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Capítulo 2

Na manhã seguinte, entrei no apartamento que eu dividia com Ivan. Ele estava na cozinha, fazendo café, lindo e completamente despreocupado.

"Você chegou cedo", ele disse, sorrindo ao se virar para me beijar. Eu recuei, virando o rosto para que seus lábios pousassem na minha bochecha.

"Estou cansada", murmurei, usando a desculpa que eu sabia que ele esperaria depois de um longo turno. "O trajeto de volta foi difícil."

"Pobre bebê", ele disse, envolvendo seus braços ao meu redor. O abraço dele parecia uma jaula. Cada palavra, cada toque era uma mentira. "Minha reunião terminou tão tarde. Deveríamos fazer algo para comemorar o fechamento do negócio. E... já se passaram cinco anos."

Olhei para ele, com a expressão cuidadosamente vazia. "Cinco anos desde o quê?"

"Desde que Kiera... foi embora", ele disse, com os olhos cheios de falsa compaixão. "Eu sei que o que ela fez foi difícil para você. Pensei que talvez nós, e seus pais, pudéssemos ter um jantar tranquilo. Para marcar a ocasião. Para comemorar o quão longe chegamos."

A audácia era impressionante. Eles queriam comemorar o aniversário da mentira que haviam construído ao meu redor. Senti uma raiva fria e aguda atravessar a dor.

"Essa é... uma ideia atenciosa, Ivan", eu disse, com a voz firme. "Vamos fazer isso."

O rosto dele se iluminou de alívio. "Ótimo. Vou avisar seus pais. Eles ficarão muito felizes por você estar lidando bem com isso."

Ele estava tão seguro de mim, tão confiante em sua farsa. Ele saiu para o trabalho, assobiando, me deixando sozinha no apartamento lindo, porém estéril, que agora parecia uma prisão. No momento em que a porta se fechou, fui direto para o escritório dele.

Estava sempre trancado. Ele tinha me dito que era por causa de documentos de trabalho confidenciais. Eu costumava respeitar isso. Agora, eu sabia que era um cofre para seus segredos. Mas eu era médica. Eu entendia de pontos de pressão, de encontrar fraquezas. E eu conhecia Ivan. A senha dele não era complexa; era arrogante. Era a data em que ele me pediu em casamento.

Eu a digitei. A fechadura se abriu com um clique.

A sala estava imaculada, dominada por uma grande mesa de mogno. Comecei por ela. Em uma gaveta trancada, encontrei um pequeno álbum de fotos encadernado em couro. Minhas mãos tremeram quando o abri.

Não estava cheio de fotos nossas. Era foto após foto de Ivan, Kiera e o filho deles, Leo. No parque, em uma praia, comemorando aniversários com bolos e velas. Uma família perfeita e feliz. Em uma foto, meus pais também estavam lá. Minha mãe segurava Leo, sorridente, enquanto meu pai estava de pé com o braço ao redor de Kiera. Eles pareciam mais felizes naquele momento roubado do que eu já os tinha visto comigo.

A evidência era condenatória, mas eu precisava de mais. Voltei-me para o laptop dele. A senha era a mesma. Os arquivos dele estavam meticulosamente organizados. Encontrei uma pasta rotulada "Pessoal". Dentro, outra pasta: "L".

Era tudo. Vídeos dos primeiros passos de Leo. Suas primeiras palavras. Cópias digitalizadas de sua certidão de nascimento, listando Ivan como o pai. E uma subpasta chamada "Finanças".

Cliquei para abrir e meu sangue gelou. Havia transferências bancárias mensais de uma conta conjunta pertencente aos meus pais, Richard e Eleanor Donovan, para uma empresa de fachada. Os valores eram impressionantes. Milhões de dólares ao longo de cinco anos. A descrição em cada uma era a mesma: "Despesas de Subsistência de K.R.".

Eles não tinham apenas facilitado isso; eles tinham financiado. Cada palavra gentil que eles já tinham me dito, cada presente caro, cada promessa vazia de família, tudo foi pago com o mesmo dinheiro que eles usaram para sustentar a mulher que tentou me arruinar e a família secreta que meu noivo estava criando com ela.

A ilusão do amor deles não era apenas uma mentira; era uma transação. Eu era o preço que eles pagaram para aliviar a própria culpa em relação a Kiera.

Copiei tudo para um pequeno pen drive criptografado. Cada foto, cada vídeo, cada extrato bancário. Enquanto os arquivos eram transferidos, meu telefone vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.

"Se divertindo brincando de detetive? Você nunca vai encontrar nada. Eles me amam, Aliana. Sempre amaram. Você foi apenas uma substituta conveniente."

Era Kiera. Ela devia ter uma câmera escondida no escritório. O pensamento fez minha pele se arrepiar.

Ela enviou uma foto. Era da foto de família que eu tinha acabado de ver, aquela com meus pais.

"Ficamos bem juntos, não é? Como uma família de verdade."

Outra mensagem se seguiu. "Ivan só está com você por pena. E seus pais? Eles estão apenas pagando suas dívidas. Você sempre será a estranha, a garota do lar adotivo que não pertence a lugar nenhum."

As provocações tinham a intenção de me quebrar. E elas conseguiram, por um momento. Encostei-me na mesa, o pen drive apertado na minha mão, e uma única lágrima quente de raiva e dor rolou pela minha bochecha.

Mas então, a dor endureceu e se transformou em outra coisa. Algo frio e claro.

Ela estava errada. Eu não ia quebrar. Eu ia reduzir o mundo inteiro deles a cinzas.

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  1. Capítulo 1Capítulo 1
  2. Capítulo 2Capítulo 2
  3. Capítulo 3Capítulo 3

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