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Capítulo 3 02

Nina

A minha primeira noite em casa foi um borrão de emoções. Entre mamadas, trocas e tentativas desesperadas de dormir com o coração acelerado, as horas pareciam derreter. Edy, Lily e Ravena fizeram plantão como anjos - rindo, cantando desafinado no karaokê portátil, ocupando a casa com uma espécie de barulho acolhedor para que Steve e eu pudéssemos descansar de verdade, mesmo que por instantes.

Mas aquela noite eu não consegui pregar um sono que valesse. O corpo doía; as hormonas me puxavam para um mar de sensações que eu mal entendia. Levantei com cuidado, cada movimento parecia medir os limites do meu corpo ainda recuperando-se do parto. Desci as escadas devagar, só para preparar um leite quente e tentar aquietar o peito que continuava latejando de amor e de medo.

E foi ali, na cozinha, que levei um susto bom: Steve estava em pé perto da bancada, à meia-luz, com os olhos cansados mas vigilantes. Quando me viu, sorriu do jeito que só ele sabia - tímido, bonito, protetor.

- Também não consegue dormir? - perguntou, e eu acenei, sem forças para falar.

Sentamos os dois no sofá, cada um com um copo de leite quente. O silêncio entre nós não era desconfortável; carregava um conforto mudo, feito de cumplicidade, de cuidado. Não precisávamos de palavras. O bebê dormia no quarto, seguro, e por um momento o mundo cabia dentro daquela sala iluminada pela luz da madrugada.

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Steve

As noites tinham se tornado uma rotina silenciosa: o som do leite sendo aquecido, os passos cuidadosos, o soprar leve para acalmar o choro, o silêncio que vinha depois - como se estivéssemos pendurados num fio que balançava entre o cansaço e a gratidão. Aquela tradição de nós dois tomando leite no sofá virou um pequeno ritual que eu guardava como quem protege um tesouro.

Sete meses se passaram desde o parto, o puerpério foi ficando para trás e começávamos a sentir os dias mais leves. A barriga da Nina já não me lembrava de um processo estranho; agora lembrava apenas do nosso filho. E então veio o primeiro grande susto.

Lui acordou no meio da madrugada com temperatura alta. A febre não cedia. O pediatra parecia preocupado, e o tom das palavras dele fez meu estômago gelar. "Possível falência medular", disse ele. Aquelas palavras caíram como uma avalanche, destruindo todo o chão firme que eu achava ter.

- Eu posso doar. Eu sou o pai. - minha voz saiu desesperada, quase sem controle.

- Vamos testar você e a Nina - respondeu o médico. - Precisamos descobrir a compatibilidade o quanto antes.

O eco da frase fez meu pensamento correr em círculos. Se existia a possibilidade de eu ser doador, corria também aquela dúvida traiçoeira: e se...? Ainda assim, o instinto foi mais forte do que a razão.

- Doutor, eu sou apenas a barriga de aluguel. O óvulo é de Rose. - Nina disse, a voz colada ao fio da esperança, mas completamente abalada.

- Mesmo assim, vamos testar todas as possibilidades - respondeu o médico com firmeza profissional.

Aquela sala branca, com o cheiro característico dos hospitais, ficou pequena para o peso que nos esmagava. Eu andava de um lado para o outro, incapaz de me prender a qualquer coisa além do medo. Nina também estava em seu canto, olhos perdidos. Entre nós havia um abismo feito de silêncio e de dor - cada um sofrendo à sua maneira, sem saber como alcançar o outro.

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Nina

Eu sabia que a cabeça do Steve fervilhava de pensamentos: perder um filho era um medo que percorria cada fibra do corpo dele desde a morte de Rose. Mas a verdade é que eu também estava à beira do desespero. Partos, noites sem dormir, perguntas sem resposta - tudo parecia explodir naquele instante.

- E as crianças? - perguntei, a voz embargada.

- Estão na escola. - Ravena respondeu, chegando por trás e me envolvendo num abraço apertado. Ela tinha aquela habilidade de sustentar sem perguntar demais. - Vai ficar tudo bem, Nina. Estamos aqui. Vamos ajudar no que for preciso.

Segurei o abraço como se fosse respirar por ele. Precisava de alguém que me lembrasse que eu não estava sozinha. Mas, no fundo, temia pelo que meu coração pressentia: Steve estava no limite. Eu via nos olhos dele uma tensão que prometia explodir.

A porta do consultório se abriu e o médico entrou, arrastando consigo uma informação que faria todo o cenário girar. Steve praticamente pulou sobre ele:

- E aí, doutor, sou compatível? - a pergunta veio crua, a voz tensa.

O médico meneou a cabeça. - Infelizmente o senhor não é compatível, mas a senhora sim.

Naquele segundo, meu mundo estremeceu de outro modo. Havia um alívio contido, e junto uma perplexidade sem nome. Como poderia eu ser compatível? Eu que sempre pensei que era apenas a barriga, que tudo aquilo era uma doação de mim por amor à Rose e ao Steve - como?

