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Capítulo 1 O fio que nos une - Anastácia

A mansão dos Vilaça ficava no topo da rua mais silenciosa do bairro mais caro da cidade, atrás de um portão de ferro que nunca rangia, porque tudo ali era feito para não fazer barulho. Nem os passos dos empregados, nem as portas, nem os sentimentos. Anastácia cresceu entre paredes brancas e quadros que ninguém explicava, aprendendo cedo que existiam dois tipos de silêncio: o silêncio de quem está em paz, e o silêncio de quem está sendo observado o tempo todo. O dela era sempre o segundo. Ela tinha dezoito anos, cabelos escuros que a mãe insistia em prender em coques apertados demais, e um jeito de andar ensaiado - costas retas, queixo erguido, passos curtos - que Dona Beatriz corrigia com um simples "Anastácia" sempre que a filha esquecia de se comportar como uma Vilaça. - Uma Vilaça não corre. Uma Vilaça não grita. Uma Vilaça não se mistura - dizia a mãe, como quem repete um mantra havia dezoito anos. Anastácia nunca soube dizer quando começou a sentir que essas frases não combinavam com ela. Talvez desde sempre. Havia algo em seu peito que parecia empurrar contra as paredes da casa, contra as regras, contra o próprio nome que carregava como um sobrenome pesado demais para o corpo. Seu pai, Ricardo Vilaça, era dono de uma rede de hospitais particulares espalhados pelo estado - um homem de temperamento calculado, que tratava a filha com a mesma cortesia distante que reservava aos investidores. Amava-a, Anastácia sabia disso, mas era um amor com hora marcada, entre uma reunião e outra, entre um voo e outro. A mãe era diferente. Beatriz Vilaça tinha um jeito de olhar para Anastácia que ia além do orgulho comum de uma mãe. Havia ali um cuidado quase desesperado, como se a filha fosse uma peça rara que pudesse quebrar a qualquer descuido. Ela nunca deixava Anastácia andar sozinha pela cidade, nunca permitia que a filha dormisse fora, nunca relaxava quando Anastácia chegava dez minutos atrasada. - Você não entende o mundo lá fora, minha filha - dizia Beatriz, os dedos apertando o colar de pérolas no pescoço, um gesto que Anastácia reconhecia como nervosismo, embora nunca soubesse explicar o porquê daquele nervosismo tão constante. Havia, é claro, os privilégios. Anastácia tinha carro com motorista, professores particulares de francês e piano, um guarda-roupa maior que o quarto de muita gente. Tinha tudo, exceto a coisa mais simples: a sensação de que aquela vida lhe pertencia de verdade. Às vezes, deitada na cama enorme demais para uma pessoa só, ela tinha um sonho antigo, recorrente desde a infância. Nele, era muito pequena - um bebê, talvez - e via, embaçado como quem olha por trás de um vidro molhado, o rosto de uma mulher desconhecida. Não a mãe. Uma mulher de olhos cansados, cabelo preso de qualquer jeito, que a segurava com um misto de urgência e ternura, caminhando depressa por um corredor comprido, branco, cheio de portas fechadas. O sonho nunca ia além disso. Anastácia acordava com o coração disparado, uma sensação estranha de perda que não conseguia nomear, e levava minutos para lembrar onde estava - no seu quarto, na sua cama, na sua vida de sempre. Contava esse sonho para poucas pessoas. A mãe, uma vez, quando tinha doze anos, ficou pálida ao ouvir a descrição e mudou de assunto tão rápido que Anastácia aprendeu a nunca mais tocar no tema em casa. - Sonhos não significam nada, querida - foi tudo que Beatriz disse, antes de sair do quarto com pressa incomum. Anastácia cresceu, então, aprendendo a guardar aquele sonho como quem guarda um segredo que nem sabe se é seu. Formou-se no colégio mais tradicional da cidade em julho daquele ano, um mês antes de completar dezoito anos, com notas impecáveis e um discurso de despedida que a mãe revisou linha por linha. Devia entrar na faculdade de Direito em breve, seguindo os passos que já estavam traçados havia muito tempo - a faculdade certa, o estágio certo, o noivo certo, um dia. Mas naquele fim de tarde de agosto, quando pediu à mãe para caminhar até a praça perto de casa sozinha, pela primeira vez, algo em Anastácia já sabia, sem saber, que sua vida estava prestes a se partir ao meio. - Só até a praça, mãe. Cinco minutos a pé. Eu levo o celular. Beatriz hesitou tanto tempo que Anastácia quase desistiu. Mas então a mãe suspirou, como quem cede a uma batalha que sabe perdida, e assentiu. - Volte antes de escurecer. Anastácia saiu de casa com o coração leve pela primeira vez em muito tempo, sem imaginar que, a poucos quarteirões dali, um rapaz chamado Noah também caminhava até a mesma praça, carregando consigo uma vida inteiramente diferente - e um destino que já estava, havia dezoito anos, entrelaçado ao dela.

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Lista de capítulos

95 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O fio que nos une - Anastácia
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O Milagre da Rosa - Noah
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Sob a Amendoeira

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