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Capítulo 3 O Banquete Carmesim
O grande salão de Noctravis parecia uma catedral construída para pecados.
Colunas negras erguiam-se até o teto abobadado enquanto lustres dourados lançavam luz avermelhada sobre dezenas de vampiros aristocráticos espalhados pelo ambiente. Taças de cristal refletiam a Lua Rubra através dos vitrais gigantes, e a música lenta dos violinos preenchia o ar como um sussurro hipnótico.
Humanos circulavam entre os nobres em silêncio absoluto.
Alguns serviam vinho.
Outros sangue.
Nenhum deles ousava erguer os olhos.
Lucien observava tudo do alto da escadaria principal enquanto dois guardas permaneciam atrás dele com as espadas desembainhadas.
Prisioneiro.
Tecnicamente.
Embora estivesse claro que metade do salão preferiria vê-lo morto imediatamente.
Os olhares o acompanhavam por todos os lados.
Desconfiança. Ódio. Curiosidade.
O cavaleiro ignorou todos.
Seu foco permaneceu fixo apenas em uma pessoa.
Leonore.
A princesa estava sentada no trono elevado ao fundo do salão, cercada por conselheiros e nobres vampiros vestidos em seda escura e joias vermelhas. A coroa negra repousava sobre seus cabelos como uma sombra viva, destacando ainda mais a pele absurdamente pálida.
Ela parecia pertencer ao castelo.
Como se Noctravis tivesse sido construído ao redor dela.
E aquilo irritava Lucien mais do que deveria.
Porque era fácil entender por que tantos se curvavam diante daquela mulher.
Leonore sustentava presença como uma arma.
Mesmo sentada.
Mesmo imóvel.
Os olhos vermelhos encontraram os dele do outro lado do salão.
E o sorriso lento surgiu imediatamente.
Provocadora.
Sempre provocando.
Lucien desviou o olhar primeiro.
A música cessou de repente.
O enorme salão mergulhou em silêncio.
Valen levantou-se ao lado do trono da princesa, apoiando as mãos sobre a mesa dourada diante da corte.
- Um invasor atravessou nossas muralhas esta noite. - anunciou ele. - Um assassino enviado por Varkareth.
Murmúrios percorreram o salão.
Lucien permaneceu imóvel.
- O cavaleiro conhecido como Lucien da Lua Negra foi capturado dentro dos aposentos reais de nossa princesa.
Os olhares ficaram ainda mais hostis.
Alguns vampiros já seguravam armas discretamente.
Outros apenas encaravam Lucien como animais famintos observando carne fresca.
- Matem-no. - disse uma voz feminina entre a multidão.
- Arranquem a cabeça dele. - murmurou outro.
- Varkareth precisa receber uma mensagem.
Leonore permaneceu em silêncio no trono enquanto observava a reação da corte.
Divertida.
Lucien percebeu imediatamente.
Ela estava gostando daquilo.
Gostando de vê-lo cercado.
Pressionado.
Talvez esperando finalmente vê-lo perder o controle.
Não aconteceria.
Valen voltou-se para a princesa.
- Alteza, a decisão é sua.
Todo o salão silenciou novamente.
Leonore apoiou o rosto sobre os dedos delicados, observando Lucien longamente antes de finalmente falar:
- Não.
Confusão imediata.
Valen franziu a testa.
- Alteza...
- Eu disse não.
A voz dela saiu suave. Elegante.
Mas mortal.
- O cavaleiro continuará vivo.
Indignação percorreu a corte.
Lucien observou os nobres começarem a discutir entre si em murmúrios furiosos.
Leonore levantou-se lentamente do trono.
O salão inteiro silenciou outra vez.
O vestido negro arrastou-se pelos degraus enquanto ela descia calmamente até o centro do salão.
Linda.
Cruel.
Intocável.
Lucien odiava perceber isso.
- Vocês estão assustados por causa de um homem sozinho? - perguntou ela.
Ninguém respondeu.
- Que vergonha para Noctravis.
Alguns vampiros desviaram os olhos imediatamente.
Leonore caminhou lentamente ao redor de Lucien.