- Vamos logo. - disse eu, tentando agir antes que o turbilhão me pegasse de vez.

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Steve

A afirmação do médico me deixou em estado de choque. Nina compatível? Como isso era possível se a versão que tínhamos vivido até então - e acreditado - era outra: que Rose tivera seus óvulos fecundados com meu esperma e que eu, de certa forma, tinha apenas um filho que eu e Rose criariam, com Nina apenas como a gestante.

- Eu não entendo. - disse, sentando pesado na poltrona e puxando os cabelos para trás. Estava perdido. - Vou entrar em contato com a clínica agora mesmo. - Ravena prometeu sair para ligar.

Era incontornável: precisávamos de respostas. Minha cabeça borbulhava de perguntas. E no meio daquele caos, a insegurança se transformou numa necessidade quase instintiva de confirmar: - Quero um exame de DNA, do meu com o bebê e da Nina com o bebê. - falei, tentando controlar a voz.

Otto segurou meu braço, firme. - Steve, por favor. - disse ele com cuidado. Eu sabia que estava sendo impulsivo, mas o medo corria nas veias.

- Você está achando que a criança não é sua? - perguntou Johny, tentando entender a minha necessidade de confirmação.

- Eu não sei mais de nada. - respondi, honesto e cru. A ideia de ter sido enganado me queimava por dentro. E se Nina já estivesse grávida antes e ocultara isso de Rose? E se... tantas possibilidade sórdidas que me faziam perder o chão.

Nina entrou no quarto naquele exato instante, o rosto pálido mas decidido.

- Eu não enganei ninguém. - disse com firmeza.

Otto, ansioso, perguntou: - Você já tirou sangue?

- Não - respondeu Nina. - Mas precisamos de mais doadores, e se eu for compatível, Lily também pode ser. Preciso conversar com ela, explicar tudo e só assino a autorização se ela quiser ser doadora.

- Otto, você pode buscar a Lily? - Nina pediu. Otto saiu em disparada, responsabilidade assumida com a leveza de quem sabe lidar com crianças.

Eu tentei falar, estendi a mão para ela - - Nina... - mas ela me cortou, frio:

- Não precisa gastar saliva. Se quisesse conversar, teria me consultado antes. Agora sai, por favor.

E assim fui puxado para fora, segurado pelo braço por John, humilhado mais pelo meu próprio medo do que pelos outros. Dentro do corredor, o ar parecia pesado demais para respirar.

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Nina

Ouvir Steve desconfiar de mim doía como facadas. Ele pediu o DNA pelas minhas costas - não tentou sequer falar comigo. Senti como se a consideração que eu esperava não existisse mais. Eu poderia entender a preocupação, poderia entender o medo, mas esperar que, quando as dúvidas surgissem, ele viesse até mim antes de agir... isso doía.

- Agora que já tirou o seu sangue, pode sair do quarto. - disse, controlando a voz enquanto uma enfermeira recolhia minhas amostras.

- Nina, precisamos conversar. - murmurou Steve, num tom que misturava súplica e culpa.

- Não. Não precisamos. - respondi, dura. - Se quisesse conversar, teria me procurado antes. Agora sai, por favor.

John levou-o para um canto, e eu deixei as lágrimas saírem baixinho, sem pressa. Foi então que Ravena entrou, com Lily e Eddy ao lado. Lily me olhou e, num gesto que me quebrou e me curou ao mesmo tempo, disse:

- Mana, tio Otto me explicou e tudo bem. Eu vou fazer com você para salvar o Lui.

A coragem daquela menina foi um soco no coração. Eu a abracei com todas as forças - ela era pequena, mas já tão grande em coragem.

- Obrigada, meu amor. Você é tão corajosa. - beijei sua testa.

A enfermeira perguntou se podia levá-la para a coleta, e Lily pulou animada, quase sem entender a gravidade, com a simplicidade de quem quer apenas ajudar. Eddy quis ir junto; o cuidado deles me deu um pouco de calma.

Quando olhei para Ravena, vi que o rosto dela não estava bom. Havia algo que precisava dizer, algo que mudaria tudo.

- Houve um erro na clínica. - disse ela, voz pesada.

- Que tipo de erro? - perguntei, já sentindo o chão ceder.

- Os óvulos de Rose... estavam comprometidos pelo câncer. Absolutamente todos. - A frase cortou o ar em volta.

- O quê? Eles fizeram isso? E Rose? - a incredulidade me esmagou.

Ravena respirou fundo e explicou, com uma tristeza contida: - Rose sabia. Ela sabia de tudo. Ela autorizou que o esperma do Steve fosse implantado... mas não nos óvulos dela. Por segurança, e por amor, o procedimento foi realizado com os seus óvulos - Nina. Eles trocaram os rótulos, e o implante foi feito com seu material - porque os óvulos de Rose não eram viáveis. Ela assinou papéis, autorizou. Foi uma decisão difícil, pensada para que o bebê tivesse uma chance de vida.

