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Capítulo 2 O Milagre da Rosa - Noah
Do outro lado da cidade, onde as ruas não tinham nome bonito e os portões eram de grade enferrujada em vez de ferro trabalhado, Noah vivia com a mãe num sobrado de dois cômodos que cheirava sempre a café e a pão do dia anterior. A casa ficava no fim de um beco sem saída, apertada entre outras duas iguais, com uma porta de madeira que empenava no inverno e um telhado que Noah subia, uma vez por ano, para trocar as telhas quebradas antes que a chuva de outubro alagasse a sala. Dona Rosa trabalhava havia vinte anos como costureira, as mãos grossas de calo, os olhos cansados de tanto entrecerrar diante da agulha sob a luz fraca da sala. Tinha uma máquina Singer antiga, herdada de ninguém - comprada, dizia ela, "com o suor de muito mês apertado" -, que rodava até tarde da noite, ajustando bainhas, remendando ternos de gente que ela nunca conheceria pessoalmente, costurando vestidos de festa para mulheres que jamais a convidariam para entrar em suas casas pela porta da frente. Não era muito de falar sobre o passado. Quando Noah perguntava sobre o pai, ela dizia apenas que ele tinha partido cedo demais, antes mesmo de Noah aprender a andar, e mudava de assunto com a mesma pressa que Beatriz Vilaça mudava de assunto quando o tema era sonhos. Havia, na casa deles, um álbum de fotos fino demais para uma vida inteira - poucas páginas, poucas imagens, quase nenhuma de antes dos dois anos de idade de Noah. Ele reparava nisso às vezes, folheando o álbum em tardes de tédio, mas nunca tinha coragem de perguntar por que faltavam tantos retratos do começo. Noah cresceu sabendo que dinheiro era coisa que se contava duas vezes antes de gastar, que roupa boa era a que não tinha buraco, e que amor - o amor de verdade, o que sustentava uma casa inteira sozinho - não precisava de luxo para existir. Rosa dava duro para pagar as contas, mas nunca deixou faltar carinho. Nos aniversários, mesmo quando o dinheiro era curto, aparecia sempre um bolo simples, feito em casa, com uma vela emprestada da vizinha e um abraço apertado demais para caber em palavras. Ela tinha um jeito de olhar para o filho que ia além do orgulho comum de uma mãe - um cuidado quase desesperado, como se ele fosse uma dádiva rara demais para merecer. - Você é o milagre da minha vida, Noah - dizia ela, sempre que o via voltar da rua inteiro, sempre que ele passava numa prova, sempre sem motivo aparente algum. Dizia isso ao vê-lo dormindo, ao vê-lo comendo, ao vê-lo simplesmente existindo na cadeira ao lado dela. Noah achava graça, quando criança, daquela frase repetida com tanta convicção. Todo filho era milagre para a mãe, imaginava ele. Só mais tarde entenderia o quanto aquelas palavras eram, na verdade, literais - não uma figura de linguagem, mas uma confissão disfarçada de carinho, repetida tantas vezes que tinha perdido o peso de segredo e virado apenas hábito de amor. Aos dezoito anos, Noah trabalhava meio período numa oficina mecânica, aprendendo o ofício com o dono, seu Ademar, um homem bruto por fora e generoso por dentro, que via no rapaz um jeito raro de paciência para lidar com motores emperrados. Ademar tinha assumido Noah como aprendiz aos catorze anos, quando o garoto apareceu perguntando se havia algum serviço - varrer o chão, carregar peças, qualquer coisa - em troca de um trocado extra para ajudar em casa. Com o tempo, o "qualquer coisa" virou aprendizado de verdade: Noah aprendeu a trocar óleo, calibrar carburador, diagnosticar um motor só pelo som que fazia ao ligar. - Você tem mão boa pra isso, moleque - dizia Ademar, batendo no ombro dele com a força de quem não sabe medir a própria mão. - Um dia ainda vai ser engenheiro e vai rir da gente aqui, remendando ferro velho. - Nunca vou rir de vocês, seu Ademar - respondia Noah, sério. - Foi aqui que aprendi a trabalhar direito. À noite, depois da oficina, Noah estudava para tentar o vestibular de Engenharia numa universidade pública, sem bolsa, sem cursinho caro, só com os livros usados que conseguia comprar no sebo perto de casa - livros com páginas amareladas, anotações de outros estudantes nas margens, capas remendadas com fita adesiva. Estudava na mesa da cozinha, sob a mesma luz amarela que iluminava a costura da mãe, os dois trabalhando em silêncio companheiro até tarde, cada um debruçado sobre seu próprio sonho de futuro melhor. Não reclamava da vida que tinha. Havia orgulho em cada centavo ganho com esforço, em cada prato de comida que ele e a mãe dividiam depois de um dia inteiro de trabalho - arroz, feijão, um ovo frito quando o mês permitia, e sempre, sempre, uma conversa boa para acompanhar. Mas havia também, escondido bem no fundo, um peso que ele nunca soube nomear - uma sensação estranha, antiga, de que faltava algo em sua história, uma peça que ele não sabia nem que estava perdida. Às vezes, no meio da noite, acordava com uma inquietação sem motivo, uma vontade de chorar que não conseguia explicar, como se o corpo lembrasse de algo que a mente tinha esquecido havia muito tempo. Às vezes, olhando para o próprio rosto no espelho do banheiro pequeno, ele se perguntava por que não se parecia em nada com a mãe. Rosa era baixa, de pele morena, olhos redondos, cabelo crespo que ela prendia num coque simples desde que Noah tinha memória. Noah era alto, de traços mais finos, olhos claros que destoavam de tudo à sua volta - olhos que, no bairro inteiro, ninguém mais parecia ter. Quando perguntava, ela sorria de um jeito triste e dizia que ele puxara ao pai. - Você tem os olhos dele - falava, e havia sempre um brilho de tristeza ali que Noah aprendeu a não questionar. Era o único assunto diante do qual a voz sempre firme de Rosa vacilava, o único momento em que as mãos, tão seguras com agulha e linha, tremiam de leve. Havia também os amigos de infância, os vizinhos que conheciam Noah desde bebê e que, ocasionalmente, comentavam coisas soltas que ele nunca soube muito bem o que fazer - a vizinha dona Efigênia, que certa vez, tomando café na varanda, disse baixinho para outra vizinha "que menino bonito esse, nem parece ser filho da Rosa", e riu, sem perceber que Noah, sentado no degrau ao lado, tinha ouvido tudo. Ele guardou aquele comentário na memória como quem guarda uma pedrinha no sapato - incômodo pequeno, mas constante, que nunca sumia de vez. Naquele fim de tarde de agosto, Noah saiu da oficina mais cedo que o normal, o corpo cansado, as mãos ainda com cheiro de graxa mesmo depois de lavadas três vezes na pia dos fundos. O céu estava daquele azul quase alaranjado que só aparece no fim das tardes de fim de inverno, e Noah sentiu vontade de andar devagar, de aproveitar os poucos minutos livres antes de voltar para casa e enfrentar mais uma noite debruçado sobre livros de física e matemática. Passou pela praça no caminho de casa, como fazia quase todo dia, para sentar um pouco no banco de sempre, sob a sombra de uma amendoeira grande e antiga que dava sombra havia mais tempo do que qualquer morador do bairro conseguia lembrar. Era ali que ele organizava os pensamentos, que planejava o próximo passo dos estudos, que às vezes, simplesmente, deixava a mente vagar sem rumo por alguns minutos preciosos antes da rotina engolir tudo de novo. Foi lá que a viu pela primeira vez. Uma moça de cabelos escuros presos num coque que parecia armado demais para um simples passeio, vestida com uma blusa clara que devia custar mais do que Noah ganhava num mês inteiro, sentada na outra ponta do banco, olhando para os pombos com uma expressão que ele reconheceu de imediato - a expressão de quem está, pela primeira vez em muito tempo, respirando de verdade. Havia algo na postura dela, um misto de rigidez treinada e vontade contida de relaxar, que despertou em Noah uma curiosidade que ele não soube explicar direito. Ele não soube explicar por que se aproximou. Não era do seu feitio puxar assunto com estranhos - Ademar sempre dizia, brincando, que Noah tinha "papo de motor, não de gente". Talvez fosse a forma como ela sorria sozinha, sem perceber que estava sendo observada, um sorriso pequeno e genuíno direcionado a nada além de um bando de pombos brigando por migalhas. Talvez fosse simplesmente o destino cumprindo, sem pressa, uma dívida antiga de dezoito anos. - Os pombos daqui são folgados - disse Noah, sentando-se dois palmos mais perto, num tom leve, quase sem pensar antes de falar. - Já tentaram roubar meu lanche outro dia. Anastácia virou-se, surpresa, e o riso que escapou dela foi tão genuíno, tão diferente de tudo que Noah já tinha ouvido - nada da risada contida e educada que ele imaginava ser padrão em famílias como a que a roupa dela sugeria - que ele soube, ali mesmo, sem entender bem o porquê, que aquele seria um dia que não ia esquecer. Nenhum dos dois sabia, naquele instante, que os destinos que os levaram até aquele banco de praça haviam sido trocados havia dezoito anos, numa noite de hospital que nenhum dos dois lembrava - mas que suas mães, cada uma à sua maneira, jamais conseguiram esquecer.
Lista de capítulos
95 capítulos no total
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