Como uma predadora analisando outra criatura perigosa.
- Este homem entrou no coração do nosso reino sem dificuldade. Matou guardas. Atravessou muralhas. Invadiu meus aposentos.
Ela parou diante da corte.
- E isso diz mais sobre nossa fraqueza do que sobre a força dele.
O silêncio ficou pesado.
Valen parecia cada vez menos satisfeito.
- Mesmo assim, Alteza... ele veio para assassiná-la.
Leonore sorriu levemente.
- Sim. E falhou.
Os olhos dela encontraram os de Lucien novamente.
Algo estranho atravessou o ambiente naquele instante.
Tensão.
Quase elétrica.
Ela aproximou-se devagar.
Perto demais outra vez.
- Não foi? - murmurou.
Lucien encarou-a friamente.
- Ainda não terminei minha missão.
Alguns guardas imediatamente ergueram as armas.
Leonore, porém, soltou uma risada baixa.
- Finalmente. Um pouco de personalidade.
Valen deu um passo à frente.
- Isso não é brincadeira.
- Eu sei.
- Ele é um inimigo.
- E você é irritante.
O conselheiro cerrou o maxilar.
Lucien observava tudo em silêncio.
Aquilo era estranho.
Leonore claramente entendia o perigo que ele representava.
Então por que insistia em mantê-lo vivo?
A resposta surgiu rápido demais.
Porque ela estava curiosa.
E pessoas curiosas cometiam erros.
Leonore voltou-se novamente para a corte.
- Lucien permanecerá sob vigilância até segunda ordem.
Indignação imediata.
- Isso é loucura!
- Ele pode atacar novamente!
- Alteza, ele precisa morrer-
- Chega.
A voz dela ecoou pelo salão como gelo.
Silêncio instantâneo.
Leonore aproximou-se lentamente de um dos humanos ajoelhados próximo da mesa central.
Uma jovem.
Provavelmente não tinha mais de vinte anos.
Assustada.
Tremendo.
A princesa segurou delicadamente o rosto da humana enquanto observava a corte.
- Vocês estão tão desesperados por sangue esta noite...
Então afundou lentamente as presas no pescoço da garota.
O salão mergulhou em absoluto silêncio.
Lucien observou o sangue escorrer lentamente pela pele pálida da humana enquanto Leonore fechava os olhos por alguns segundos.
Ela não parecia feroz.
Parecia íntima.
Quase sensual.
Quando se afastou, a garota continuava viva, embora visivelmente fraca.
Leonore limpou o canto dos lábios com os dedos.
Os olhos vermelhos deslizaram lentamente até Lucien.
Como se estivesse testando sua reação.
Provocando novamente.
Sempre provocando.
- Algum problema, cavaleiro? - perguntou ela suavemente.
Lucien sustentou o olhar dela.
- Você gosta de transformar tudo em espetáculo?
O sorriso dela aumentou.
- E você gosta de fingir que não está olhando.
Aquilo arrancou alguns murmúrios discretos da corte.
Valen parecia horrorizado.
Lucien aproximou-se um passo dela.
Os guardas imediatamente tensionaram.
Leonore não se moveu.
- Cuidado. - murmurou ele.
- Com você?
Ela sorriu lentamente.
- Ou comigo?
O silêncio entre os dois ficou sufocante.
Era errado.
Todos no salão percebiam.
Aquela troca de olhares já parecia perigosa demais.
Como duas criaturas tentando decidir se iriam se matar... ou algo pior.
Leonore afastou-se primeiro.
- Levem o cavaleiro para os aposentos do leste.
Os guardas hesitaram.
- Vivo. - acrescentou ela.
Lucien arqueou levemente a sobrancelha.
A princesa aproximou-se mais uma vez antes que os guardas o levassem.
Perto o suficiente para apenas ele ouvir.
- Não tente fugir esta noite.
- Isso foi uma ameaça?
Ela sorriu.
- Não.
Os olhos vermelhos desceram lentamente até a boca dele antes de voltarem ao olhar frio.
- Foi um convite sensual.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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