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Capítulo 3 A Calmaria antes da tormenta

Os três dias que se seguiram à visita de seu pai foram os mais longos da vida de Sofia. O convento continuava sua rotina imutável, os sinos tocavam nas mesmas horas, as orações eram recitadas nos mesmos tons, as irmãs caminhavam pelos mesmos corredores com a mesma serenidade de sempre. Mas para Sofia, tudo havia mudado. O mundo, que antes era um jardim de paz, agora parecia uma paisagem estrangeira, onde cada sombra escondia uma ameaça e cada silêncio carregava um segredo. Ela não contou a ninguém sobre o que ouvira. Como poderia? Como explicar que seu pai, o homem que a criara com tanto amor, a havia trocado por uma dívida de jogo? Como confessar que um mafioso desconhecido a reivindicava como se ela fosse uma propriedade? As palavras ficavam presas em sua garganta, tão pesadas e venenosas que Sofia temia que, se as soltasse, contaminariam a pureza daquele lugar sagrado. Na manhã seguinte à visita de Giorgio, Sofia acordou antes do sino. Ficou deitada na cama estreita, os olhos abertos para o teto de madeira, enquanto a luz da aurora se infiltrava lentamente pela janela. Rezou, como sempre rezava. Mas as palavras pareciam ocas, ecoando em um vazio que antes não existia.

"Pai Nosso, que estais no Céu.." murmurou, mas interrompeu-se. "Santificado seja o Vosso nome. O Vosso nome..." Ela pensou em Tony Marino. Pensou em como ele devia ter ouvido seu nome pela primeira vez, em como seus lábios deviam ter pronunciado "Sofia" como quem prova um vinho raro. O pensamento a enojava.

"Não" disse em voz alta, sentando-se na cama. "Não vou deixar que ele me roube isso também."

O dia transcorreu em uma névoa. Sofia foi à missa, cantou os salmos, trabalhou na horta. Mas suas mãos agiam por conta própria, enquanto sua mente vagava por labirintos de medo e incerteza. Ao meio-dia, enquanto almoçava com as outras irmãs, Irmã Margarida tocou seu braço. "  "Sofia, você está pálida. Comeu quase nada." Sofia forçou um sorriso.

"Estou bem, Irmã. Apenas... pensativa. Os votos estão chegando, e a emoção tem me tirado o apetite."

"Ah, a doce ansiedade de uma noiva de Cristo!" Irmã Margarida riu, batendo palmas. "Lembro-me de como me sentia antes dos meus votos. Era como se meu coração fosse explodir de tanta alegria."

"Sim" Sofia concordou, baixando os olhos para o prato. "Como se fosse explodir." Como se fosse explodir de medo, completou em pensamento.

À tarde, Madre Teresa a chamou ao seu escritório. A madre superiora estava sentada atrás de sua escrivaninha, os dedos entrelaçados sobre a madeira polida. Seus olhos azuis, que sempre pareciam ver através das almas, fixaram-se em Sofia com uma intensidade que a fez estremecer.

"Sente-se, filha." Sofia obedeceu, com as mãos suadas sobre o hábito.

"Soube que seu pai a visitou anteontem" Madre Teresa disse, sua voz suave como veludo. "Geralmente, as visitas familiares nos trazem alegria. Mas notei que, desde então, algo parece perturbá-la. Seu olhar está distante, suas orações, mecânicas."

Sofia abriu a boca para negar, mas as palavras não vieram. Em vez disso, sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Madre Teresa levantou-se imediatamente, contornou a mesa e ajoelhou-se diante dela, tomando suas mãos.

"Minha filha, o que aconteceu?"

"Madre" Sofia sussurrou, a voz falhando "eu não posso... não posso dizer. É terrível. É tão terrível que tenho medo de que, ao dizê-lo em voz alta, ele se torne real."

"Ele já é real, Sofia." Madre Teresa apertou suas mãos com firmeza. "Seja qual for o fardo que você carrega, Deus já o conhece. E Ele não o colocou em seus ombros para que você o carregue sozinha. Conte-me. Confie em mim."

Por um longo momento, Sofia hesitou. Mas a bondade nos olhos da madre superiora era como um ímã, atraindo para fora tudo o que ela havia mantido preso. E assim, entre soluços, Sofia contou tudo: a dívida, a ameaça, a condição imposta por Tony Marino. Quando terminou, o silêncio no escritório era tão denso que Sofia podia ouvir o tique-taque do relógio na parede. Madre Teresa permaneceu imóvel, seu rosto uma máscara de serenidade que escondia, Sofia sabia, uma tempestade de preocupação. "Isso é gravíssimo" disse a madre, finalmente. "Seu pai colocou você em uma posição impossível."

"Eu sei." Sofia enxugou os olhos com a manga do hábito. "Mas o que eu faço, Madre? Posso ficar aqui, escondida atrás destes muros, para sempre?" Madre Teresa suspirou.

"Não, filha. Não para sempre. Você precisa sair para fazer compras, para visitar sua mãe, para consultar o médico. E mesmo que nunca saísse, o mundo tem pernas longas. Tony Marino, se for tão poderoso quanto seu pai diz, pode encontrar maneiras de chegar até você."

"Então estou condenada?" A voz de Sofia era um fio de desespero. "Devo simplesmente aceitar minha sorte e me casar com um estranho?"

"Não." Madre Teresa levantou-se, caminhando até a janela. Lá fora, o jardim do convento florescia sob o sol da tarde. "Há sempre uma escolha, Sofia. Sempre. Mas precisamos de sabedoria para enxergá-la."

A madre voltou-se para ela, seus olhos brilhando com uma luz determinada. "Fique aqui, no convento, pelos próximos dias. Não saia. Não atenda a ninguém. Eu vou entrar em contato com o bispo, com algumas pessoas influentes da igreja. Talvez possamos interceder junto às autoridades, talvez possamos encontrar uma saída legal para essa situação."

