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Capítulo 2 A Princesa de Noctravis
O silêncio entre eles durou apenas alguns segundos.
Mas pareceu muito mais.
Leonore permaneceu imóvel diante de Lucien, sentindo os dedos frios apertarem seu pulso enquanto a Lua Rubra tingia o quarto em vermelho escuro. O cavaleiro não desviava os olhos. Não vacilava. Não demonstrava desejo, medo ou fascínio.
Aquilo a irritava.
E a intrigava.
Todos os homens olhavam para ela da mesma forma.
Desejo. Admiração. Submissão.
Lucien não.
Ele a encarava como uma ameaça.
Talvez até como algo pior.
A princesa inclinou levemente a cabeça, observando-o de perto. As sombras destacavam os traços rígidos do rosto masculino, a mandíbula marcada, os olhos escuros e frios demais para alguém tão jovem.
Bonito.
Perigosamente bonito.
E completamente diferente dos nobres decadentes de Noctravis.
- Você hesitou. - murmurou ela.
Lucien soltou o pulso dela imediatamente, como se o toque o incomodasse.
- Não imagine coisas.
Leonore sorriu lentamente enquanto massageava a pele marcada pelos dedos dele.
- Tem razão. Talvez eu só esteja decepcionada. Esperava um assassino mais emocionante.
O cavaleiro puxou a espada parcialmente da bainha.
O som metálico atravessou o quarto.
Leonore observou a lâmina reluzir sob a luz vermelha da lua.
Linda.
Ela adorava armas.
Principalmente quando apontadas para si.
- Agora estamos conversando. - sussurrou.
Lucien aproximou-se devagar.
Cada passo parecia calculado.
- Seu reino acabou, Leonore.
A voz dele era baixa. Fria. Sem emoção.
- Quando o amanhecer chegar, Noctravis cairá.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- E você acredita mesmo nisso?
- Sim.
- Que fofo.
Os olhos dele escureceram perigosamente.
Leonore quase riu.
Aquilo era novo.
Conseguir irritá-lo era absurdamente divertido.
Ela afastou-se lentamente, caminhando pelo quarto enquanto segurava a taça de sangue entre os dedos delicados. O vestido negro arrastava-se pelo chão de mármore como fumaça viva.
Lucien acompanhou cada movimento.
Atento.
Sempre atento.
Predador reconhecendo predador.
- Você sabe qual é o problema dos homens que tentam conquistar Noctravis? - perguntou ela.
Silêncio.
Ela parou diante da enorme janela arqueada.
A vista do castelo dominava completamente o reino abaixo. Ruas iluminadas por lanternas vermelhas, pontes de pedra negra e torres góticas desapareciam entre névoa e fumaça.
Belíssimo.
Morto.
- Todos acreditam que força é suficiente. - continuou Leonore. - Espadas. Exércitos. Guerra... como se isso significasse alguma coisa.
Ela virou o rosto lentamente para ele.
- Mas este reino não sobreviveu por séculos apenas pela violência.
Lucien cruzou os braços.
- Sobreviveu porque humanos se ajoelham diante de monstros.
O sorriso dela aumentou.
- E ainda assim vocês continuam perdendo para nós.
Por um breve instante, o quarto mergulhou em silêncio novamente.
A tensão parecia respirar entre os dois.
Densa. Pesada. Estranha.
Leonore bebeu mais um gole da taça antes de caminhar até uma pequena mesa próxima da lareira. Frutas escuras, vinho e sangue fresco repousavam sobre bandejas douradas decoradas com rosas negras.
Ela apoiou a taça lentamente.
- Então... - murmurou. - O famoso Lucien finalmente entrou no meu quarto.
Ele estreitou os olhos.
- Como sabe meu nome?
Ela riu baixo.
- Você realmente acha que eu não saberia quem atravessou minhas fronteiras?
Leonore aproximou-se outra vez.
Mais devagar dessa vez.
Quase curiosa.
- Cavaleiro da Lua Negra. Executor do reino de Varkareth. O homem que matou três lordes vampiros em uma única noite durante a guerra do norte.
Ela observou o rosto dele cuidadosamente.
Nenhuma reação.
- Também ouvi dizer que arrancou o coração de um traidor com as próprias mãos.
- Ouve fofocas demais.
- E você fala pouco demais.
Ela parou diante dele novamente.
Perto.
