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Capítulo 3 Sra. Lancaster

O salão de recepção, com suas janelas do chão ao teto revelando a linha do horizonte de uma metrópole que nunca dormia, serviu de palco para uma união que mais parecia um funeral de luxo. Os Lancaster não pouparam recursos para que cada detalhe exalasse luxo e poder.

A cerimônia foi breve e cirúrgica. Sob o olhar atento de um juiz de paz e as lentes discretas de fotógrafos contratados, Lizandra e Sebastian assinaram os documentos que os tornavam oficialmente marido e mulher.

Quando chegou o momento da troca de alianças, Lizandra sentiu os dedos de Sebastian, frios e inertes, contra os seus. Ela deslizou o ouro pelo dedo dele enquanto ele permanecia como uma estátua de mármore, a expressão distante e gélida ignorando completamente a mulher que agora carregava seu sobrenome.

- Eu vos declaro marido e mulher - anunciou o juiz.

Xavier, posicionado ao lado do filho, não conseguia esconder o triunfo em seu rosto, um sorriso raro e satisfeito iluminava suas feições. Com o término da parte formal, o som de taças se chocando preencheu o ambiente.

- Aos noivos! - Xavier brindou, sua voz carregada de uma felicidade que Lizandra sabia ser alimentada por puro interesse.

Imediatamente, a bolha de isolamento ao redor do casal foi rompida. Uma fila de convidados, vestindo sedas e casimiras de grife, começou a se formar para felicitar os recém-casados. Lizandra forçou um sorriso plástico, sentindo o peso da aliança em seu dedo como se fosse uma algema, enquanto cada aperto de mão e cada palavra de "parabéns" soavam como um eco distante da conspiração que ela ouvira nas escadas.

Ela estava no centro do império, cercada de sorrisos falsos, sabendo que, para muitos ali, o homem imóvel ao seu lado já era um fantasma.

Enquanto a fila de convidados avançava, um casal se destacou da multidão, movendo-se com confiança. O homem era a imagem da elegância: um terno de corte impecável que realçava seu porte charmoso e atlético. Ao seu lado, uma loira deslumbrante, de traços refinados e um sorriso que parecia treinado para as capas de revistas.

Eles se aproximaram, e o homem inclinou a cabeça com um gesto cortês.

- Parabéns. Felicidades aos noivos - disse ele, a voz projetada com uma clareza aveludada.

No instante em que as palavras deixaram a boca dele, Lizandra sentiu uma faísca elétrica percorrer toda a sua espinha, um choque de reconhecimento que a deixou momentaneamente sem ar. Aquela cadência, aquele tom... não havia margem para erro. Era a mesma voz que ouviu na escada, a voz que falava em "planos bem arquitetados" e "dar um fim" em Sebastian.

Lizandra ficou imóvel, sua expressão ameaçando rachar. O homem, mantendo o sorriso magnético que agora lhe parecia o reflexo de uma lâmina, não soltou sua mão imediatamente. Ele se inclinou levemente, exalando um perfume caro que, para Lizandra, tinha o cheiro da traição.

- Prazer, cunhada. Sou Trevor, o irmão mais novo de Sebastian - ele se apresentou, a voz carregada de uma falsa cordialidade que fazia o estômago de Lizandra revirar. - E esta é minha noiva, Dayse.

Dayse exibiu um sorriso simétrico, mas seus olhos, rápidos e analíticos, percorreram Lizandra de cima a baixo, como se avaliassem uma mercadoria.

- É um prazer conhecê-la, Lizandra - disse Dayse, com um tom de voz que ecoava perfeitamente a risada irônica que Lizandra ouvira mais cedo. - Finalmente os Lancaster têm uma nova integrante para manter o brilho da família.

Lizandra forçou os músculos do rosto a não fraquejarem. Trevor, o irmão que deveria estar sofrendo pela tragédia de Sebastian, era quem planejava o golpe final. E Dayse, a noiva impecável, era sua cúmplice.

Enquanto Trevor se voltava para o irmão inerte e repetia as palavras de "felicidade", Lizandra olhou para o lado. Xavier observava a interação com uma satisfação silenciosa. A verdade era mais sombria do que ela imaginava: Sebastian não estava apenas cercado por inimigos, ele estava sendo devorado por aqueles que compartilhavam seu próprio sangue.

Lizandra engoliu em seco, sentindo o peso do segredo que agora carregava.

A festa continuava a pulsar ao redor de Lizandra, um mar de risos artificiais e o tilintar metálico de talheres contra porcelana fina, mas seus olhos estavam fixos na porta lateral. Ela viu, de relance, quando um mordomo de movimentos precisos e silenciosos começou a empurrar a cadeira de rodas de Sebastian para fora do salão. Ele partia sem uma palavra, sem um olhar, ignorando a existência da mulher que acabara de se tornar sua esposa perante a lei e a elite.

​- Sebastian não se sente bem com multidões, principalmente depois do acidente - a voz de Xavier surgiu ao seu lado, fria e calculada, enquanto ele apontava para a silhueta do filho desaparecendo pelo corredor.

​Lizandra apenas assentiu, sentindo um gosto amargo na boca. Se antes Xavier era apenas o homem implacável que a chantageia usando as dívidas de seu pai, agora, após as revelações que descobriu, ele se transformara em um monstro.

O desprezo que ela sentia por ele era como um ácido, corroendo qualquer resquício de respeito que a educação treinada tentava manter. A presença dele a sufocava, ela evitava olhar em seus olhos, temendo que ele pudesse ler neles o segredo que ela agora carregava.

​- Horace é o motorista que irá levá-la para a mansão. Ele está à sua espera para quando desejar ir - continuou Xavier, fazendo um sinal para um homem que aguardava a poucos metros de distância.

​Horace era um homem de idade avançada. Seus cabelos de um cinza prateado, meticulosamente penteados, e o rosto carregava as marcas profundas de quem já vira muito, mas aprendera a falar pouco.

​- Claro, agradeço - respondeu Lizandra, o tom de voz seco e desprovido de qualquer calor. Ela se voltou imediatamente para o motorista, a urgência de sair daquele salão transbordando em suas palavras: - Eu gostaria de ir agora.

​- Pois não, Senhora Lancaster.

​Ouvir aquele sobrenome sendo dirigido a ela pela primeira vez fez Lizandra paralisar por um segundo, o ar subitamente escasso em seus pulmões. "Senhora Lancaster". O som era pesado, carregado de uma herança de poder, segredos e, agora, uma conspiração de assassinato, ela ainda precisava de tempo para assimilar.

​Caminhou em direção à saída, sentindo o peso do vestido a cada passo, ciente de que estava deixando para trás a vida que conhecia para entrar em uma fortaleza onde o perigo não vinha de fora, mas sim daqueles que se sentavam à mesa de jantar.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

17 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Conspirações na rampa da escada
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Um ninho de víboras
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Sra. Lancaster

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