciso. E que vai embora. Evelyn engoliu em seco. - Henrique nunca me machucaria, mamãe. Ele não é esse tipo de homem. - Provavelmente não. Eu também acho. Mas só vou dormir em paz quando você me prometer. - Prometo. - E, se precisasse sumir, para onde iria? - perguntou Helena, num sussurro, como quem propõe uma brincadeira de criança. Evelyn quase riu. - Para a Itália. Para a vila da vovó. - Lá ninguém pergunta quem você é antes de oferecer pão. - Helena sorriu. - Guarde isso também. Ficaram em silêncio por um momento. Pela janela, o jardim tinha a cor suave do fim da tarde, e os regadores automáticos giravam sobre os canteiros de hortênsias com um tique-tique manso, o som mais tranquilo do mundo. - Segundo - continuou Helena, e dessa vez havia um brilho divertido no canto da boca. - A noite de núpcias. - Mamãe! - Evelyn sentiu o rosto pegar fogo. - Precisa mesmo? - Precisa. Porque ninguém me disse nada, e eu tremi a noite inteira sem saber de quê. - Helena ajeitou a saia do vestido, ganhando tempo. - Eu só vou te dizer o essencial. O seu corpo é seu. Sempre foi, e continua sendo depois de uma aliança no dedo. A primeira vez é um misto de medo e curiosidade, até com quem a gente ama. Um homem que merece esse nome pergunta, espera, escuta. E, se ele não escutar o não, você não deve nada a ele. Nem silêncio, nem perdão, nem explicação. Evelyn ficou muito quieta. Havia algo na seriedade da mãe que a fazia entender que aquelas não eram palavras de véspera de festa, mas de alguém que sabia o preço de cada uma. - A senhora e o papai... - arriscou. - Como foi? - Eu o achava arrogante - respondeu Helena, e os olhos se encheram de uma luz muito antiga. - Ele me achava teimosa. Nos conhecemos num jantar de famílias em que nenhum dos dois queria estar. Estávamos certos os dois: ele era arrogante, eu era teimosa. E ainda assim, em três meses, eu já não sabia respirar sem ele. Hoje eu sei que o amor não é a ausência de defeitos, minha filha. É escolher a mesma pessoa de manhã, mesmo sabendo exatamente quem ela é. Evelyn riu e chorou ao mesmo tempo, e Helena riu e chorou com ela. Abraçaram-se em cima da chaise longue, a seda amassando entre as duas, o colar de pérolas roçando o pescoço de Evelyn, o cheiro de jasmim do perfume da mãe, o mesmo perfume de toda a vida. - Eu queria te dar um casamento por amor - murmurou Helena, com o rosto afundado nos cabelos dela. - Perdão por não ter conseguido. - A senhora me deu a única coisa de que eu precisava - respondeu Evelyn. - Saber que sempre posso voltar para casa. Helena se afastou um pouco para olhá-la. Passou o polegar pelo rosto da filha, secando uma lágrima, e depois outra. - Vamos descer - disse, por fim, tentando recompor a voz. - Seu pai deve estar impaciente para ver o vestido. Se ainda estiver naquela reunião, eu o tiro de lá pelo braço. Foi então que Evelyn ouviu. Um estalo seco, vindo do andar de baixo, curto e abafado, como uma porta batendo. - Foi uma porta? - perguntou. Helena não respondeu. Tinha a cabeça virada para o chão, como se pudesse ver através dele, e o sorriso se desmanchava devagar do rosto. - Rosa derrubou uma bandeja - disse, mas a voz saiu sem convicção. Veio um segundo estalo. E um terceiro.
Lista de capítulos
38 capítulos no total
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