A cada palavra, minha cabeça rodopiou. Então... Lui era, de fato, meu filho biológico? Ou melhor - ele era meu e de Steve. A surpresa, a revolta, o alívio, tudo se misturava numa bagunça que era difícil de traduzir em ar.

- Então o Lui é meu filho, e não apenas de Rose? - perguntei, a voz falhando.

- Sim. - confirmou Ravena. - Foi assim que as coisas aconteceram. Rose queria que vocês tivessem esse filho de qualquer forma. Ela confiou em você, Nina. Em vocês dois.

Nesse instante Steve apareceu na porta do quarto, pálido, os olhos cheios de uma dor nova. Ele trouxera mais uma carta - uma carta da Rose, endereçada a nós.

Ele veio até o lado da cama, sentou, abriu o envelope com mãos trêmulas e começou a ler em voz baixa. Eu queria arrancar Lui do colo e voar para longe com Lily; a confusão dentro de mim era uma tempestade. Mas, quando a voz do Steve fez as palavras de Rose entrarem no ar, algo mudou.

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"Meus amores,

Se esta carta chegou até vocês, é porque, de algum modo, consegui planejar uma saída para o que o destino poderia nos reservar. Sei que a notícia pode ser um choque, mas por favor, leiam com calma e com o coração aberto.

Quando os médicos descobriram que meus óvulos estavam comprometidos, eu poderia ter desistido. Mas eu não quis. Eu quis que a vida - a vida que eu e o Steve criamos no nosso coração - tivesse uma chance. Por isso, com toda a lucidez que tive até o fim, autorizei que o procedimento fosse adaptado. Confiei em Nina porque sempre acreditei na pureza do coração dela. Pedi que, se fosse preciso, ela carregasse essa vida. Pedi que, se fosse possível, o nosso amor continuasse de uma forma diferente: vivo na alegria de um filho.

Não escondi nada deles. Assinei, autorizei, expliquei. A decisão foi minha, dolorosa, mas tomada com amor. Eu sabia que seria difícil para vocês aceitarem que o laço fosse outro do que o planejado, mas confiei que o que construímos era mais forte que rótulos ou biologia. Pedi que cuidassem um do outro, e principalmente que cuidassem do nosso filho com todo carinho do mundo.

Não quero que haja mágoas entre vocês. O que eu quis foi garantir uma chance de vida, e sei que Nina faria isso com a maior coragem. Não quero que ninguém se sinta enganado, porque nada foi feito às escondidas - foi uma escolha minha, pensada para proteger aquela vida que nos une.

Se algo restou em mim de medo, era que o amor se perdesse no caminho. Por isso escrevi isto: cuidem um do outro. Permitam-se entender que o amor muda de forma, mas não some. E por favor, façam dele - do Lui - o centro de alegria que ele merece ser.

Com todo o meu amor, Rose."

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As palavras ecoaram na sala como se tivessem vida própria. Havia explicação, e havia, também, pedido - um pedido que trazia responsabilidade e perdão. Senti o nó apertar minha garganta: Rose havia governado tudo mesmo depois de partir. Ela havia decidido que o futuro daquele bebê valia mais do que qualquer cerimônia de rótulos.

Steve fechou os olhos, as lágrimas escorrendo silenciosas. Eu olhei para ele; aquilo tudo ainda doía - principalmente o fato de ele ter agido sem me procurar antes - mas a carta também abriu uma fresta de compreensão. Rose escolhera, Nina interveio, e a vida de Lui estava ali, pulsando, inocente de toda nossa confusão de adultos.

No corredor, Lily voltou com um curativo na mão, orgulhosa por ter ajudado. Eddy acariciava o rosto dela com um sorriso tímido. Ravena me segurou a mão. Steve aproximou-se, hesitante, como quem teme que eu afaste o mundo com um sopro.

- Eu sinto muito - murmurou ele, baixo, com a voz rachada. - Eu errei em não conversar. Fui tomado pelo medo.

Respirei fundo. As emoções ainda eram um emaranhado, difícil de desfazer. Mas havia uma coisa clara diante de nós: Lui precisava de amor, de fraqueza e força ao mesmo tempo, de união. E Rose deixou instruções, e coragem, e um legado que exigia que nós respondêssemos com a mesma coragem.

- Vamos cuidar dele - disse finalmente, segurando a mão do Steve e sentindo, pela primeira vez naquele dia, um fio de paz. - Por ele. Por Rose. Por nós.

E ali, naquele quarto de hospital cheio de perguntas e respostas tardias, começava um novo capítulo: doloroso, confuso, mas de uma responsabilidade tão grande que nos chamou a ser melhores do que havíamos sido até então.

{...}

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Lista de capítulos

42 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Prólogo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 01
  3. Capítulo 3Capítulo 3 02

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