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Capítulo 2 A Sombra na Porta
Os dias no convento de Santa Clara seguiam seu curso como as pétalas de um rosário, cada uma idêntica à outra, cada uma um elo na corrente interminável da devoção. Sofia havia perdido a noção do tempo externo, daquele mundo lá fora que girava em sua própria órbita de vaidades e tormentos. Aqui, dentro dos muros de pedra, o relógio marcava apenas as horas das orações, das refeições, do trabalho e do descanso, mas o que ela não sabia é que o tempo, teimoso, continuava a passar lá fora. E que ele cobrava seu preço. Era uma tarde de terça-feira quando a portaria do convento tocou. Sofia estava no claustro, regando os vasos de alecrim que bordejavam o pátio interno, quando ouviu o som distante do sino de bronze. Não era um toque comum, era mais rápido, mais urgente, como se a própria campainha estivesse aflita.
"Sofia!" chamou Irmã Margarida, surgindo na arcada com o rosto pálido. "Há um homem na portaria. Um senhor. Ele diz que é seu pai."
A regadora caiu das mãos de Sofia com um estrondo metálico. A água escorreu pelo chão de pedra, formando uma poça que refletiu seu rosto, um rosto que, de repente, perdera toda a cor.
"Meu pai?" repetiu, a voz mal saindo de sua garganta. "Mas papai nunca vem ao convento. Ele não... ele não gosta deste lugar."
Era verdade. Giorgio Conti sempre respeitara a decisão da filha, mas jamais escondera sua dor. Para ele, o convento era um túmulo onde sua filha viva havia se enterrado. Nas raras vezes em que se encontravam, nas visitas permitidas uma vez por semestre, ele vinha com o olhar carregado de uma tristeza que Sofia aprendera a ignorar. Mas ele nunca, jamais, aparecia sem aviso.
"Ele está na sala de visitas" Irmã Margarida disse, hesitante. "Madre Teresa pediu que você fosse vê-lo. Diz que seu pai... não está bem."
Sofia não esperou ouvir mais. Ergueu as saias do hábito e correu, seus passos ecoando pelos corredores de pedra como tambores de guerra. O coração batia tão forte que ela podia senti-lo na garganta, um pássaro preso em uma gaiola de costelas. Que horas são? pensou, atordoada. Será que minha mãe...?
A sala de visitas era um cômodo pequeno e austero, com duas cadeiras de madeira, uma mesa simples e uma cruz na parede. Era ali que as freiras recebiam seus familiares, em encontros breves e vigiados, onde cada palavra era medida, cada toque era contido. Sofia parou na porta, ofegante. E então o viu. Giorgio Conti estava sentado em uma das cadeiras, mas não como Sofia se lembrava. Seu pai sempre fora um homem forte, de ombros largos e postura firme, um comerciante que construíra sua fortuna com as próprias mãos, que nunca abaixava a cabeça para ninguém. O homem que agora a encarava, no entanto, era uma sombra de si mesmo. Seus cabelos, antes grisalhos nas têmporas, agora eram completamente brancos. Suas bochechas, que Sofia recordava cheias e rosadas, estavam cavadas, e a pele pendia frouxa sob seus olhos. Olhos que já não tinham o brilho vivo do passado, mas um véu opaco de desespero.
"Papai?" Sofia sussurrou, dando um passo à frente. Giorgio levantou-se com dificuldade, como se cada osso doesse. Quando abriu os braços para abraçá-la, Sofia viu que suas mãos tremiam. Ela correu para ele, enterrando o rosto em seu peito, sentindo-o tão frágil que quase tinha medo de apertá-lo.
"Meu docinho" ele murmurou contra o véu de Sofia. A voz estava rouca, quebrada. "Minha menina..."
"O que aconteceu?" Sofia afastou-se para olhá-lo, os olhos marejados. "Papai, você está doente? É a mamãe? Ela está bem? Por que você não avisou que viria?"
Giorgio sentou-se novamente, puxando Sofia para a cadeira ao lado. Suas mãos não soltavam as dela, como se ele tivesse medo de que ela desaparecesse. Por um longo momento, ele não disse nada. Apenas a olhou, com uma expressão que Sofia não conseguia decifrar, era amor, sim, mas também uma angústia tão profunda que parecia devorá-lo por dentro.
