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Capítulo 3 O compartimento secreto
O terceiro estalo foi seguido por um grito. Evelyn conhecia o som de tiros. Toda criança criada numa casa como aquela conhece, mesmo que nunca tenha ouvido um de verdade: o corpo sabe antes da cabeça. Os pelos dos braços se eriçaram, e o estômago afundou como se o chão tivesse cedido. Helena já estava de pé, a caixa de veludo caída aos seus pés, a mão estendida para trás num gesto instintivo de proteção. - Fique atrás de mim - disse, com uma voz que Evelyn nunca tinha ouvido, calma e baixa, a voz de quem ensaiou aquele momento por vinte e dois anos sem jamais desejar que ele chegasse. A porta do salão estremeceu sob uma pancada. Alguém girou a maçaneta, forçando. Depois, a voz do pai, rouca, do outro lado: - Helena! Abra! Sou eu! Helena girou a chave. Vittorio entrou como uma tempestade. Estava sem paletó, a camisa branca manchada de vermelho no ombro esquerdo, uma pistola na mão direita, os cabelos grisalhos em desalinho. O homem que calava salões inteiros tinha o rosto cinzento e os olhos muito abertos, e naquele rosto, pela primeira vez na vida, Evelyn viu medo. - Pai! O senhor está ferido! - Não é nada. - Vittorio trancou a porta, empurrou a cômoda contra ela com um rugido de esforço. - São os sócios. Os sócios, Helena. Entraram pela cozinha. Os homens do portão estão... - Engoliu o resto da frase. - Temos poucos minutos. O escritório. Agora. - O escritório? - A voz de Evelyn saiu fina. - Pai, o que está acontecendo? - Não faça perguntas, princesa. Segure o vestido e corra. Foi a corrida mais longa da vida dela. O corredor leste parecia ter se esticado, e as pérolas do vestido batiam nas pernas, a cauda se enroscava nos pés, a seda arranhava a pele. Evelyn apertou os metros de tecido contra o peito. Vidro se estilhaçou em algum ponto da casa. Um homem gritou em italiano, outro respondeu em inglês, e passos pesados subiram a escada principal, no ritmo de quem não tem pressa nenhuma. Na curva do corredor, Dona Rosa surgiu com o avental torto e os cabelos soltos pela primeira vez em trinta anos. Viu Evelyn de noiva, correndo, e persignou-se. - Rosa! - berrou Vittorio. - Para a adega! Tranque por dentro e não abra para ninguém! Para ninguém, está ouvindo? Rosa assentiu, o rosto desfeito, e correu na direção contrária. A última coisa que Evelyn viu dela foi o coque grisalho desaparecendo na escada de serviço. O escritório ficava no fim do corredor, atrás de uma porta de carvalho maciço. Vittorio a abriu com o ombro, empurrou as duas mulheres para dentro e a trancou com três voltas de chave e uma barra de ferro que Evelyn nunca vira antes. A sala era a mesma de sempre, e por isso mesmo parecia irreal: as estantes até o teto, o globo antigo ao lado da janela, o retrato a óleo do avô Castellani sobre a lareira, a mesa de mogno do tamanho de uma cama de casal, com o tinteiro de prata que Evelyn tinha o hábito de girar quando era pequena. Vittorio atravessou a sala em quatro passadas. Parou diante da estante atrás da mesa, passou a mão por entre os entalhes da madeira e apertou uma rosa esculpida que parecia igual a todas as outras. Houve um clique. Um painel inteiro de livros deslizou para dentro, revelando um vão escuro, estreito e fundo, do tamanho de um armário de vassouras. - Mandei construir quando você nasceu - disse ele, a voz embargada. - Rezei todos os dias para nunca precisar usar. Evelyn olhou o vão. Olhou o pai. Olhou a mãe. O raciocínio chegou devagar e depois de uma vez só. - Só cabe uma pessoa. - Cabe você - disse Helena. - Não! - O grito saiu antes que ela pudesse segurá-lo. - Eu não vou sem vocês! Eu não vou, eu não vou, vamos todos para a adega, para a garagem, para qualquer lugar... - Evelyn. - Vittorio segurou o rosto dela entre as mãos enormes e ásperas. O sangue do ombro lhe sujou o queixo, e ele nem notou. - Escute. Eles não sabem que você está em casa. Vão perguntar por você. Rosa vai dizer que você foi estudar na Escócia, e vão acreditar, porque ninguém ia imaginar uma Castellani de vestido de noiva no meio da casa a duas semanas do casamento. Se você sair daqui com a gente, é a primeira que eles pegam. Se ficar, é a única que sobrevive. Entendeu? - Pai... - Entendeu? - Entendi - soluçou ela. Passos soaram no andar de cima. Alguma coisa pesada caiu no chão, e uma voz masculina riu. Helena agiu como quem faz uma tarefa que já fez mil vezes na imaginação. Dobrou a saia do vestido, comprimiu as camadas de tule, ajeitou as mangas, enfiou a cauda entre os pés da filha e a guiou para dentro do vão. Foi um encaixe apertado, cheio de seda e de pérolas, e o cheiro de cedro e poeira subiu pelo nariz de Evelyn, junto com o jasmim do perfume da mãe. - Encolha os braços. Assim. Respire pouco. - Helena pegou o rosto da filha com as duas mãos, beijou-lhe a testa, as pálpebras, a ponta do nariz, como fazia quando ela era pequena. - Eu te amo, minha menina. Seja corajosa. E lembre-se da promessa. - Mamãe, por favor... Vittorio se aproximou. Os olhos dele, tão escuros e secos a vida inteira, estavam úmidos. - Não faça nenhum som, princesa. Aconteça o que acontecer. Você me ouviu? Aconteça o que acontecer. - Encostou a testa na dela por um segundo longo demais. - Eu te amo mais do que à minha própria vida. - Pai! O painel deslizou. A luz do escritório se estreitou numa faixa, depois num fio, depois sumiu. Houve um clique, e Evelyn ficou no escuro, de pé, imprensada entre a madeira e a própria saia, o coração martelando as costelas, as mãos coladas à boca para impedir que o grito escapasse. O escuro tinha cheiro de cedro, de poeira e do perfume da mãe. Quando os olhos se acostumaram, ela descobriu uma fresta fina, do tamanho de um dedo, escondida entre dois entalhes da madeira, na altura exata do seu rosto. Por ela entrava um traço de luz amarelada do escritório. Evelyn quase não conseguia ver além do tapete e do pé da mesa. Ouviu o pai arrastar uma cadeira. Ouviu a mãe sussurrar alguma coisa, uma oração ou um nome. Ouviu o relógio da lareira, tic, tic, tic, medindo o fim do mundo. A porta de carvalho estremeceu. Uma vez. Duas. Na terceira, a madeira cedeu com um estrondo de lascas, e o ar da sala mudou, pesado de gente. - Boa tarde, Vittorio - disse uma voz de homem, serena, educada, quase afável. Evelyn pressionou a mão contra a boca. As pérolas do colar da bisavó, frias, se apertaram contra a sua garganta. Ela fechou os olhos, abriu de novo, e não respirou.
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