Muito perto.
- Isso é charme ou problema emocional?
Lucien segurou o braço dela antes que Leonore pudesse tocá-lo novamente.
Dessa vez, com mais força.
A princesa sentiu as costas baterem contra a parede de pedra escura.
O impacto arrancou dela uma respiração curta.
Interessante.
Os olhos vermelhos encontraram os dele imediatamente.
Nenhum dos dois desviou.
- Você gosta de brincar com homens perigosos? - perguntou Lucien.
A voz grave atravessou o corpo dela como veneno lento.
Leonore sorriu.
- Só quando eles merecem.
O aperto dele aumentou.
Ela deveria sentir medo.
Qualquer pessoa sentiria.
Lucien era maior, mais forte, e existia algo profundamente violento escondido sob aquele controle quase desumano.
Mas Leonore apenas inclinou o rosto levemente para cima.
Provocando.
- Vai me matar assim? - perguntou em voz baixa. - Contra a parede?
O maxilar dele tensionou.
Finalmente.
Alguma reação.
A princesa percebeu imediatamente.
E aquilo a deixou perigosamente satisfeita.
- Você fala demais. - murmurou Lucien.
- E você pensa demais.
Silêncio.
Os olhos dele desceram involuntariamente até os lábios vermelhos dela por um breve segundo.
Leonore percebeu.
Claro que percebeu.
O sorriso surgiu devagar.
Vitória pequena. Mas suficiente.
- Ah... então você sente alguma coisa.
Lucien afastou-se imediatamente.
Como se tivesse cometido um erro.
Leonore observou enquanto ele dava alguns passos para trás, recuperando a postura fria e rígida.
Aquilo quase a fez rir.
- Não me olhe desse jeito. - disse ele.
- Qual jeito?
- Como se já tivesse vencido.
Ela cruzou os braços lentamente.
- Talvez eu tenha.
Antes que Lucien pudesse responder, batidas fortes ecoaram na porta do quarto.
Os dois ficaram imóveis.
- Alteza? - a voz masculina surgiu do outro lado. - Está tudo bem?
Leonore não desviou os olhos de Lucien.
Interessante.
Ele não parecia preocupado.
Nem minimamente nervoso.
Como se pudesse matar todos do castelo sozinho, caso fosse necessário.
A princesa aproximou-se lentamente da porta.
- Entre.
As portas se abriram imediatamente.
Dois guardas vampiros surgiram armados, seguidos por um homem alto usando roupas aristocráticas vermelhas. O conselheiro real.
Valen.
Os olhos dele percorreram o quarto rapidamente.
Pararam em Lucien.
Depois na espada.
Depois na marca avermelhada ainda visível no braço de Leonore.
O rosto do conselheiro empalideceu.
- O que significa isso?
Lucien permaneceu imóvel.
Leonore, porém, sorriu calmamente.
- Relaxem. Nosso convidado ainda não decidiu me matar.
Os guardas imediatamente desembainharam as espadas.
O ar mudou.
Violência instantânea.
Lucien sequer olhou para eles.
Aquilo irritou os soldados imediatamente.
- Afastem-se da princesa! - um deles rosnou.
Leonore observou o cavaleiro atentamente.
Ainda calmo.
Ainda frio.
Como uma criatura esperando o momento exato para atacar.
Valen aproximou-se da princesa rapidamente.
- Alteza, precisamos-
- Silêncio.
A voz dela cortou o ambiente como lâmina.
Todos pararam imediatamente.
Leonore manteve os olhos presos em Lucien.
- Ninguém toca nele.
Os guardas trocaram olhares confusos.
Valen pareceu horrorizado.
- Alteza... este homem invadiu o castelo.
- Eu percebi.
- Ele matou nossos soldados.
Ela sorriu levemente.
- E mesmo assim ainda está vivo. Isso deveria preocupar vocês.
Lucien observava tudo em silêncio absoluto.
A princesa caminhou lentamente até ele outra vez.
O quarto inteiro parecia prender a respiração.
- Diga-me uma coisa, cavaleiro... - murmurou ela. - Você realmente acredita que consegue sair vivo de Noctravis?
Os olhos dele encontraram os dela sem hesitação.
- Sim.
Leonore sorriu.
Dessa vez, genuinamente.
Porque pela primeira vez em muito tempo...
ela finalmente havia encontrado alguém interessante.
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