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Capítulo 2 Um ninho de víboras

O choque percorreu o corpo de Lizandra como uma faísca elétrica. As palavras que acabara de ouvir não eram apenas cruéis, eram uma sentença de morte proferida com uma frieza que ela jamais imaginou encontrar.

"Quem seria aquele casal?"

​Ela conhecia apenas a face de Xavier Lancaster, o homem que a comprou para quitar as dívidas de jogo de seu falecido pai. A família Lancaster era um enigma envolto em luxo e discrição, protegendo sua vida privada com a mesma ferocidade com que protegiam seus bilhões.

Agora, Lizandra percebia que o império que ela estava prestes a integrar era, na verdade, um ninho de víboras. ​ O pânico de ser descoberta foi substituído por uma náusea moral. Por mais que aquele casamento fosse sua prisão, ela se recusava a ser o peão que facilitaria um assassinato. Ela não conhecia Sebastian Lancaster, mas o pensamento de ser usada para gerar um filho apenas para que o pai fosse descartado como lixo a deixava horrorizada. ​ A voz da mulher, carregada de um escárnio cortante, a trouxe de volta à realidade imediata:

- Vamos então conhecer a futura esposa do alejado? Já está quase na hora - ironizou a desconhecida.

- Claro, vamos lá - respondeu o homem, com uma prontidão assustadora. ​ O som dos passos ecoando nos degraus foi o sinal de alerta final. Eles estavam subindo. Em segundos, estariam cara a cara com a noiva fugitiva. ​ Com o coração martelando contra as costelas, Lizandra girou sobre os calcanhares. Movendo-se na ponta dos pés para silenciar o contato da pele com o cimento frio. ​ Cada degrau era uma agonia de silêncio forçado.

"Como explicaria estar ali, descalça, com o vestido de noiva desarrumado e os olhos transbordando o terror de quem acabara de ouvir um segredo mortal?"

Ela precisava voltar para o quarto. Precisava de uma máscara de porcelana. Se o plano deles dependia dela, Lizandra Sullivan acabara de se tornar, sem querer, a única proteção entre Sebastian Lancaster e a morte. ​ Ela alcançou o andar do seu quarto e fechou a porta pesada das escadas com um clique quase imperceptível, os pulmões ardendo pela falta de ar e pela consciência de que o caos estava apenas começando.

A coragem que brotou em Lizandra era fria e afiada, um contraste gritante com o pânico que quase a fizera desmoronar minutos antes.

O medo da morte alheia, de ser cúmplice de uma atrocidade, agiu como um combustível inesperado. Ela não era mais apenas uma noiva comprada, ela era agora a única testemunha de uma traição silenciosa. ​ Sentada à borda da cama, Lizandra deslizou os pés de volta nos sapatos de salto agulha. Com as mãos ainda levemente trêmulas, ela pegou a caneta e assinou o consentimento para a inseminação artificial e o acordo de confidencialidade.

Cada traço da caneta era um pacto. Se ela queria descobrir quem eram os conspiradores, precisava entrar no jogo deles. ​ Ela se levantou, retocou o batom com precisão cirúrgica e encarou o espelho. A paleta de cores que tanto amava, o contraste entre o cinza e o preto do ambiente e o rosa sutil de sua maquiagem, parecia refletir sua nova determinação. Com a cabeça erguida, ela deixou o quarto e caminhou em direção ao salão cerimonial. ​ O salão do Grand Hotel era a personificação da opulência dos Lancaster. Lustres de cristal pendiam do teto alto, lançando uma luz dourada sobre o mármore. O ar cheirava a flores raras e a perfumes caros, emanando das pessoas elegantes que circulavam pelo espaço, o advogado da família, sócios e parentes que mantinham conversas em tons baixos e aristocráticos. ​ No centro do salão, uma figura imóvel atraía todos os olhares, embora ninguém ousasse encará-lo por muito tempo. Sebastian Lancaster estava sentado em uma cadeira de rodas tecnológica, vestido em um terno sob medida que escondia a fragilidade de seu corpo após o acidente de quatro meses atrás. ​ Lizandra esperava encontrar um homem desfigurado, uma sombra abatida por cirurgias e meses de hospital.

No entanto, ao se aproximar, ela sentiu o fôlego escapar. Sebastian era de uma beleza perturbadora. Mesmo imóvel, suas feições eram esculpidas como as de uma estátua clássica, exalando um ar de dignidade e poder que nem mesmo o acidente fora capaz de apagar. ​ Ela o analisou com os olhos arregalados, buscando qualquer sinal de consciência. Mas o olhar de Sebastian era vago, perdido em algum ponto invisível no horizonte, como se ele estivesse a quilômetros de distância daquele circo social.

Ele não deu a mínima para a presença dela, para Sebastian, Lizandra era apenas mais uma sombra no salão. ​ Xavier, o patriarca de olhar calculista, observava tudo de perto, garantindo que o plano para a continuidade de sua linhagem seguisse sem falhas. Lizandra sentiu o peso do olhar dele e, discretamente, começou a escanear a multidão.

Em algum lugar naquele salão luxuoso, entre taças de champanhe e sorrisos falsos, estavam o homem e a mulher que ela ouvira nas escadas. E ela não descansaria até descobrir quem eles eram.

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Lista de capítulos

17 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Conspirações na rampa da escada
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Um ninho de víboras
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Sra. Lancaster

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