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Capítulo 3 Sob a Amendoeira
- Você vem sempre aqui? - perguntou Anastácia, ainda com um resquício de riso na voz, tentando entender por que aquele desconhecido de mãos manchadas de graxa parecia tão à vontade puxando assunto com ela. - Quase todo dia. É no caminho de casa - respondeu Noah, encostando-se no banco. - Você não é daqui, é? Nunca te vi por perto. - Moro ali adiante - disse ela, apontando vagamente para a direção das ruas largas e arborizadas, sem mencionar o portão de ferro nem o sobrenome que normalmente abria (ou fechava) portas. - É a primeira vez que saio sozinha para caminhar. Minha mãe é meio... protetora. Noah ergueu uma sobrancelha, achando graça na forma cuidadosa como ela escolheu a palavra. - Meio? Pelo jeito que você disse isso, acho que "meio" é eufemismo. Anastácia riu de novo, e dessa vez não se conteve - foi um riso alto, quase escandaloso para os padrões que a mãe lhe ensinara, e que a fez tampar a boca com a mão, surpresa consigo mesma. - Desculpa. Não sei por que ri assim. - Não peça desculpa por rir - disse Noah, olhando para ela com uma sinceridade desarmante. - É bom ouvir. Conversaram por quase uma hora sem perceber o tempo passar. Noah contou sobre a oficina, sobre o sonho de cursar Engenharia, sobre a mãe costureira que trabalhava dobrado para sustentar os dois. Não escondeu a pobreza - falava dela com uma naturalidade que intrigou Anastácia, que estava acostumada a um mundo onde dinheiro era assunto que não se mencionava em voz alta, como se fosse indecente. Anastácia, por sua vez, falou pouco sobre a própria vida. Disse que ia começar Direito, que morava com os pais, que tinha acabado de se formar no colégio. Evitou mencionar o nome da família, o tamanho da casa, os motoristas, as regras. Havia algo naquela conversa simples, sem rótulos, que ela não queria estragar cedo demais. - Você tem um jeito estranho de olhar para as coisas - comentou Noah, quando ela descreveu os pombos como "os únicos seres da cidade que fazem exatamente o que querem". - Estranho como assim? - Como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Tipo, uma pessoa que nunca teve a chance de simplesmente... sentar numa praça e não fazer nada. Anastácia ficou em silêncio por um instante, surpresa com a precisão daquela observação vinda de um estranho. - Talvez seja exatamente isso - admitiu, baixinho. O sol começou a descer, pintando o céu de laranja por trás dos prédios distantes, e Anastácia lembrou, com um sobressalto, da promessa feita à mãe. - Preciso ir. Prometi voltar antes de escurecer. Noah se levantou junto com ela, um gesto quase automático, como quem não quer que o momento termine ali. - Posso te acompanhar até onde você for? Só até onde for seguro, prometo não invadir o "meio protetora". Anastácia hesitou. Sabia que não devia. Sabia que, se a mãe a visse chegando acompanhada por um rapaz desconhecido, de roupas simples e mãos de trabalho, o mundo inteiro desabaria em sermões. Mas alguma coisa nela - talvez a mesma coisa que a empurrava contra as paredes da mansão havia dezoito anos - disse que sim antes que a razão pudesse vencer. - Só até a esquina - respondeu, sorrindo. Caminharam devagar, o tempo todo conversando sobre nada e sobre tudo, e quando chegaram à esquina que separava os dois mundos - de um lado o asfalto remendado das ruas simples, do outro o calçamento impecável do bairro nobre -, Noah parou, respeitando o limite sem perguntar. - Foi bom te conhecer... - ele parou, percebendo que não sabia o nome dela. - Anastácia - completou ela. - Noah - disse ele, estendendo a mão de leve, um gesto quase formal que os dois acharam engraçado, dado tudo que já tinham conversado. - Talvez eu volte à praça amanhã - disse Anastácia, sem conseguir esconder a esperança na voz. - Talvez eu também esteja lá - respondeu Noah, com um sorriso que ela levaria consigo, pensando nele, a noite inteira. Anastácia voltou para casa com o coração acelerado, sentindo pela primeira vez em muito tempo que tinha vivido algo que era só seu - não ensaiado, não aprovado antecipadamente pela mãe, não parte de nenhum roteiro de "como ser uma Vilaça". Guardou o segredo daquele encontro como quem guarda um tesouro recém-descoberto, sem imaginar quantas outras coisas aquele encontro estava prestes a desenterrar.
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