"Estou bem, fisicamente" disse ele, finalmente. "Estou... estou vivo. Mas, Sofia, eu preciso que você me escute. Preciso que você me ouça com calma." O coração de Sofia gelou.
"Papai, você está me assustando." Giorgio passou a mão pelo rosto, um gesto que ele fazia quando estava nervoso, e Sofia viu que suas unhas estavam roídas até a carne.
"Eu fiz algo terrível, filha. Algo que nunca imaginei que seria capaz de fazer." Sua voz falhou. "Eu... eu perdi tudo. A loja, a casa, as economias de uma vida. Perdi tudo." "Como?" Sofia apertou suas mãos. "O que aconteceu? Um incêndio? Um assalto?"
"Pior." Giorgio riu, um som amargo e sem humor. "Foi a ganância, Sofia. Apostei. Investi em negócios que não existiam, em pessoas que me enganaram. Emprestei dinheiro para pessoas que não devia emprestar."
Sofia sentiu um frio subir pela espinha. Havia algo na maneira como ele disse "pessoas que não devia emprestar" que a fez estremecer."Que pessoas, papai?"
Giorgio não respondeu imediatamente. Em vez disso, seus olhos se desviaram, fixando-se na cruz na parede. Por um momento, Sofia pensou que ele fosse rezar. Mas quando ele falou, sua voz era um sussurro áspero, como areia.
"Você se lembra da família Marino? O Tony... Tony Marino?"
Sofia franziu a testa. O nome soava familiar, mas distante, como uma memória de infância que ela nunca se dera ao trabalho de examinar.
"Os Marino? Eles têm um grande restaurante na cidade, não?"
"Têm." Giorgio engoliu em seco. "E têm outras coisas também. Coisas que você não precisa saber. Mas, Sofia, eu devo dinheiro a eles. Muito dinheiro. Mais do que eu poderei pagar em dez vidas." O ar pareceu rarear na sala. Sofia soltou as mãos do pai, recostando-se na cadeira.
"Quanto?" perguntou, a voz tão baixa que mal era audível. Giorgio fez uma pausa. Quando respondeu, foi como se as palavras arrancassem pedaços dele. "Seiscentos e cinquenta mil euros."
O número pairou no ar como uma nuvem negra. Sofia sentiu o estômago se contrair, a cabeça girar. Duzentos e cinquenta mil euros. Seu pai, que sempre fora tão cuidadoso, tão prudente, devia Seiscentos e cinquenta mil euros a um homem chamado Marino.
"Mas isso é um absurdo" ela disse, tentando encontrar uma lógica. "Como você pode dever tanto? Você é um comerciante, papai. Você sempre foi..."
"Um tolo" interrompeu Giorgio, a voz se quebrando. "Um tolo orgulhoso e ambicioso. Achei que poderia dobrar meu dinheiro em seis meses. Achei que seria esperto, que enganaria os outros antes que eles me enganassem." Ele enterrou o rosto nas mãos. "Perdoe-me, Sofia. Perdoe-me por estar aqui, envergonhando você diante das irmãs. Perdoe-me por ter falhado." Sofia não sabia o que dizer. O mundo, que até poucos minutos atrás parecia tão ordeiro e seguro, começava a se inclinar em seu eixo. Ela olhou para o pai, para o homem que sempre fora seu herói, seu porto seguro e viu apenas ruínas.
"Nós vamos resolver isso" ela disse, mas sua voz não soou convincente nem para si mesma. "Talvez as irmãs possam ajudar. Há fundos de caridade, empréstimos da igreja..."
"Não, Sofia." Giorgio levantou a cabeça e Sofia viu, para seu horror, lágrimas escorrendo por suas rugas. "Não é assim que as coisas funcionam com os Marino. Não existe negociação, não existe misericórdia. Tony Marino não quer o dinheiro."
"Como assim?" Sofia piscou, confusa. "O que ele quer, então?"
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia ter peso. Giorgio a olhou, e naquele olhar Sofia viu algo que a fez querer recuar, uma mistura de culpa e desespero, como se ele estivesse prestes a jogar uma bomba em seus pés.
"Ele quer você, Sofia." As palavras caíram como pedras no chão. "O que?"
"Ele disse que pagará a dívida..." Giorgio continuou, as palavras saindo aos tropeços, "Do próprio bolso. Mas com uma condição. Ele quer que você... que você se case com ele."
