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Capítulo 2 01
Nina
Acordei naquela manhã com o coração disparado. A primeira coisa que meus olhos buscaram foi o berço ao lado da cama... vazio. Meu peito gelou. O quarto, antes silencioso, de repente pareceu grande demais, vazio demais. Onde estava Lui?
Me levantei de súbito, mesmo com os pontos ainda me incomodando, e cambaleei até a porta. O corpo estava frágil, os seios pesados e doloridos, latejando como se gritassem pela presença do meu filho. No instante em que girei a maçaneta, a porta se abriu e uma enfermeira entrou, firme, mas com um olhar doce.
- Senhora, não pode sair assim sem ajuda! - disse, me apoiando pelos ombros.
Senti a garganta fechar. Minhas lágrimas desceram sem permissão. - Onde está meu filho? Ele não está aqui... ele deve estar com fome, eu sinto. - minha voz saiu trêmula, quase infantil.
- Calma, senhora - respondeu, acariciando meu braço como quem acalma uma criança. - Ele só foi fazer alguns exames de rotina. Está bem, logo volta.
Ainda tremia quando ouvi a maçaneta girar outra vez. Steve entrou, e em seus braços estava o que meu coração tanto clamava: Lui, enrolado em um cobertor azul, pequeno, sereno.
Estiquei os braços instintivamente, e Steve me entregou com cuidado. Segurei meu filho contra o peito, o coloquei para mamar e, naquele instante, o mundo inteiro se resumiu ao barulho suave dele sugando o leite. Era vida. Era amor. Era também dor.
Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu não queria chorar, mas parecia impossível segurar. - Me desculpe por ser tão boba... o puerpério está mais difícil do que imaginei que seria.
Steve se sentou ao meu lado, apoiando a mão em minhas costas. - Não peça desculpas. Eu deveria ter te acordado, deveria ter dito para onde íamos. - inclinou-se e beijou o topo da minha cabeça. - Desculpe, Nina.
A enfermeira sorriu para nós, como quem observa algo precioso. - Amanhã vocês dois recebem alta.
Alta. A palavra caiu como um peso. Alta significava ir para casa, para a vida real. Além de Lui, eu teria Lily também. O medo me invadiu como uma onda gelada. Será que eu daria conta? Será que conseguiria ser mãe de verdade?
Percebi que Steve notou minha expressão, porque ele segurou minha mão e disse, firme: - Eu estarei com você até que se sinta melhor. E não estamos sozinhos, Nina. Vamos ter ajuda, sempre que precisar.
Assenti, mas a insegurança latejava dentro de mim. - Obrigada... - minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
Por dentro, eu estava em pedaços. Tão diferente do que imaginei ser a maternidade: não era só luz, era também sombra, medo, exaustão. Mas ali, com Lui no meu colo e Steve ao meu lado, decidi que enfrentaria. Um dia de cada vez.
---
Steve
Quando entrei no quarto e vi o olhar desesperado de Nina, senti uma pontada de culpa que quase me sufocou. Eu tinha o dever de protegê-la, de apoiá-la, mas não pensei que o simples ato de levar Lui para exames sem avisar poderia machucá-la tanto.
Ela estava frágil, mas ainda assim lutava para se manter forte. E eu... eu ainda estava aprendendo o que significava estar ali para alguém de verdade.
Deixei os dois juntos e desci até a cantina do hospital. Precisava de um café, precisava de alguns minutos para respirar. O cheiro de café fresco invadiu minhas narinas, mas o cansaço era tão grande que até segurar a xícara pareceu difícil.
- Como está se sentindo, papai do ano? - ouvi a voz de Ravena e ergui os olhos.
Ela estava ali, com Otto e Eddy. A visão deles trouxe um alívio imediato, como um lembrete de que eu não estava sozinho.
- Que bom que vocês vieram. - murmurei, e um sorriso cansado escapou.
Otto, sempre debochado, me olhou de cima a baixo. - Você está acabado, meu amigo.
Revirei os olhos. - Obrigado pela parte que me toca.
Ele gargalhou alto, estalando a mão no meu ombro. - Vai por mim, você ainda vai sentir falta de noites inteiras de sono quando ele crescer.
Sorri sem vontade, mas Ravena se aproximou e segurou minhas mãos. Seus olhos estavam marejados, mas cheios de força. - Steve... eu sei que não é fácil, mas você está indo bem. E tem algo que precisa ver.
Ela tirou da bolsa um envelope. Meu coração parou. Reconheci a caligrafia delicada antes mesmo de abrir. Rose. Outra carta.
Minhas mãos tremeram. Apertei o envelope contra o peito, sentindo uma onda de emoção me invadir. Era como se ela estivesse ali, falando comigo.
- Abra. - Ravena disse baixinho. - É para esse momento.
Respirei fundo, engoli a ansiedade e rompi o lacre. O cheiro do papel antigo me atingiu, como uma lembrança de tardes em que ela escrevia no quarto, cercada de livros. Comecei a ler em voz alta, com a voz embargada:
---
*"Meu amor,
Se você está lendo essa carta, é porque nosso pequeno Lui já chegou ao mundo. Antes de qualquer coisa, quero que feche os olhos por um instante e agradeça. Ele é vida. Ele é a prova de que o amor não morre.
Eu sei que o puerpério será difícil para Nina. Eu a conheço - ela vai querer ser forte, mas também vai chorar, vai duvidar de si mesma, vai sentir medo de não dar conta. É aí que você entra, Steve. Seja o braço firme, o olhar paciente, o abraço silencioso que ela precisa.
Lembre-se: ela não roubou nada de você, ela devolveu. Devolveu o futuro que eu não poderia dar. Não a trate como substituta, porque ela não é. Nina é Nina. E ela merece todo o respeito, toda a amizade, toda a gentileza que você tem dentro de si.
Cuide de Lui. Cante para ele. Conte histórias. Mostre ao nosso filho o quanto o mundo pode ser bonito, mesmo quando parece duro. E, por favor, ame-o sem medo. Ele é metade de você, e eu sempre soube que você seria o melhor pai do mundo.
E nunca esqueça: o amor que tivemos não acabou. Ele só mudou de forma. Ele agora vive no riso de Lui, no olhar de Lily, na coragem de Nina, na união de vocês todos.
Eu te amo. Sempre. Rose."*
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As palavras se embaralharam diante dos meus olhos marejados. Não conseguia parar de chorar. Rose, mesmo longe, continuava sendo a bússola que me guiava.
Fechei a carta e pressionei contra o peito. Ravena chorava ao meu lado. Otto enxugava discretamente os olhos. Eddy apenas me abraçou forte, sem dizer nada.
- Você não está sozinho, Steve. - Ravena sussurrou. - Nós estamos aqui.
E naquele instante, percebi que a família que Rose me deixou não era apenas Lui. Era Nina. Era Lily. Era Ravena, Otto, Eddy. Era todo um círculo de amor que continuava vivo, mesmo na ausência dela.
Voltei para o quarto, ainda com os olhos vermelhos. Nina estava deitada, Lui dormindo sobre o peito dela. A cena me parou no tempo.
Cheguei perto, ajeitei o cobertor sobre eles e sentei ao lado. Nina abriu os olhos e me olhou cansada, mas com um sorriso suave. - Tudo bem?
Peguei sua mão e a apertei com força. - Agora está. - sussurrei.
Enquanto observava meu filho respirar tranquilo, entendi: a vida não parava. O amor não morria. Ele só se transformava.
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Lista de capítulos
42 capítulos no total
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