"E se ele vier antes disso?"

"Se ele vier, eu mesma falarei com ele." Madre Teresa endireitou os ombros, e Sofia viu nela a força de uma mulher que havia enfrentado tempestades muito piores. "Este é um lugar sagrado, Sofia. Ninguém, nem mesmo um mafioso, entra aqui sem minha permissão."

Sofia sentiu um fio de esperança se acender em seu peito.

"Obrigada, Madre. Obrigada."

"Não me agradeça ainda." Madre Teresa a abraçou. "Apenas reze. Reze com toda a força de sua fé. E confie que Deus não a abandonará."

Naquela noite, Sofia rezou mais do que jamais rezara. Ajoelhada na capela vazia, sob a luz trêmula das velas, ela derramou sua alma diante do sacrário. Pediu força. Pediu coragem. Pediu que Tony Marino desistisse de seu plano, que seu pai encontrasse uma maneira de pagar a dívida, que o mundo, de alguma forma, voltasse a fazer sentido. Mas o céu permaneceu em silêncio.  No segundo dia, Sofia começou a notar coisas estranhas. Um carro preto estacionado do lado de fora do portão principal, que permanecia ali por horas antes de desaparecer. Um homem de terno escuro que caminhava pela rua, olhando para as janelas do convento com uma fixação que fazia sua pele se arrepiar. Pequenas coisas, quase imperceptíveis, mas que se acumulavam como nuvens de tempestade no horizonte.

"São apenas imaginações suas" disse a si mesma, enquanto trabalhava no scriptorium. "Você está nervosa, vendo perigos onde não existem."

Mas não conseguia acreditar nisso. Naquela noite, enquanto se preparava para dormir, Sofia ouviu um barulho vindo do jardim. Levantou-se e foi até a janela, o coração batendo acelerado. Lá embaixo, na penumbra do pátio, uma figura masculina se movia entre as roseiras. Não era uma das irmãs. Era alto, de ombros largos, vestido de preto. Sofia prendeu a respiração. A figura parou, olhou para cima, e por um momento seus olhos se encontraram através da escuridão. O homem sorriu, um sorriso lento, predatório e então se virou e desapareceu na noite. Sofia recuou da janela, o coração disparado. Seus dedos tremeram enquanto fazia o sinal da cruz.

"Ave Maria, cheia de graça..." murmurou, mas a oração parecia inútil, as palavras vazias.

No terceiro dia, a calmaria finalmente se rompeu de vez. Era início da tarde quando o sino da portaria tocou novamente. Sofia estava na capela, ajoelhada diante do altar, quando ouviu os passos apressados de Irmã Margarida no corredor.

"Sofia!" a irmã chamou, ofegante. "Há um homem na portaria. Ele está pedindo pra te ver."

"Quem é? " Sofia perguntou, embora já soubesse a resposta.

"Ele disse que se chama Tony Marino." Irmã Margarida parecia assustada, as mãos tremendo. "Ele está com outros homens. Homens grandes, de terno. A madre Teresa está falando com ele, mas ele... ele insiste em vê-la."

O nome pairou no ar como um chicote. Sofia sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Por um momento, todo o ar pareceu se esvair da capela, e ela teve que se segurar no banco para não cair.

"Eu sabia" sussurrou, a voz rouca. "Eu sabia que ele viria."

"Você não precisa vê-lo" Irmã Margarida disse, pegando sua mão. "Madre Teresa pode despachá-lo, pode chamar a polícia..." "Não, Irmã." Sofia levantou-se lentamente, seus olhos fixos no crucifixo do altar. "Se eu me esconder agora, ele só vai voltar. E da próxima vez, talvez não venha sozinho." Ela virou-se para a irmã mais velha, seu rosto uma máscara de determinação forjada no desespero. "Vou encontrá-lo. Vou olhar nos olhos desse homem e dizer a ele que não sou uma mercadoria."

"Sofia, isso é perigoso!"

"Eu sei." Sofia apertou a mão de Irmã Margarida. "Mas também é a única maneira de mostrar a ele que não tenho medo." Com o coração disparado e as mãos geladas, Sofia caminhou pelos corredores do convento em direção à portaria. A cada passo, ela repetia mentalmente as palavras de Madre Teresa: Há sempre uma escolha. Sempre.

Quando finalmente chegou à entrada, viu-o. Tony Marino estava de pé no pátio interno, cercado por seus homens. Ele era mais alto do que Sofia imaginara, mais magro, com cabelos escuros penteados para trás e olhos que brilhavam como aço sob o sol da tarde. Vestia um terno impecável, cinza-escuro, e suas mãos, mãos que Sofia sabia serem capazes de violência, estavam enfiadas nos bolsos com uma casualidade estudada. Ao vê-la, Tony sorriu. E aquele sorriso, Sofia percebeu com um calafrio, era o sorriso de um homem que já sabia que vencera.

"Sofia Conti" ele disse, sua voz grave e aveludada, como o rumor de uma seda sendo rasgada. "Finalmente. Eu estava começando a pensar que você nunca sairia."

Sofia ergueu o queixo, suas mãos cerradas contra o hábito. "O que o senhor quer aqui, Sr. Marino?"

Tony deu um passo à frente, e Sofia sentiu os olhos dele percorrerem seu corpo como um ladrão avaliando uma joia.

"O que eu quero?" Ele riu, um som baixo e perigoso. "Eu quero você, Sofia. E eu sempre consigo o que quero."

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

10 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O Véu da Devoção
  2. Capítulo 2Capítulo 2 A Sombra na Porta
  3. Capítulo 3Capítulo 3 A Calmaria antes da tormenta

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