Sofia sentiu como se o chão tivesse aberto sob seus pés. Ela se levantou tão abruptamente que a cadeira rangeu contra o chão.
"Isso é loucura. Você está mentindo. Não pode estar falando sério."
"Eu gostaria de estar mentindo." Giorgio também levantou, estendendo as mãos para ela. "Sofia, por favor, entenda. Tony Marino não é um homem comum. Ele é perigoso. As coisas que ele faz com seus devedores... as coisas que ele já fez com outras pessoas que tentaram fugir..."
"Estou protegida aqui!" Sofia gritou, e sua voz ecoou pelas paredes de pedra. "Este é um convento, papai! Sou uma noviça, vou fazer meus votos em três meses. Ninguém pode me tirar daqui. Nem você, nem um mafioso, nem o próprio diabo!"
"Ele não precisa te tirar daqui" Giorgio disse, sua voz de repente cansada, derrotada. "Ele pode simplesmente esperar. Pode esperar até você sair, até ir visitar sua mãe, até fazer uma caminhada. Ele tem homens, Sofia. Homens que obedecem a qualquer ordem."
Sofia sentiu as pernas fraquejarem. Ela se apoiou na mesa, o coração disparado. "Isso é uma ameaça?" "É a verdade." Giorgio deu um passo em sua direção. "Tony Marino tem seus olhos em você há meses. Desde que viu uma fotografia sua no meu escritório. Ele disse que... que você era a mulher mais bonita que já viu. Que sempre quis uma esposa devota, uma mulher de fé. E então ele soube da dívida e viu a oportunidade."
A sala de repente pareceu pequena demais. Sufocante. Sofia tentou respirar fundo, mas o ar não entrava. As imagens embaralham em sua mente "seu pai, a dívida, o nome de Tony Marino. E a voz de Madre Teresa, tão clara em sua memória, dizendo que sua fé era um exemplo."
"Eu não posso" ela sussurrou, mais para si mesma do que para o pai. "Eu não vou. Eu já escolhi, papai. Escolhi Jesus. Escolhi esta vida."
"Eu sei, eu sei, meu amor." Giorgio finalmente a abraçou, e Sofia sentiu seu corpo tremer. "E eu não tenho o direito de pedir que você mude essa escolha. Mas eu não sabia mais o que fazer. Não sabia onde mais correr. Tony ameaçou sua mãe. Disse que se eu não trouxesse a notícia para você, ele mesmo viria. E você sabe o que aconteceria se ele viesse aqui."
Sofia fechou os olhos. As lágrimas que ela vinha segurando finalmente romperam a barreira, escorrendo quentes por suas bochechas.
"Isso é um pesadelo" ela murmurou. "Isso não pode estar acontecendo."
"Querida, eu vou embora agora." Giorgio a soltou, enxugando as próprias lágrimas com o dorso da mão. "Só queria que você soubesse. Queria que estivesse preparada. Se Tony aparecer aqui, e ele vai aparecer, não tente enfrentá-lo. Não diga não, pelo menos não diretamente. Ele não é um homem que aceita uma negativa."
"E o que você sugere que eu faça?" Sofia perguntou, a voz carregada de uma amargura que nunca sentira antes. "Que eu me curve à vontade de um bandido?"
Giorgio hesitou. "Eu sugiro que você reze. Reze muito. E que me perdoe." Ele a beijou na testa, um beijo rápido, como o de um homem que está fugindo. E então, sem olhar para trás, Giorgio Conti saiu da sala, deixando Sofia sozinha com o eco de suas palavras e o silêncio que as seguia. Sofia ficou imóvel por um longo tempo. Olhou para a cruz na parede, para o Cristo de braços abertos, e tentou encontrar ali a paz que sempre encontrava. Mas algo havia mudado. A sala, o convento, sua vida, tudo parecia agora uma casa de cartas prestes a desabar. Ajoelhou-se no chão frio e juntou as mãos. "Senhor" ela orou, a voz trêmula, eu não entendo. "Como pode ser esta a Tua vontade? Eu te escolhi. Eu me entreguei a Ti. Por que este sofrimento? Por que este medo?"
Mas o céu, naquele momento, permaneceu em silêncio. E Sofia, pela primeira vez em quatro anos, sentiu a sombra da dúvida tocar seu coração.
Lista de capítulos
10 capítulos no total
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